Aqui há história! Bem-haja a cidadania!

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ORGULHO. Foi a palavra mais dita e evidenciada por todos os Sanvicentinos no inicio, durante e no final da manifestação. Não era para menos. O povo de São Vicente fez por demonstrar, sentir e contagiar esse orgulho. O vento que não aparecia por cá já alguns dias veio para fazer parte e, também ele, partilhar esse orgulho de ser um dos nossos. Em boa hora chegou o vento da mudança de paradigma da sociedade civil. Parabéns a cada cidadão que saiu às ruas para se associar à causa nobre da convocatória da manif: Cabo Verde harmonioso, equilibrado e justo, incluindo São Vicente; Emancipação da Sociedade Civil; Governação do todo para todos; Melhor distribuição dos recursos nacionais e autonomia necessária para que cada ilha possa conduzir os seus destinos, óbvio, enquadrados no todo nacional.

Todo o protagonismo do sucesso deste evento, e daí as minhas felicitações, deve ser atribuído às mais de dez mil (10.000) almas que, numa manhã de feriado onde muita gente trabalhava, após “festa na Rua de Lisboa”, não temeram em gritar bem alto o que lhes ia na alma. Era visível o anseio que as pessoas tinham para um momento como este. Parabéns igualmente ao Salvador Mascarenhas pela capacidade mobilizadora e todo o sacrifício pessoal que colocou neste evento a favor da causa; ao grupo Sokol 2017 e a todos, absolutamente todos os que de forma direta e indireta apoiaram e ajudaram na materialização da maior manifestação cívica efectuada numa ilha do país. Fez-se História em Mindelo!

Confesso ter realizado um sonho. Confesso que por muito tempo tive dúvidas se seria possível. Confesso que era meu anseio ver a força da sociedade civil nas suas causas do dia-a-dia: o direito ao trabalho, ao pão, a saúde, a educação para todos. Confesso que era minha vontade ver o povo fazer-se respeitar. Foi arrepiante e fez com que me emocionasse várias vezes ao longo do percurso. Estou deveras agradecido a “gente d’soncent” por este acto de pura cidadania. Foi gratificante ver cidadãos de Mindelo, de todos os bairros, de todas as cores políticas, e sem cores, de todas as origens, de todas as idades, como Mindelenses que queriam fazer valer a causa principal da democracia: pedir um governo do povo para o povo, todo ele.

Outros não entenderam ou não quiseram, convenientemente, perceber o cerne da manif. Conotaram o movimento cívico como sendo de um partido, quando é sem partido, associaram-no como sendo contra outros cabo-verdianos, quando demonstrou ser a favor de todos os cabo-verdianos. Nisto, reparamos que ainda estamos, sobretudo mentalmente, demasiadamente partidarizados e “bairrados”, sendo que esta “cegueira” partidária e “bairrada” não permitem lucidez e discernimento necessários para ver cidadãos, sociedade civil e as suas causas. Apesar disto tudo, aqui nasceu novos sonhos: que nesta democracia se aprenda a ver o cidadão e sociedade civil antes dos partidos, que a cidadania torne corriqueira a manifestação da sua posição, sempre que se justificar, ajudando própria governação a corrigir desvios, que a “bairrada” seja ultrapassada a favor da nossa identidade comum, e, claro, que os governantes aprendam a ver e ouvir os cidadãos com respeito.

A cidadania fez-se ouvir, apesar de algumas tentativas prévias de contra-informação, “boicote” e desvalorização por parte de alguma Mídia e de alguns políticos, mesmo perante evidência de evento de grande envergadura em prol dos cabo-verdianos. Nada que já não fosse expectável, tendo em conta a formatação escrava de algumas mentes. Viu-se, nesses casos, que “o medo de ser livre provocou o orgulho em ser escravo”, mas, ainda vamos todos a tempo de sermos cidadãos, independentemente da militância, gostos e simpatias partidárias. Um alerta: não ignorem o povo e as suas reivindicações… A sociedade civil acordou!

E agora? Acabou por aqui? Nem pensar. Isto agora começou. Os cidadãos devem manter a sua abertura e disponibilidade para as acções sequentes, sempre que necessário, e as organizações da sociedade civil devem-se definir, fortalecer e continuar a luta até que a verdadeira causa seja consumada: uma governação de todos para todos; o equilíbrio e a harmonia no desenvolvimento das ilhas; mais autonomia para as ilhas, São Vicente inclusivé.

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