Hora d’katumba d’fog

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Por Nelson Faria

As músicas de intervenção cada vez mais revelam-se como a voz das gerações, o retrato claro e lúcido da realidade sociopolítica do país e das ilhas. A universalidade, a assertividade e sobretudo a descrição da realidade, sem o politicamente correto, são mecanismos de comunicação inteligentes. A música de intervenção comunica, informa e denuncia. Ela é a voz da sociedade civil.

Considerando a sua utilidade no diagnóstico da realidade social, havendo políticos inteligentes estes deveriam dar devida atenção a esta forma de ver e comunicar a vivência dos cidadãos, em particular da juventude que “somente” representa cerca de 70% da população deste país.

Tenho várias preferências musicais mas ouço todas as que forem boas, independentemente do estilo. Ser ecléctico permite-me ver a beleza, a clarividência, a sagacidade e a assertividade do Hip Hop crioulo, mormente o de intervenção.

O Hip Hop crioulo tem feito uma trajectória brilhante neste quesito com sucessivos rappers a compor e a cantar músicas de alto calibre e valor social. Tem sido tantos, bons, muitos que não conheço, por isso não atrevo enumera-los. Porém, dos mais recentes que tenho ouvido, o “Gol Wayne” e o “MC Seiva”, tiro o chapéu, meto os auscultadores e potencio o som no máximo. O retrato que fazem não foge muito do que vejo e sinto no contacto com as pessoas. Descrevem a realidade que vivem “sintid na pel” e, sem tabus, põe tudo às claras. Os visados ficam deveras numa “Katumba d‘fog”.

Esta atitude crítica e interventiva de “Katumba d‘fog” deve ser também a atitude da sociedade civil quando descontente ou mexida no interesse comum a favor de alguns egoístas e idiotas. A sociedade civil não se deve coibir em chamar atenção para a realidade que vive, em mostrar o ridículo de decisões e medidas que apenas servem alguns interesses, em apontar linhas racionais de resolver problemas do todo com recurso a todos. Sim, todos fazemos parte, todos somos cidadãos e não podemos permitir que a confiança depositada em alguns para prosseguir o bem de todos seja desvirtuada e desviada sem que intervenhamos nas correcções que devem ser feitas.

A governação (central e local) é também feita com a voz da sociedade civil, por isso ela deve manifestar-se. Em massa, se for necessário! Literalmente deve pôr numa “Katumba d‘fog” todos os idiotas e situações que não concorrem para o bem do todo. O verdadeiro valor desta música está na emoção, na inteligência, na assertividade, no sentimento dos artistas e no impacto social que tem.

A música de intervenção é intemporal, tem peso e muita força. Tem uma eficácia de comunicação melhor que muitos belos discursos que temos assistido. Ela chega onde deve chegar. A juventude, ao contrário do que se pensa, está mais atenta, mais inteligente e mais actuante. As músicas de intervenção ajudarão, com certeza, na formação de uma nova geração de cidadãos. Inteligentes, acutilantes e interventivos. O Hip hop, nesta dimensão, veio para ficar. Veio para entranhar e fazer nascer uma nova ilha, um novo país. Hora d’katumba d’fogo!

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