Dr. Rosário: “Visitava os meus pacientes à noite no hospital para saber como estavam”

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O seu nome provocava respeito nas pacientes e nos corredores do hospital de S. Vicente. Quando Pedro do Rosário falava poucos eram aqueles que não baixavam a cabeça para o ouvir. Sincero o quanto baste, ele era o homem, o ginecologista-obstetra que lidava com a questão da gravidez precoce e do aborto clandestino com uma frontalidade que incomodava. Por isso era visto como um médico “duro”, que não poupava os descuidos das pacientes. Foi um dos principais fundadores do PMI-PF, uma iniciativa que, diz, ajudou bastante no planeamento familiar. Reformado deste 2002, após 40 anos de serviço prestado ao HBS, Dr. Rosário ainda segue com atenção a vida política e a área da saúde em Cabo Verde. Para ele, é desaconselhável uma adolescente ficar grávida e pior ainda que frequente as aulas. Leia esta entrevista e conheça um pouco o ponto de vista desse especialista, que terá sido mal-entendido por alguns, mas respeitado por muitos.

Por Kim-Zé Brito

 MI – O Dr. Rosário tem a consciência de que, quando se ouvia o seu nome nos corredores do Hospital de S. Vicente, colocava as pessoas logo de sentido?

Pedro do Rosário – Acho que sim, tenho uma certa maneira de ser o que leva ou levava as pessoas a pensar que eu era um homem duro. Na verdade, sou apenas um médico que sente o problema dos pacientes. E fazia de tudo para que eu e o doente comungássemos do problema para que ele recebesse alta o quanto antes. Nós dois tínhamos que colaborar no mesmo sentido.

Admite que era um profissional rígido e que exigia que as pessoas cumprissem as indicações médicas à risca?

Eu não chamaria isso rigidez, mas franqueza. Eu tinha o conhecimento da medicina, mas precisava da colaboração do(a) paciente. Só que nem sempre as pessoas entendiam isso e pensavam que eu queria impor-me.

O que mais o incomodava no comportamento das pacientes, enquanto ginecologista?

A irresponsabilidade, isto é, agir sem medir as consequências dos actos praticados. Por exemplo, uma mulher ter um filho e aparecer de novo grávida sem dar tempo ao corpo para descansar. Isso deixava-me indignado porque havia e há o programa de planeamento familiar. Eu pedia às pessoas para pensarem melhor, que usassem os serviços que tinham à disposição.

Sabe-se que uma das coisas que mais o deixava preocupado – ou indignado – era a gravidez precoce…

Sem dúvida, eu ficava muito preocupado com essas coisas. Sabe, o problema é que as pessoas andam com a sua actividade sexual como lhes dá na gana – o que é normal -, mas sem pensar nas consequências das suas atitudes. Facto é que o problema da gravidez precoce explodiu logo após a Independência de Cabo Verde. As coisas começaram a ter um certo aspecto “democrático” e muita gente não compreendeu essa liberdade que ganhamos no país, que no fundo representava a assunção de uma responsabilidade. Começaram a aparecer grávidas de 12, 13, 14 anos de idade.

Esse quadro mudou de lá para cá?

A meu ver, a situação está até pior. Logo após a Independência criamos o PMI – Planeamento Materno Infantil -, que funcionou. E conseguimos convencer as pessoas (jovens, adultos e pais) da necessidade do planeamento. Houve um certo controlo. Só que depois isso descambou-se um bocado. O PMI passou para a alçada do Ministério da Saúde, entretanto cada ministro tinha as suas ideias e as pessoas voltaram a ver as coisas com um outro nível de liberdade.

Como assim?

Por exemplo, aprovaram leis que permitem que as alunas grávidas possam continuar a estudar no ensino secundário. Na verdade, toda a gente tem as suas responsabilidades, inclusivo as próprias adolescentes.

Da forma como fala fica-se com a ideia que é contra essa política.

Discordo dessa medida porque uma aluna grávida não está nas condições físicas e psicológicas ideais para acompanhar as aulas. Ela pode sentir enjoo, vómito, fadigas, estar a pensar em muitas coisas e não conseguir acompanhar as aulas. Como é que ela vai dar conta do recado quando tiver que fazer provas ou ser chamada ao quadro; como é que um professor vai avaliar uma estudante que não consegue tirar boas notas por causa da gravidez? Há ainda outra questão importante: e se o bebé nascer no meio do ano escolar? Como a jovem mãe vai conciliar o estudo com a atenção que uma criança exige? Quem vai ajudá-la, se muitas vezes os pais trabalham ou não têm condições de sobrevivência? Durante o período da gravidez a jovem deveria centrar a sua atenção no tratamento e acompanhamento do seu estado e reservar o direito de continuar os estudos mais tarde.

Que influência acha que a presença de uma aluna grávida pode ter nas colegas?

