Ciência ingrata da “matimática”

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Credo! Nunca vi um regresso às aulas com tantos ruídos. É que, tirando o facto de sempre no início das aulas não haver refeição quente e nem camoca, quando estudava, preocupava-me apenas se iria ser a última da classe, pelo meu nome começar com “S”.

A preocupação hoje é outra. Preocupa-se se os manuais chegam a tempo, rezam alguns pais para que não os mudem de um ano para o outro e assim não se preocuparem em voltar a comprá-los, caso o filho reprove ou caso tenham outro filho mais novo que poderia aproveitar os livros do mais velho. Comigo e com meus irmãos não nos tirou “pedaço” nenhum, já que eramos 6, sendo 3, quase da mesma idade.

Pois bem, este ano, manuais novinhos nas prateleiras das livrarias, só à espera que os pais cheguem com o dinheiro e que os levem para as suas casas. O problema veio depois quando, na ânsia de ver as novidades dos novos livros, descobre-se que “matemática” passou a ser “matimática”. Eu sei que este ano vão inserir algumas línguas no ensino, mas eu tenho a certeza de que nem em francês, nem inglês e muito menos mandarim se diz tal disparate. E muito menos que o novo acordo ortográfico fosse tão longe. Eu e todos os cabo-verdianos sabemos que no Parlamento cada um usa o “seu” português ou “protuguês” – como quiserem chamá-lo -, mas acho bem que não assassinemos a língua de Camões, pelo menos não nestes manuais, de crianças que ainda pisam terrenos da nossa segunda língua, como quem pisa em ovos. E por me referir ao parlamento nacional, penso se alguém chegou a cogitar, um dia, lançar um dicionário com as palavras e expressões que se usam naquela casa. Digo desde já que algumas são impróprias para crianças ou pessoas sensíveis.

Voltando ao assunto dos manuais, não esperava também que num livro de matemática em Cabo Verde se escrevesse 9 por extenso como “nine”. Esta “matimática” não pára de nos surpreender. Passei a perceber que nada é certo, muito menos nesta ciência que já foi considerada exacta. Pois vi que no livro do quinto ano, 2×3 (dois vezes três) passou a ser 12. Se fosse no meu tempo, já testemunharia a minha professora a “sacar” da “palmatória”, feita pelo pai de uma colega, para nos ensinar a tabuada como deve ser.

Isso sem falar na capa dos cadernos, que dividiram opiniões. Apesar de tudo, espero que os alunos, sem djobi pa lado, nem para copiar no colega e nem para se distraírem dos estudos, tenham um bom ano e aprendem a escrever matemática como deve ser e que 2×3 seja sempre 6.

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