MCIC solicita maquetes de andores e da realeza: Grupos de S. Vicente temem expor essência dos enredos

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Os grupos carnavalescos de S. Vicente estão apreensivos com a decisão do Ministério da Cultura de condicionar o desbloqueio do patrocínio financeiro ao envio das maquetes dos andores, desenhos dos trajes da realeza, porta-bandeira e mestre-sala e ainda uma cópia da música. Embora a decisão tenha por base um edital do mês de Outubro, todas as agremiações estão a questionar o seu verdadeiro propósito, por entrar em choque frontal com a tradição do Carnaval mindelense, ao obriga-los a expor a essência dos seus projectos e a uma grande antecedência do desfile.

“Em S. Vicente somos tão bons a montar o Carnaval que basta um mês para arregaçarmos as mangas e construir os andores”, realça Lily Freitas, presidente do “Vindos do Oriente”, que se mostra indignada dos pés à cabeça com essa determinação. Para ela nada disso faz sentido, quando o Ministério da Cultura concede um mero apoio a uma manifestação cultural popular que sempre sobreviveu com os seus meios próprios na ilha de S. Vicente. “Posso até enviar-lhes tudo o que quiserem, desde que financiem o meu projecto na íntegra. Mas, na verdade, aquilo que me dão cobre uma ínfima parte do meu orçamento, logo não vejo por que razão devo colocar em risco o meu projecto por causa de um patrocínio”, frisa Lily d’Chala, que não parece muito disposta a ceder.

Como relembra essa dirigente veterana, nem a Câmara de S. Vicente, que é a principal parceira dos grupos, chega a exigir tanto, ciente de que esse tipo de situação iria perigar a essência do Carnaval mindelense, um concurso levado muito a sério e que se baseia fundamentalmente no factor surpresa.

A opinião de Jailson Juff é muito parecida. Para o Presidente do Cruzeiros do Norte, o Ministério da Cultura está a impor algo melindroso aos grupos mindelenses e que pode ter graves consequências se os projectos forem divulgados. “Se temos a preocupação de construir os andores em locais fechados, longe do olhar de curiosos e evitamos inclusivamente a publicação de fotos e vídeos dos carros alegóricos, como vamos agora enviar maquetes correndo o risco de vermos o nosso trabalho revelado com antecedência?!”, comenta Juff, que não parece confiar muito na garantia de sigilo dada pelo MCIC.

Embora o “Samba Tropical” não participe no concurso oficial, este grupo também está frontalmente contra essa medida, pelas mesmas razões. A principal relaciona-se com o elemento surpresa, que, na opinião do presidente David Leite, fica perigosamente exposta. No seu entender, só um profundo desconhecimento das características do Carnaval de S. Vicente pode “justificar” essa posição do MCIC.  

Para António “Patcha” Duarte, não é cabível solicitar certos tipos de informações aos grupos só para beneficiarem de um patrocínio, ainda mais concedido pelo Estado. Isto quando as agremiações costumam disponibilizar um sinopse do projecto, o orçamento e o relatório das suas contas. Aliás, esses dados foram entregues no ano passado ao próprio MCIC.

“Entendo que o Ministério da Cultura está a enfrentar sérias dificuldades para justificar o patrocínio ao Carnaval de S. Vicente e decidiu fazer esse género de exigência, ciente de que os grupos terão muita relutância em aceitar. Repare que há elementos que serão avaliados exclusivamente no desfile, pelo que não entendo a necessidade de serem disponibilizados ao ministério”, frisa o responsável do grupo Monte Sossego, que não se mostra muito preocupado com o plágio dos trabalhos de “Montsu”.

Um pouco na contramão, a direcção de Flores do Mindelo considera normal que os grupos apresentem os seus projectos para que o desbloqueio das verbas seja o mais transparente possível. Segundo Ana Ramos, isso no entanto nem sempre acontece. Por outro lado, a responsável dessa agremiação está ciente de que essas informações serão guardadas a sete chaves, como promete o referido ministério.