Pode ter a sua dose de influência porque as outras vão pensar o seguinte: “se ela está grávida e pode estudar por que não posso fazer o mesmo?” Isto vai repercutir-se no pensamento e na atitude de outras estudantes e nunca se sabe quantas mais vão seguir por esse caminho. Uma aluna do ensino secundário é ainda uma adolescente, logo ela não está amadurecida para assumir uma gravidez, quanto mais continuar a estudar. Na verdade, há jovens que ficam grávidas exactamente com o intuito de parar os estudos porque já não querem mais estudar. É certo que o problema da gravidez resolve-se ao nível dos médicos e do hospital, a escola é outra coisa.

Essa questão também se coloca no caso do ensino superior?

Aqui que está, as pessoas compreendem mal o problema. Vêm mulheres grávidas nas universidades e querem fazer comparações. Ora, uma mulher que já está no curso superior já é uma adulta. Em muitos casos, são até casadas. Quem está a fazer a fase liceal deve é concentrar-se na escola e não na gravidez. Eu também fui estudante, mas nunca engravidei uma mulher enquanto estudava. Hoje em dia as coisas são diferentes porque há mais liberdade de acção e de pensamento, mas, a meu ver, o grande responsável acaba por ser a família. É um facto que a família desorganizou-se depois da Independência. Passou a haver muita promiscuidade, um homem com vários filhos com mulheres diferentes; veja-se os problemas que advêm disso.

Estamos aqui a falar da gravidez precoce. A sua preocupação está relacionada com a preservação da saúde das adolescentes e as consequências socioeconómicas na vida da jovem mãe?

Sem dúvida, as adolescentes vão para a escola para prepararem o seu futuro. Repare, uma jovem que está a estudar e de repente aparece grávida – sem estar preparada para cuidar de uma criança em termos psicológico e económico – vai obrigar os pais a assumir novos encargos, porque ela não trabalha. Além disso temos de estar cientes de que uma gravidez numa adolescente é uma situação complicada, porque, além da parte material (dinheiro para vestuário, consultas, alimentação, etc.) essa mulher ainda não está madura.

Quais são as consequências físicas para uma adolescente grávida?

Ela não está ainda formada fisicamente nem psicologicamente para gerar uma criança. De forma que essa gravidez pode descambar numa cesariana. Essa situação propicia o aumento de nascimentos prematuros, de bebés deformados, etc.

Sentia que a sua intervenção surtia o efeito pretendido?

Surtia algum efeito, não digo na totalidade, mas sentia que muitas adolescentes mostravam interesse em saber determinadas informações.

Contra o aborto

Sabe-se que tinha a sua posição sobre o aborto, isto é, era contra.

É claro, eu tinha e continuo a ter essa posição. Tive bastas discussões com as pessoas sobre esse assunto, em particular com mulheres que tinham muitos filhos. Eu as aconselhava a fazer o planeamento familiar, para recorrer ao uso do preservativo, pílulas e outros métodos anticoncecionais. A minha questão era saber por que razão o casal descuidava-se e depois usava o aborto como a solução para um problema, que poderia evitar. Um aborto é algo sério, pode provocar hemorragias perigosas e as pessoas devem ter a consciência dos riscos. E pergunto, quantos abortos é que deve caber a cada mulher?!

Nunca fez um aborto?

Se me aparecesse uma mulher grávida e que já tivesse seis-sete filhos, por um descuido voltou a ficar grávida, o seu caso era devidamente analisado. Não era fazer aborto pelo simples prazer de fazer ou usar esse método como uma solução que estivesse sempre à mão.

E nos casos de fetos deformados?

Era difícil detectarmos as deformações, até porque nem toda a gente fazia ecografia. Às vezes apareciam casos de bebés com más formações, por exemplo hidrocefalia (vulgo cabeça deformada)… Havia casos em que se podia recorrer ao aborto para ajudar as famílias, mas tudo isso era previamente discutido com as pessoas envolvidas.

Nalguns casos aconselhava a laqueação?

Havia essa necessidade, mas volto a frisar, só recorríamos a este ou outro método em concertação com as famílias. No caso de uma mulher que teve vários filhos sugeríamos a laqueação. E esse processo de negociação envolvia a mulher e o marido.

“Fidje, riqueza de pobre”

Acha que a filosofia de que “filho é riqueza de pobre” pode estar na origem de famílias com oito ou dez filhos?

No tempo colonial, o problema das mulheres grávidas sem companheiro era preocupante, principalmente nas zonas rurais de Santo Antão, Santiago e Fogo. Havia muitos filhos bastardos, como se costuma dizer. Agora, tinham muitos filhos porque eram precisos braços nos trabalhos da agricultura. Por outro lado havia uma elevada taxa de mortalidade infantil. Conheço famílias em S. Vicente que tinham oito filhos e quatro morreram. No meio rural era pior.

Outra questão intimamente relacionada era o aborto clandestino. Há médicos que defendem que o aborto deve ser feito no hospital, mas muitas mulheres fugiam do hospital por receio de serem denunciadas e recorriam a clínicas de médicos do próprio estabelecimento de saúde. Como via essa situação?

