O cinismo e o bairrismo

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Por Nelson Faria

O bairrismo, pelo dicionário português, significa: “qualidade ou acção de quem frequenta ou habita um bairro. Quem defende os interesses do bairro ou de sua terra tanto por atitudes de defesa exacerbada de suas alegadas virtudes, ou, por analogia, da terra natal de alguém. O termo geralmente possui uma conotação negativa, pois ao bairrismo está vinculada uma visão estreita de mundo que menospreza tudo aquilo que vem de fora. Raramente o bairrismo é encarado como uma atitude positiva, de amor e orgulho por uma região. Revela muitas vezes um complexo de inferioridade.”

Fazendo analogia do ridículo, nesta lógica, quem lutou pela libertação colonial, quem defende Cabo Verde no mundo, quem defende o planeta Terra em detrimento dos demais da Via Láctea, quem defende a Via Láctea em relação as outras galáxias são bairristas? Claro que não. Ridículo.

Quero dizer que defender o local onde temos sentimentos de pertença, de ligação, orgulho, amor, onde nos identificamos, onde vivemos e conhecemos, nada tem de bairrismo. É sim possível amar, adorar e lutar pelo todo a partir do local. Creio que é este orgulho, bem-querer e forma de estar que os Sanvicentinos têm demonstrado pela ilha, sem descurar o todo, o que tem sido utilizado de forma conveniente para servir o rótulo e a mordaça denominada “bairrista”.

O Sanvicento quer sim igualdade de tratamento, equidade e justiça para que este desenvolvimento do todo cabo-verdiano se concretize de forma harmoniosa e que seja também incluído a ilha e sua gente. Doloroso é verificar que o todo tem sido sacrificado, sim, por verdadeiros interesses bairristas e suas organizações prós. O mal ocorre quando todos defendem o seu quintal e somente o Sanvicentino é ignorado, maltratado, desprezado e rotulado de egoísta/bairrista por defender a sua ilha. Assim, continuamos a verificar que assimetrias regionais existentes manterão a tendência de agudização, dando a impressão de girarmos, girarmos e permanecermos, ou irmos, no mesmo sítio, o centro. Gorando e suplicando atenção para esta parte do território nacional, assim como as demais não privilegiadas, o resto das oito ilhas habitadas, o fazem. Mendigar e satisfazer-se com migalhas é o que tem sido reservado às ilhas “periféricas”, São Vicente inclusive.

Neste cenário nada mais natural do que a radicalização de muitos. Nada mais natural que começar-se a não reconhecer num todo que é chamado cinicamente Cabo Verde, quando apenas considera uma parte do todo. A defesa do “Cabo Verde” propalado não é nada mais nada menos que a defesa da comodidade e continuidade dos interesses instalados a favor de um centro e dos “manhentos”. Nada mais nada menos que um bairrismo cínico e disfarçado, onde a melhor defesa é atacar e isolar quem contrapõe esta realidade utilizando para isso a expressão que melhor os identifica. Efeito espelho. Acontece.

Se reconheço inúmeras potencialidades e qualidades desta ilha, não somente por ser parte dela, devo igualmente reconhecer que o país, todo ele, e cada parte dele, tem características que podem ser aproveitadas a bem das comunidades locais e da nação cabo-verdiana. Um verdadeiro Cabo Verde. Onde todos contamos, onde somos iguais independentemente da origem, onde as oportunidades estão a mercê de qualquer cidadão, onde os recursos são distribuídos equitativamente numa lógica de desenvolvimento do todo. Onde o nosso bairro, o nosso país e o nosso partido é deveras Cabo Verde!

Óbvio que, para melhor exploração das potencialidades das ilhas e dos recursos do Estado, todos nós, há que se criar uma visão de desenvolvimento onde cabem todos, absolutamente todos, baseado em critérios estratégicos que não descurem a descentralização, igualdade de tratamento e equidade, por mais difícil que seja a conjugação desses factores. Este esforço deve ser feito em tudo o que diz respeito ao todo, mormente no tocante aos recursos. Caso assim não for continuaremos a alimentar incompreensões, desigualdades, assimetrias regionais e consequentes extremismos bairristas. Correndo o risco de não estar enganado, creio que esta é a percepção da população de São Vicente sentida e vivida. Portanto nada “bairrista” como se pretende fazer crer.

Tendo o Abraham Lincoln como referência na procura da igualdade entre os Homens em tempos difíceis, alguém que lutou contra escravidão e a favor da união de um país, importante reter dele as seguintes passagens: “Pode-se enganar a todos por algum tempo, pode-se enganar alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos por todo o Tempo”. O tempo, este maldito e vil revelador da verdade das palavras, que sobrepõe as atitudes e as acções acima dos belos discursos não permitirá, com certeza, que todos sejamos enganados por todo o tempo… Nem pelos que estão e nem pelos que já foram. Os verdadeiros bairristas revelar-se-ão!

Desejo que nos anos seguintes São Vicente e demais ilhas tenham outro tratamento, também explícito nos próximos OGE. Desejo igualmente, caso não vier a acontecer, que os Homens das ilhas não se tornem cobardes… Abraham Lincoln: “Pecar pelo silêncio, quando se devia protestar, transforma os Homens em cobardes”. Desejo que não nos tornemos contidos pelo cinismo, conveniente, do rótulo/mordaça do “bairrismo” e muito menos servis da falsa satisfação de egos e umbigos.

Grande orgulho de ser d’soncent e ser cabo-verdiano!

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