“Cárcere”: uma reflexão paradoxal sobre a liberdade no palco do “Mindelact”

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Uma reflexão paradoxal sobre a liberdade. Foi esta a proposta do monólogo “Cárcere”, do actor e dramaturgo brasileiro Vinícius Piedade, que subiu ao palco ontem à noite no festival Mindelact. Na pele de um pianista preso, Vinícius Piedade, que é também co-autor da peça, levou o público a pensar a liberdade ao mesmo tempo que lançou inquietações sobre os estabelecimentos prisionais, a precariedade da segurança nas cadeias, os problemas da reinserção social e as prisões individuais de cada um.

A ideia de criar este “solo” surgiu quando o actor percorreu as penitencárias do Estado do Espírito Santo no Brasil a apresentar o espectáculo a solo “Casa de um Pirata”. É quase que um retrato real dessas prisões feita através de uma narrativa que traz jogos de linguagem por vezes humorísticos, outras vezes surpreendentes e ao mesmo tempo provocantes, em que o actor expressa-se através de gestos, mímica ou ainda através da improvisação em que convida o público a entrar e interagir na peça. O som do piano que acompanha o desenrolar da interpretação provoca momentos de êxtase e de suspense que se vão mesclando com a interacção do público.

No monólogo, Vinícius é um pianista que, por causa de dificuldades financeiras, aceita um convite para fazer um “bico” na venda de drogas, aproveitando a rede de contactos que criou nos bares onde toca o instrumento. Já preso, por causa deste crime, o músico ganha a alcunha de “Ovo”, por ser branco e careca. Ovo sente a falta do seu piano e tenta negociar com o director da cadeia a entrada do piano no estabelecimento prisional para ensinar outros colegas a tocar. Entretanto ele é jurado de morte por outros presos líderes de facções criminosas que, ao verem a conversa com o director, deduzem que ele está traí-los.

Numa tentativa de proteger o pianista, a direcção da cadeira transfere-o para a ala dos Seguros, lugar onde são colocados os presos que têm a vida em risco. Entretanto, quando há rebelião, os presos dessa ala são os que mais correm perigo, por estarem sujeitos a ser reféns dos outros colegas. O clímax da história dá-se quando Ovo descobre que uma rebelião está prestes a acontecer num Domingo e que naturalmente será feito refém. Então, através da contagem regressiva de uma semana, ele começa a escrever um diário no qual dramatiza a sua história, tentando entender como foi parar na prisão e ao mesmo tempo a procurar uma saída para a sua situação de preso “jurado de morte”

Provocar e repensar o conceito de ser livre

Para o actor, esta peça surgiu para provocar uma reflexão paradoxal sobre o tema liberdade, através de uma personagem que está privada da sua liberdade. “Para falar sobre a liberdade resolvi interpretar um homem que está na cadeia. Penso que este distanciamento é saudável pela reflexão tão profunda que provoca em todos nós. É preciso pensar o que realmente é liberdade. O conceito de ser livre muda através dos tempos . Cárcere é sobretudo uma reflexão à liberdade de hoje em dia”, defende o actor, que enaltece o entrosamento do público durante o espectáculo.

O teatro aqui tem um alto nível e eu gosto muito da interacção do público. Eu acho que o público constrói junto com o actor. “O teatro é activo e participativo, mesmo quando as pessoas não interagem directamente. No caso da minha peça, eles interagiram directamente e até entreguei a minha lanterna a um telespectador para iluminar. Parte da peça é feita com o público. É como se estivesse num estádio e a torcida vibrasse e empurrasse a equipa para frente”, completa.

A fraca capacidade de reinserção social também foi abordada durante o monólogo porque, segundo Vinícius, é um tema extremamente importante para a sociedade, que quer ver os presos pessoas melhores quando saem das prisões. “É importante que as pessoas não saiam piores do que entraram. A tendência é pensar que elas têm que sofrer na cadeia e pronto. O preso deve pagar pelo crime, mas não é bom para ele e sobretudo para nós que ele saia pior”, afiança o actor, para quem os reclusos, apesar de terem cometido delitos, também fazem parte da sociedade.

Esta quarta-feira será a vez do espectáculo “A Serpente” entrar em cena no Mindelact. Interpretada pelo grupo de dança Raiz di Polon, a peça conta a história do triângulo amoroso vivido por duas irmãs e o marido/cunhado. Através da dança, Manu Preto mostra a disputa de Lídia e Guida pelo amor de Paulo, que é responsável por escolher quem irá sacrificar a sua própria vida para atingir o amor pleno e levar consigo o consolo da eternidade do sentimento.

Na zona de Ribeira de Craquinha o “Pika Pau”, colectivo de actores brasileiros e cabo-verdianos, apresenta a peça “No bai”. O Festival Off exibe “ Plidja” do Grupo de Teatro B.Leza de São Nicolau e, para as crianças, acontece “o Ciclo Internacional de Contadores de História” com Clara Haddad, no Centro Cultural do Mindelo.

Carina David

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