Isso realmente constituiu e continua a ser um problema. Lembro-me do caso de uma professora que fez um aborto numa clínica privada e que infelizmente acabou por falecer. Tive de dar a triste notícia ao marido. A pior coisa que pode acontecer num aborto é uma infecção. Se essa infecção generalizar-se, o tratamento é difícil e às vezes impossível. Ainda hoje continua a existir o aborto clandestino.

Para si, o aborto é uma questão dos direitos da mulher, do homem ou da criança?

É um problema complexo. Há mulheres que recorrem ao aborto porque pura e simplesmente não querem que a sociedade saiba que estão grávidas. Cada uma lá tem os seus motivos, que muitas vezes podem envolver outros interesses. Para mim, essa questão poderia ser minimizada se as pessoas usassem os métodos contraceptivos. Só que negam fazer isso e caem numa situação conflituosa.

Cabo Verde é um país religioso, de maioria católica, e todos sabemos que a Igreja condena o aborto. No entanto, o nível do aborto sempre foi elevado no país. Isto não pode ser um contrassenso?

Para mim não é uma questão que se limita à Igreja. Eu também sou católico, mas, quando fiz o curso de medicina, tive que fazer o juramento de Hipócrates. Uma das coisas que diz é que negamos fazer aborto. Continuo a dizer que estamos perante uma equação complexa. Já me contactaram porque houve situações em que a mulher foi mexida por outro médico. Nesses casos como é que vou saber que intervenção é que o outro médico fez para poder assumir essa responsabilidade?! Na verdade, há situações em que os médicos fazem o aborto e depois aconselham a paciente a procurar o hospital se acontecer algum problema, mas desde que não diga onde esteve antes. Chegam com infecções graves e nem sempre é possível combater esses casos.

Dada a sua franqueza, em algum momento entrou em confronto verbal com colegas que faziam aborto clandestino?

Claro, já aconteceu falar com médicos que faziam isso e depois aconselhavam as pessoas a procurarem o hospital caso acontecesse algum problema maior. É claro que isso não era o correcto e posso dizer que conseguimos safar algumas mulheres.

Fala-se muito à boca cheia de médicos que trabalham nos sectores público e privado e que usam o hospital para canalizar pacientes para as clínicas onde fazem extras. Está de acordo com as pessoas que dizem que a saúde está a tomar um cariz demasiadamente comercial?

Isto não acontece só em Cabo Verde, é a mesma coisa em Portugal. Um utente vai a um médico, este “descobre” que afinal padece de um “outro” problema, pede-lhe para contactar um outro colega e o paciente começa a passar de uma mão para outra e a fazer despesas exageradas. Lembro-me de uma cabo-verdiana que foi fazer uma consulta de ginecologia em Portugal, por iniciativa dos familiares. Ela fez uma série de análises, gastou quase seiscentos contos e no final disseram-lhe que estava tudo bem com ela. Este pode ser um exemplo paradigmático do comércio instalado no sector privado. Eu não vejo a medicina nesse prisma, o médico deve ser remunerado pelo seu trabalho, mas tem de ser na justa medida e ele deve ter a consciência das dificuldades dos doentes.

Como está a ver o impacto da evolução tecnológica na obstetrícia e ginecologia e o desenvolvimento dos recursos humanos nessa área em Cabo Verde?

Acho que os nossos técnicos têm que se preparar melhor porque neste sector lida-se directamente com a vida humana. Os erros pagam-se caros. Ser médico não é para qualquer pessoa, é preciso viver o problema do paciente e o médico tem de possuir conhecimentos científicos sólidos e actualizados. É importante fazer o doente sentir que está a lutar pela sua saúde, a todo o instante. Não quero que ninguém seja igual a mim, mas, quando trabalhava no “Baptista de Sousa”, acompanhava o doente constantemente. E nos primeiros dias de uma operação ia ao hospital mesmo à noite saber como ele estava se sentindo e corrigir alguma coisa que não estive a correr bem. Agora, não se pode ficar a passar a bola de um lado para o outro.

Se tivesse sido Ministro da Saúde, qual a medida primordial que tomaria. Algo que para si seria imprescindível para melhorar o sector?

Aqui em Cabo Verde era muito difícil eu ser ministro da Saúde. Em primeiro lugar os nossos governos estão centralizados na cidade da Praia, depois colocam Delegados de Saúde e outros representantes nas outras ilhas. Confesso que não é fácil ser ministro da Saúde aqui em Cabo Verde devido aos problemas inerentes a essa área. E não há uma medida única que possa resolver esses problemas. Agora, o que falta em Cabo Verde é assunção plena das responsabilidades. Deve haver uma hierarquia no trabalho, quem estiver à frente deve assumir esse papel e não ficar a deixar muita coisa passar para não criar conflitos com os subordinados.

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