Inquietudes de uma menina de Fajã dos Cumes II  

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Por Natalina Gomes
Estou distante, mas não esqueço nem por um segundo o meu bercinho de terra e pedra. E muito me aflige tudo aquilo que também apoquenta a minha gente. Mesmo de longe tento acompanhar e partilhar as alegrias e aflições do meu povo, pois em nenhum momento deixei de me sentir em casa, ainda que fosse em meus pensares.
Em 2016, a chuva veio com tanta bravura que as emoções passaram de felicidade a temor e preocupação. Para além das imponentes montanhas banhadas de verde trouxe devastação, perigo e preocupação às famílias. Tudo é bom na medida certa e tudo é mau em demasia. Mesmo assim as pessoas ainda viram algum fruto do trabalho feito.
Este ano ela não quis cair. Este ano ela recusou-se a visitar-nos. Muito pouco, quase nada. Este ano vejo uma pontada de desolação no olhar de quem por ela esperava. Tristeza no olhar dos nossos pais ao fitar os campos que outrora estariam verdejantes. A esperança que dias atrás ainda sentia-se no “mondar” e “remondar” dos milhos já não se faz presente na colheita das flores. Porque de milho não haverá colheita. O pasto será escasso. Ah água, o que fará este ano a nossa gente?!
Sinto. Sinto pelo milho assado ou cozido que não vou comer no Santo André. Sinto pelo “midje ingron” que não vão fazer. Pelo feijão verde… Sinto. Sinto sobretudo pela minha gente que não sabe sorrir sem a chegada das chuvas. Como se não bastasse o abandono por parte dos “senhores” ainda enfrentarão a ausência da chuva amiga. Forte são eles que, contra ventos e tempestades, se erguem todos os dias e não se queixam da vida.
Tenho-vos no coração.
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