Apesar da relutância, Monte Sossego, Cruzeiros do Norte, Flores do Mindelo e Samba Tropical tiveram que enviar os dados ao Ministério da Cultura para garantirem o patrocínio, uma vez que o prazo era até 15 de Novembro. Além disso, alegam que essa verba tem um peso considerável nos seus orçamentos. Porém, tudo indica que Vindos do Oriente não está disposto a cumprir o edital. “Cumprir? Nada disso. Acho que é o Ministério da Cultura que deve refazer essa medida”, argumenta Lily Freitas.

“Carnaval Factory-2018”

Para António Duarte, os grupos pecaram porque deveriam contrapor-se ao edital na altura certa. O documento foi elaborado a 6 de Outubro e diz no capítulo referente às obrigações que os destinatários devem disponibilizar as seguintes informações, quando solicitadas: maquete de vestuário do Rei, rainha, Porta-bandeira, Mestre-sala, Rainha-bateria, carros alegóricos e letra da música do desfile de 2018.O não cumprimento dessas obrigações implicará penalização nos próximos editais”, salienta o documento.

Além da lista acima mencionada, os grupos devem fornecer uma sinopse do enredo, histórico dos desfiles dos últimos três anos, número de figurantes e alas, o orçamento e apresentar um relatório das contas referentes ao financiamento efectuado em 2017. Quem não cumprir este último item fica automaticamente excluído do patrocínio deste ano, que ficou fixado em mil contos para os grupos oficiais e oitocentos para o Samba Tropical. Para efeito de selecção das candidaturas, o MCIC criou uma comissão interna.

Denominado “Carnaval Factory 2018”, o edital visa enquadrar o incentivo financeiro do Ministério da Cultura e Indústrias Criativas aos grupos carnavalescos de S. Vicente e de S. Nicolau, ilhas onde essa manifestação cultural está mais enraizada. Conforme o preâmbulo, o programa do Governo consagra a profissionalização do Carnaval como uma das vertentes turísticas de excelência, pelo que uma das metas é integrar a cultura na criação de receitas económicas.

Deste modo, o MCIC propõe incentivar a indústria e economia em torno do Carnaval de S. Vicente e de S. Nicolau, com a selecção de pelo menos oito projectos. Mindelinsite abordou o Ministério da Cultura, mas essa instituição preferiu remeter o jornal para o edital.

Kim-Zé Brito

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5 COMENTÁRIOS

  1. E p no anda q nos pé no tcha quis diap nos dnher prala mas è p no oias ne palamque p no mandas um amerda la riba is cré è paneliza nos ma is q t pode cambadas de patetas

  2. Não vejo mal nenhum nisso, o MCIC apenas quer ver os projetos, os orçamentos e sua aplicação. Assim haverá mais transparência e os organizadores e responsáveis de grupos não levam a fama de “comer o dinheiro do grupo”. Além disso a concorrência será mais justa e quem sai a ganhar é a cultura, porque as maquetes servirão para exposição e angariação de fundos futuros. Sinceramente, o Caboverdiano tem medo de prestar contas, só gosta do “tmá gastá e pronto”…

  3. Tenho Dito, concordo consigo em partes, devem sim apresentar um orçamento e a forma como aplicam o dinheiro, mas, a entrega das maquetes pode ser feita após os desfiles, assim fica garantida o factor surpresa. obrigado

  4. isto é um modus operandi, etapa para que Praia atinge os seus objetivos “anuciados por seu Edil” , Querem o mlhor Carnaval de Cabo Verde Na Praia. Acho que vão conseguir . Roubando ideias aqui apanhando acolà. Por que dinheiro não é problema para eles . Creatividade compram e roubam. convencem. os vulneràveis. Algum dia terão de comprar o “FEELING” dos Mindelenses. pois carnaval do Mindelo é fruto de uma LONGA Tradição.. Talvez conseguem comprar isto também. CENTRALISMO EXACERBADO vai gerar DESUNIÃO NACIONAL.

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