Activistas mindelenses: “Transferir o Ministério da Economia Marítima por si só não vai resolver os problemas de São Vicente”

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Activistas midelenses estão desconfiados da decisão do Governo de transferir o Ministério da Economia Marítima para a ilha de São Vicente. Tanto o Movimento Sokols 2017 como o Grupo de Reflexão para a Regionalização e o político João do Rosário acreditam que por detrás desta medida está uma estratégia bem montada do Executivo de sanar o descontentamento dos mindelenses, que se agudizou com a aprovação do terceiro Orçamento do Estado desta legislatura sem que a ilha fosse contemplada com os investimentos de fundo prometidos. Para estas vozes críticas da sociedade mindelense, esta medida de Ulisses Correia e Silva é mais uma “operação de cosmética” porque transferir o ministério não vai resolver, por si só, os problemas de São Vicente. Dizem que é necessário elaborar um plano estratégico integrado, em concertação com a sociedade civil, para impulsionar a economia da ilha do Porto Grande.

Apesar de defender a fixação de organismos e departamentos do Governo em São Vicente para gerar trabalho e riqueza, para o Movimento Sokols a instalação do referido ministério por si só não vai trazer benefícios para São Vicente. Segundo Salvador Mascarenhas esta medida do Governo é avulsa e pouco ou nada altera o estado em que São Vicente se encontra. “Defendemos a transferência para esta ilha de estruturas do Governo, institutos e agências reguladoras que possam gerar riquezas e não a pessoa do ministro em si. Com as novas tecnologias um governante pode até estar em Luxemburgo e fazer o seu papel. Aplaudimos a ideia de fixar organismos em São Vicente, mas não é por aí que o Governo vai resolver os problemas. Isso parece mais uma operação de cosmética para tentar acalmar os ânimos”, acredita Salvador Mascarenhas, que garante desde já que este anúncio não vai impedir a manifestação de 13 de Janeiro. Segundo este líder, o Movimento Sokols apoia qualquer iniciativa do Executivo de realmente fazer uma descentralização efectiva, sem manobras que de nada servem para alavancar a economia de São Vicente.

Não sabemos se o ministro da Economia vai ficar aqui em permanência ou se vai voltar de repente para a Capital. Ou ainda se o próximo Governo vai decidir manter ou retirar o ministério de São Vicente. Tem de haver um plano de descentralização,” afirma Salvador, lembrando que os cabo-verdianos não são bebés para serem iludidos com “doces”. “Os cabo-verdianos são os verdadeiros donos do país, os governantes devem prestar contas ao povo e sentar-se com a sociedade e discutir as medidas.”

Segundo Salvador Mascarenhas, com este anúncio do Executivo de Ulisses Correia e Silva está justificado o porquê de o Governo não estar a falar mais da Regionalização, quando falta pouco tempo, cerca de dois anos, para terminar a legislatura.“Pode ser uma estratégia também para calar o povo e fugir da Regionalização. Mas vamos continuar a lutar para isso. Nós defendemos a Regionalização política e não administrativa, como o MpD quer, porque cria estruturas do Estado e mais gastos”, diz o líder do Sokols, para quem só com este novo sistema político e com adopção de listas uninominais os cabo-verdianos conseguem participar activamente na governação do país, sem terem de pertencer, obrigatoriamente, a qualquer partido político. Outro imperativo,segundo Mascarenhas, é diminuir os gastos supérfluos dos governantes.

Não se entende por que os governantes gastam um monte de dinheiro a viajar, a fazer reuniões, a alugar hotéis quando têm as novas tecnologias que lhes dá a possibilidade de fazer videoconferências e sem gastos exagerados,” critica Salvador Mascarenhas, que afirma que o Movimento Sokols está a lutar para pôr fim a este tipo de coisas, para pedir aos governantes que oiça a voz do povo e para mostrar as pessoas que os políticos não são donos de Cabo Verde.

