E o Pov Sai à Rua…

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Por Rosário da Luz

5 de Julho de 2017. As estimativas mais conservadoras situam a multidão que se apresentou na “Grande Manifestação de Sonsent” em cerca de 12000 participantes; as mais excitadas situam-na em 15000. Mais milhar, menos milhar, o número é indubitavelmente expressivo para uma ilha desta dimensão. O turn out surpreendeu a própria organização, cujas expectativas não ultrapassavam alguns milhares. Era POV na mei d’rua. Porque saiu? Saiu porquê?

A insatisfação de São Vicente com as políticas centralizadoras dos sucessivos Governos.cv é conhecida. Ao longo dos seus três mandatos, o PAICV evitou qualquer diálogo sério sobre a descentralização – e o Pov foi longamente submisso à exclusão. Mas o volume dos protestos subiu nos últimos anos, e determinou o castigo que foi imposto ao partido em 2016. Ficou patente que o voto de confiança concedido ao MpD pelos eleitores de São Vicente decorreu diretamente do seu posicionamento receptivo à “Regionalização”.

Um ano depois, o PAICV surpreende-nos com o seu entusiasmo pela ideia da descentralização; e é o MpD que olvida as suas promessas de campanha, demonstrando um desinteresse total pela matéria. O que é que mudou? Certamente não a ideologia do pessoal, porque nenhum deles opera sobre uma plataforma ideológica. Facto que tem implicações trágicas; uma delas é que a relação dos partidos.cv com o papo de Regionalização é determinada por considerações estritamente utilitárias.

Quando o PAICV era Poder e dominava os recursos do Estado, dominava-os muito mais confortavelmente num quadro de forte centralização na Capital. O objetivo nunca foi favorecer a cidade da Praia – e muito menos a ilha de Santiago; a questão foi sempre a facilidade com que o controlo político e social pode ser exercido sobre recursos e decisores concentrados na Capital. Quanto ao MpD, o seu anterior interesse pela descentralização também era motivado por uma racionalidade oportunista: o partido tinha sofrido três derrotas legislativas e estava perante a possibilidade de uma quarta; mas o seu êxito no terreno autárquico apontava para a possibilidade de novas oportunidades eleitorais, via a criação de novas estruturas regionais.

Em Janeiro de 2016, Ulisses Correia e Silva assumiu um compromisso com a sociedade civil.sv: se ganhasse, levaria ao Parlamento uma proposta urgente sobre a “Regionalização”; e São Vicente seria a primeira experiência do seu Governo na matéria. Prometer foi fácil; mas, ganhas as Legislativas, o novo Governo reconheceu instintivamente a insegurança que a descentralização representa para o ADN absolutista que caracteriza o poder estatal em Cabo Verde – independentemente da cor. E viu que o seu interesse agora reside no controle dos recursos e decisores públicos concentrados na Capital – igualzinho ao seu predecessor. O Pov também viu: que a sua aposta no diskursu descentralizador tinha sido em vão; que tanto a Velha como a Nova Senhora adaptam o lero-lero às suas conveniências no curto prazo; que ambas instrumentalizam descaradamente o dossier da descentralização – assim como as esperanças do Pov; que foi, mais uma vez, enganado. E por isso, saiu à rua.

Saiu, e em grande. 12000 cidadãos marcharam; reclamaram justiça e autonomia com plenos pulmões; exigiram que os eleitos representassem os eleitores, não só em São Vicente, mas em todos os cantos de Cabo Verde; repudiaram com firmeza os epítetos de “bairristas” que lhes foram lançados pelo Poder, na tentativa de desvirtuar a sua postura cívica; declararam-se 100% Cabo-verdianos e prontos para se juntar aos seus compatriotas na Boa Vista, Brava, Fogo, Maio, Sal, Santiago, Santo Antão e São Nicolau, que sofrem exatamente a mesma exclusão. Ora toma.

Mas quem foi que saiu? Um scan demográfico da multidão é um exercício fundamental para quem está interessado em ampliar esta dinâmica extraordinária – mas não universal – no seio do Pov. O primeiro facto a constatar é que esta foi uma Manif burguesa, cuja massa era composta essencialmente pela classe média.sv: professores, escriturários, comerciantes, técnicos, profissionais liberais, etc. A elite independente – grandes comerciantes, líderes profissionais, empresários e até administradores bancários – apresentou-se linda e loura, consciente do seu papel catalisador. Já a elite dependente do Estado – a que financia os seus automóveis com as benesses da Capital – escondeu-se previsivelmente atrás das persianas das suas confortáveis vivendas. Quanto á classe trabalhadora suburbana – pescadores, estivadores, empregadas domésticas e desempregados do Pov, segmentos fundamentais para qualquer levantamento – essa esteve presente de forma apenas marginal.

O que será que sairá daqui? Depende. Por um lado, no que respeita o ativismo cívico, São Vicente detém uma vantagem competitiva no cenário nacional. A sua sociedade e cultura formaram-se com base numa economia privada, de companhias Inglesas e casas comerciais.cv; a maioria dos Mindelenses trabalhava longe da burocracia que era diretamente dependente do Estado Português. Quando a economia comercial e portuária entrou em decadência, a opção de sobrevivência foi a emigração; e mais uma vez, uma parcela importante das famílias locais sustentava-se de forma independente, com dinheiro ganho no estrangeiro.

Os últimos 42 anos de dependência do Estado abalaram o espírito da Ilha, mas não o destruíram; a subsistência da vocação e das tradições cívicas do North Country fez-se sentir no dia 5. Mas, por outro lado, é preciso ter presente que esta dinâmica só dará frutos se for ampliada e consolidada; e para isso há que especificar muito melhor os slogans “descentralização”, “autonomia” e “poder de decisão” que foram lançados na Manif. O aproveitamento pela classe política do discurso da descentralização tem sido facilitado pela indefinição da sociedade civil relativamente ao modelo de que ambiciona. São Vicente ultrapassou, com o mais alto louvor, esta prova de ativismo popular; agora, precisa lançar-se no trabalho conceptual de definição da sua autonomia.

Quanto á reação lastimável do Governo a esta belíssima demonstração de energia cívica, era de se esperar. As novas conveniências do Poder ditaram a sua escusa em reconhecer condignamente o evento ou iniciar qualquer diálogo com os intervenientes. Tudo bem. A minha esperança é que São Vicente não aguarde que lhe seja concedida a graça de uma participação política justa e inclusiva. A minha esperança é que a sua gente a exija e imponha; que construa o seu próprio caminho de encontro à sociedade e à economia que ambiciona, com civismo e patriotismo exemplares; e que produza e empodere uma nova classe política local, ciente das suas obrigações para com o Pov. Pov que, como sabemos, se for unido, jamais será vencido. One people, one love.cv.

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