João do Rosário: “Concentrar 70% do investimento do OGE em Santiago pode incentivar nova manifestação”

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O Orçamento do Estado para 2018 – que reserva 70 por cento do investimento público para Santiago – poderá reforçar o sentimento de revolva nas restantes ilhas e estimular uma nova manifestação popular em S. Vicente, na perspectiva do empresário João do Rosário. Para este investidor, quando o Governo volta a insistir em “enterrar” os recursos financeiros de Cabo Verde numa única parcela do território está claramente a mostrar qual a sua prioridade e a cimentar a exclusão da maior parte do arquipélago do processo de desenvolvimento.

“Repare-se que, além de reservar 70 por cento do investimento público para Santiago, atribui ainda 85% do montante para funcionamento da máquina estatal igualmente para essa ilha. O restante é para ser dividido para o resto do país. Obviamente que isso não vai agradar a todos”, salienta esse ex-Presidente do Partido do Trabalho e da Solidariedade, para quem os 33 deputados da ilha de Santiago e os 33 das restantes ilhas têm ainda tempo para obrigar o Governo a repensar o OE-18 e fazer uma redistribuição mais justa dos recursos do Estado.

Porém, ele próprio tem a plena consciência que isso jamais irá acontecer, por uma razão simples: os eleitos nacionais estão mais preocupados em apoiar os partidos do que agradar os eleitores que os colocaram no Parlamento. E, para João do Rosário, essa postura é perigosa, por defraudar as esperanças dos cidadãos residentes fora de Santiago e reforçar o quadro de injustiça social que há anos vem galgando terreno em Cabo Verde.

“Esta é uma das grandes mazelas da nossa democracia. E por coincidência ainda não ouvimos nenhum deputado falando sobre o orçamento”, frisa do Rosário. Na sua óptica, a tendência sistemática dos eleitos e governantes vem também dar razão aos defensores da descentralização, como ele que defende a regionalização política por ilha, com o estabelecimento de uma Câmara Alta e a eleição de senadores. Um sistema que, a seu ver, iria certamente possibilitar um equilíbrio num orçamento igual ao de 2018, no processo de análise e votação.

“Não há interesse no desenvolvimento de S. Vicente”

O facto de S. Vicente voltar a aparecer na quinta posição em termos de investimento público – quando os ministros Ulisses Correia e Silva e Olavo Correia garantiram que a ilha teria um “destaque” no Orçamento de 2018 – é para João do Rosário sintomático do quanto “especial” a cidade do Mindelo continua a ser para o poder central. “Penso que continua a prevalecer a estratégia política de se colocar dinheiro onde há mais eleitores, o que é um princípio falso. Primeiro porque, nesse caso, S. Vicente seria a segunda ilha com mais investimento; segundo, se não houver investimentos nos concelhos mais carenciados estes nunca irão crescer, ficarão cada vez mais pobres e com menos recursos humanos”, comenta esse empreendedor.

No caso de S. Vicente, o OE-18 mostra, na perspectiva de João do Rosário, que não há interesse em se investir no desenvolvimento da ilha do Monte Cara. Para ele, esta região nunca poderá dar o salto e explorar as suas potencialidades se continuar desprovida de recursos financeiros e de uma clara estratégia de desenvolvimento. Porém, o caricato, segundo este crítico, é que o poder municipal mostra-se satisfeito com o “tratamento” que a Capital vem dando a S. Vicente, adoptando um discurso que faz pensar que se vive no “paraíso” pelos lados do Porto Grande.

Kim-Zé Brito

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