“Medida não trava a Regionalização”

Quem também não acredita que esta decisão trará alguma mudança para São Vicente é o Grupo de Reflexão para a Regionalização. Para o líder Camilo Abu-Raya, trata-se de uma medida de “cosmética” que não vai interferir em nada, principalmente na Regionalização. Na óptica de Abu-Raya, o que o Governo fez foi uma desconcentração dos poderes do Estado, o que não o impede de acatar o compromisso assumido com a Regionalização do país. “Queremos saber de facto o que esta transferência significa. Se é nomear e transferir para aqui é uma coisa normal, porque ter um ministério aqui ou lá não afecta na Regionalização. Não estamos preocupados com isso, porque vamos continuar a nossa luta. Achamos que só com a Regionalização é que de facto se pode fazer uma mudança em Cabo Verde. O que eu posso chamá-lo é uma operação de cosmética”, reage Camilo Abu-Raya. “Neste momento há várias tecnologias e não é preciso ter um ministro aqui. Não estou a ver ‘gongon’ nesta desconcentração. Apesar de ser um facto histórico, vamos ver se ele trará algo de bom para a ilha”, considera Abu-Raya, reconhecendo no entanto que ter o poder de decisão económico em São Vicente é melhor do que deslocar-se à Praia para esperar o resultado.

O activista político João do Rosário, que também pertence ao Grupo de Reflexão para a Regionalização, corrobora a mesma opinião. Para Do Rosário, Regionalizar e Descentralizar são duas coisas completamente diferentes. “A mudança do ministério é uma coisa, mas eu acho que ela não deve impedir a Regionalização como poder bastante das ilhas. Com este poder, que chamamos de Câmara Alta, o Orçamento do Estado não passava porque as ilhas não podem ter 15 por cento do Orçamento enquanto a maior fatia, 85 por cento, fica concentrada numa só região. Actualmente temos deputados que só defendem a causa dos partidos, mas se tivéssemos senadores para cada ilha eles defenderiam a causa de cada região. Aliás, há muitas leis que não passavam por causa disso.”

Na visão de João do Rosário, a descentralização é importantíssima porque, com as novas tecnologias e com a melhoria da vida da população, o país tem capacidade de levar o poder para todas as ilhas, não o deixando concentrado numa só região. Por isso vê com bons olhos a mudança do ministério para Mindelo, principalmente para ajudar a impulsionar a Economia Azul, apesar de defender que é preciso também elaborar uma política integrada para o sector. “Tendo um ministério aqui é bom, mas dizer que só aquele ministério vai resolver esta questão da Economia Azul não é verdade. Temos de ter uma política integrada, uma visão e uma projecção para poder resolvê-lo. E acho que este Governo tem que encontrar uma solução para a economia marítima,” afirma João do Rosário. Para este empresário do sector marítimo, basear esse ministério em São Vicente é mais que imperativo, porque a ilha tem 79 por cento das embarcações do país e é onde se concentra a maior parte das pessoas que trabalham na transformação do pescado, além de ter organismos ligados à pesca e à economia marítima.

Do Rosário reconhece que Ulisses Correia e Silva tem os seus interesses por detrás desta medida, pois tem de governar em função da dinâmica sociológica. “A dinâmica sociológica, sobretudo da zona norte do país, é neste momento muito exigente. E este facto leva o PM a procurar outras formas de governar”, sentencia João do Rosário, que não tem dúvidas de que, ao trazer o ministério para São Vicente, a máquina política liderada por Ulisses Correia e Silva está a tentar atenuar o descontentamento do povo. Avisa, no entanto, que esta decisão é insuficiente porque só o ministério não resolve os problemas da ilha.

Carina David Lopes

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem!!!! Continuem com a luta para um desenvolvimento justo em Cabo Verde e para o bem dos Cabo-verdianos porque como disseram os Cabo-verdianos são donos do pais e não o governo.
    Força Movimento Sokol 2017 e Grupo de Refexao para Regionalização.

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