Mau ano agrícola: UCID pede ao Governo para travar a “migração forçada” dos homens do campo

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A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) decidiu juntar a sua voz à dos agricultores e criadores de gado do país para pedir ao Governo para agilizar os processos e garantir que os recursos prometidos cheguem aos que deles precisam. De imediato, segundo António Monteiro, o Governo deve avançar com um projecto para mobilizar e transportar água, através de autotanques ou outros, para salvar o gado que ainda resiste nos campos. Isso, na sua perspectiva, para evitar que os santantonenses sejam obrigados a migrar para outras paragens para fugir à seca, repetindo assim a “triste sina dos cabo-verdianos”.

O apelo foi feito esta manhã na cidade do Mindelo pelo líder dos democratas-cristãos, que se apresentou à imprensa acompanhado de um jovem agricultor, que traçou um quadro desolador da situação que se vive em Santo Antão devido a falta de água e de pasto. Segundo Lenine Correia, o ano agrícola este ano é zero na ilha das montanhas e a nível da criação de animais estão a acumular prejuízos derivados da morte das crias por falta de água. “Temos estado a transportar água e a percorrer longas distâncias, para matar a sede aos animais. A agricultura é zero. Não temos milho, não temos feijão, não temos nada. O mercado está vazio e isso está a deixar as pessoas preocupadas. E começamos a ver chefes de família a abandonar as suas casas, o que é crítico. São obrigados e migrar para outras ilhas para procurar trabalho e, quando não encontram, não conseguem regressar”, descreve esse agricultor.

Perante este quadro, este jovem, que se diz agarrado à sua ilha, suplica ao Governo para avançar com a linha de crédito, mas em condições favoráveis para que os agricultores e criadores possam aceder aos recursos. Isso porque, afirma, o retorno não é imediato. Pede também ao Executivo para investir, por exemplo, na reconstrução das antigas levadas de água que estão a desmoronar e para inovar na agricultura.

“Em Santo Antão ainda se repetem práticas agrícolas com 100 e 200 anos de existência. Queremos inovar, à semelhança do que está a acontecer em Santiago com rega gota-a-gota e outros. Queremos que sejam implementados outros tipos de agricultura. Na pecuária, neste momento os prejuízos são enormes. Os criadores estão a perder as crias devido a falta de água e pasto. Estamos a assistir pessoas a oferecer os seus animais para tentar salvá-los. É triste e nos choca enquanto chefes de família”, lamenta Lenine Correia, que aproveita para explicar que neste momento há localidades onde uma família tem direito a uma boia de 28 litros de água por dia, no máximo duas boias. “Como é que vamos salvar os animais com esta água, que não dá sequer para garantir o consumo de uma família?”, questiona este jovem, realçando que a única alternativa que resta às famílias é pegar nas suas mulas e sair à procura de água nas zonas mais distantes. O problema é que, quanto chegam em casa, estão tão cansados que não conseguem fazer mais nada.

Confrontado com o facto de o Plano de Emergência anunciado pelo Governo só será implementado no mês de Dezembro, Correia garante que nesta altura já não haverá nada para salvar e boa parte das famílias já estará fora da ilha de Santo Antão. “As pessoas estão desesperadas e ainda não encontramos ninguém que nos diga como agir. São poucos os agricultores e criadores que têm acesso à informação”, desabafa este agricultor, que também não se mostra convencido que a linha de crédito anunciada, mesmo em condições favoráveis, vá ajudar. “Com o dinheiro vamos poder apenas garantir o transporte de água, que é a base das necessidades”, frisa Correia, para quem esta é mais grave crise dos últimos 10 anos.

Questionado por que os criadores não armazenam pasto, Lenine garante que os agricultores e criadores de gado têm pensado no futuro. Alias, ele próprio chegou a equacionar implementar um projecto de pasto verde com a pouca água disponível na sua zona, Chã d´Pedras, mas as linhas de créditos não são favoráveis e travam o entusiamo. Por outro lado, diz, mesmo que houver produção, não têm condições de armazenamento.

UCID pede concretização das medidas anunciadas

Perante este cenário, António Monteiro reforça o pedido para que o Governo concretize as medidas anunciadas e disponibilize os recursos para ajudar os agricultores e os criadores de gado. “As medidas anunciadas são relevantes. Infelizmente já deveriam estar a acontecer. Não acontecendo, temos milhares de famílias em situações graves. Pedimos ao Primeiro-ministro e ao ministro da Agricultura para avançarem. Se isso não acontecer, de pouco valerão as boas intenções pois as pessoas que vivem da agricultura e da criação terão dificuldades em garantir a sua subsistência e abastecer o mercado”, refere.

Monteiro critica ainda o facto de, até agora, a intenção do Governo de criar um Fundo com 50 mil contos sequer ter sido publicado no Boletim Oficial. “Penso que estamos a fazer anúncios sem operacionalidade prática e isso de nada valerá aos cabo-verdianos”, adverte o presidente da UCID. Na sua óptica, os recursos financeiros já vêm tarde, sendo que neste momento é urgente criar condições para a água chegar aos locais mais recônditos, através de autotanques ou outros. Quando os fundos estiverem disponíveis, espera que o serviço seja pago com os tais recursos a ser mobilizados.

Constânça de Pina

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