100 anos de Supirinha: Sabor e nostalgia de São Vicente

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Mantém-se nítido na memória e no palato dos mindelenses o sabor doce e nostálgico dos refrigerantes Supirinha. Este suco com gás, que celebra este ano de 2017 um século e marcou gerações, desapareceu do mercado, mas ninguém esquece as paródias e festas regadas à Supirinha de morango, laranja, limão, de entre outros. Hoje, nas antigas instalações, restam poucas lembranças. Apenas fotos e documentos que atestam a dinâmica desta unidade industrial que, no seu auge, chegou a empregar mais de uma dezena de trabalhadores e a produzir até três mil garrafas de refrigerantes de vários sabores por hora. A fama desta bebida era tanta que serviu de inspiração para letra de uma música, da autoria de Djo “África Star”.

Ao Mindelinsite, Eurico Galleano, que substitui o pai à frente dos negócios, contou que a fábrica foi criada pelo avô, um cidadão italiano que chegou à São Vicente fugindo da 1ª Guerra Mundial. “O meu avô veio em 1914, acompanhado do Sérgio Frusoni. Começou a namorar uma crioula e decidiu ficar. Na Itália era relojoeiro, mas os italianos desenrascam-se em qualquer actividade. Foi com esse espírito que ele criou a fábrica. Começou a fazer laranjada em meia garrafa (ou seja em garrafas de cerveja). Mas era um processo artesanal. Enchiam as garrafas, tapavam com rolha e amarrava uma linha na borda para evitar a saída do gás. Foi assim que tudo começou”, conta.

Depois da morte do avô, prossegue, a actividade foi assumida pelo filho, Nataniel Galleano. Mais empreendedor, este mandou buscar equipamentos nos Estados Unidos. A máquina chegou a operar na Guiné Bissau, na Praia e, por último em São Vicente. Esses equipamentos trabalharam largos anos, praticamente até que as actividades foram suspensas. “Recentemente ofereci a máquina e o tanque onde armazenávamos a água para fazer as misturas de refrigerantes ao Leão Lopes, que tem um projecto para coloca-los no Museu de São Vicente”, refere.

Eurico Gallean destaca igualmente a produção de um refrigerante de nome “Pirulito”, que era acondicionado em uma garrafa diferente. “A garrafa era colocada em uma máquina, que dava uma volta ao gargalho onde havia uma anilha de borracha, que fechava sobre uma bola de vidro e que evitava a fuga de gás. Mas como as crianças quebravam as garrafas só para tirar a bola, o meu pai deixou de fazer ´Pirulito`, que era também muito apreciado pelos jovens. A máquina foi então desactivada e guardada na Casa d´Inglês, que fica acima da Areia Branca”.

Foi a partir desta altura que a Fábrica de Gasosas Galeano especializou-se na produção de Supirinha. Todos os ingredientes, bem como as receitas para fazer os refrigerantes, foram importados directamente da Inglaterra. Em São Vicente, os trabalhadores limitavam a misturar os produtos conforme as instruções e a encher as garrafas. Mas as “receitas” foram guardadas a sete chaves. “Muitas pessoas já tentaram reproduzir os sabores dos refrigerantes, ainda que com outros nomes, sem sucesso. Se tivessem perguntado, não teria nenhum problema em ensiná-los. Mas o crioulo tem a mania de que sabe tudo, pelo que não precisa receber instruções de ninguém”, diz Eurico Galeano, que deu continuidade ao trabalho do pai até a sua reforma.

Apesar de estar ausente do mercado há já alguns anos, as pessoas ainda lembram da Supirinha com nostalgia. Eurico Galleano acredita que esta memória deve-se à qualidade do produto, que respeitava padrões exigentes de higiene. “Nenhuma mão tocava no produto. Utilizávamos recipientes de vidros e panelas de inox para fazer as misturas. As máquinas eram todas eléctricas. Acabei por trabalhar nisso toda a minha vida. Teve uma altura que sequer conseguíamos dar conta da demanda. Foi nessa altura que decidi viajar para a Espanha, onde comprei uma máquina com capacidade para encher três mil garrafas de refrigerantes por hora”, exclama.

No entanto, esta “bonança” teve curta duração. É que, logo, começaram a entrar uma gama de produtos no mercado e mais baratos. A coca-cola montou uma fábrica em São Vicente. Segundo, Galeano, Supirinha deixou de render. A fábrica trabalhava apenas para pagar os salários e os benefícios dos trabalhadores. Sequer sobrava dinheiro para pagar os gastos com água e energia eléctrica. Impotente, este entrevistado do Mindelinsite diz que optou por suspender todas as actividades porque estava a “pagar” para operar.

Os equipamentos foram distribuídos para pessoas, que os utilizam para fazer peças de carros e outros. As garrafas e outros vasilhames foram para outra pessoa, que teve de deslocar-se à fábrica com uma viatura por duas vezes para recolher todo o lote. “Foi melhor assim. Não tive ganho, mas também não estou a pagar aluguer de um contentor para guardar coisas que, possivelmente, nunca mais seriam utilizados. Estas pessoas deram utilidade às máquinas”, finaliza Galeano, que decidiu por vender um apartamento próprio para indemnizar os trabalhadores e viver descansado.

Constânça de Pina

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