Rei morto, Rei posto

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Por Rosário Luz

Em finais de 2016, alguns meses após a tomada de posse deste Governo, a opinião pública e a comunicação social.cv já falavam em “remodelação”. A sociedade e a imprensa apontavam a inércia das tutelas da Economia e das Infraestruturas, e os despropósitos do Ministro da Cultura, como evidência da sua inevitabilidade – isto caso o PM desejasse manter a credibilidade do seu Executivo. Após um ano de especulação, realiza-se finalmente a tão esperada mexida.

Quais foram as medidas e qual o seu significado? O Primeiro-ministro limitou-se a anunciar as mudanças que efetuou; mas, para além de uma ou outra referência operacional vaga, não as justificou. O facto é que, em Cabo Verde, as verdadeiras razões por trás de uma iniciativa política nunca são expostas ao eleitor. E sendo assim, resta-nos procurar os reais motivos por trás desta decisão na história da nossa Demokrasia, no desempenho deste Governo e nas características pessoais das suas personalidades.

Talvez a nossa primeira surpresa tenha sido que ninguém saiu. A expetativa do público era que fossem substituídos aqueles governantes cujo desempenho desapontou; mas, pelos vistos, o PM ignorou os apelos da sociedade e não destituiu os membros mais mal quistos da sua equipa. Porquê? Porque não era esse o seu intento. Mais tarde poderemos discutir também a entrada para o Executivo de oito novos membros – versus a promessa de campanha de um Governo “enxuto e eficaz” – e a alta ou baixa relevância do novo Ministério da Integração Regional; mas serão todas questões marginais. O verdadeiro objeto desta remodelação foi reorganizar o Governo para permitir que Olavo Correia, nomeado Vice-Primeiro-ministro, assuma o controlo irrestrito da política económica.cv – e que o faça com toda a visibilidade.

Num país onde a pobreza e o desemprego são persistentes, o verdadeiro poder político reside, evidentemente, com quem detém a jurisdição sobre as estratégias económicas e orçamentais do Governo. Consequentemente é o chefe do Governo a exercer a tutela da “coordenação económica”. Ou seja, o PM guarda para si a autoridade final sobre a governação económica e a interface do poder Executivo. Quando este não é o caso, há normalmente ilações a tirar.

Por exemplo: António Gualberto do Rosário foi nomeado Ministro da Coordenação Económica por Carlos Veiga no seu segundo mandato e Vice-Primeiro-ministro em 1998. Em 2000, Veiga renunciaria ao cargo para candidatar-se à Presidência da República e Gualberto do Rosário assumiria o cargo de Primeiro-ministro Interino, a presidência do MpD e a candidatura às legislativas. Em 2014, José Maria Neves abandonou a presidência do PAICV, também ele preparando-se claramente para uma candidatura presidencial. Ainda assim, visando manter o controlo político até ao fim, Neves recusou-se a promover Janira Almada na hierarquia do Governo, mesmo quando a sua vitória inequívoca nas eleições internas o exigia.

Nos casos de Veiga e Neves, as transferências da autoridade politica e económica tiveram uma motivação clara; e ocorreram após anos de sólida chefia executiva, quando o PM – já exausto do poder – preparava-se para concorrer ao fausto repouso da Presidência da República. Ulisses Correia e Silva ainda deveria estar muito longe de ter impulsos presidenciais. Tendo cumprido apenas ano e meio de mandato, deveria estar em fase de Lua-de-mel com o poder executivo, labutando agressivamente para consolidar o seu poder pessoal e implementar a sua visão para a governação. Ao invés de o fazer, transfere o grosso do poder real e simbólico para Olavo Correia. Senão uma ambição presidencial prematura e inexplicável, o que poderá ter motivado o suicídio político do PM.cv?

A avaliação pública do desempenho do seu Governo é reconhecidamente problemática. Acusações de nepotismo, partidarização e de embuste na regionalização têm perseguido o Governo de Correia e Silva e sido agravadas pela inexperiência política da sua equipa. Mesmo assim, é difícil acreditar que o Primeiro-ministro tenha sido forçado a renunciar às suas prorrogativas de liderança devido a uma deficiência de capital político.

Ainda não se passaram dois anos desde que o MpD obteve duas estrondosas vitórias eleitorais, essencialmente através da imagem pessoal do seu candidato. O sucesso do MpD nas Legislativas de 2016 assentou-se grandemente na pessoa de Ulisses Silva e na visibilidade por ele adquirida enquanto edil da Capital – numa campanha onde Olavo Correia foi completamente invisível. Para além disso, a maioria das candidaturas municipais – relativamente desconhecidas do público.cv – apoiaram-se abertamente no PM recém-eleito.

É improvável que uma figura capaz de mobilizar esse nível de suporte nas urnas, e sem qualquer adversário interno, tenha perdido a ascendência em tão pouco tempo, a ponto de ser obrigado a ceder a chefia do Governo. Mas se não foi obrigado, fê-lo voluntariamente; e, na minha opinião, a racionalidade política não explica satisfatoriamente esta possibilidade. Sendo assim, talvez devamos procurar a sua justificação em processos mais subjetivos; mais ligados às respetivas personalidades dos atores em palco. Talvez devamos até – por falta de causalidade aparente – permitirmo-nos uma ou outra ligeira especulação.

Um cenário capaz de justificar cabalmente o afastamento voluntário do PM das suas responsabilidades de governação seria a existência de motivos pessoais prementes – seja de saúde ou de família – que o impeçam de se dedicar ao cargo com a entrega que este exige. Se for este o caso, toda a especulação é uma intrusão no foro privado, que todo o indivíduo tem o direito de proteger. Mas, se o motivo principal do seu afastamento for antes a inadequação da personalidade de Correia e Silva ao cargo que exerce, então a nossa especulação é legítima.

Nem todo o vivente nasce talhado para a política. O exercício do poder exige um gosto pela exposição e uma capacidade de gerir tensão que não são apanágio de qualquer um. É preciso gostar de mandar, realizar-se no Poder – mormente em conjunturas difíceis como esta – para aguentar a enorme pressão inerente à liderança. Estará Ulisses Correia e Silva à altura de tais exigências? O seu histórico pessoal tende a indicar que não. Nele nunca se destacou – tal como em José Maria Neves – nenhuma afoiteza em relação ao poder. Silva foi propulsionado para a liderança do seu partido e do Governo por um conjunto de circunstâncias grandemente alheias à sua vontade e à sua personalidade. Quanto a Olavo Correia, apesar da sua invisibilidade nos embates eleitorais, tem demonstrado ter uma sede de comando mais talhada para liderar o Governo nas atuais circunstâncias.

Talvez, neste contexto, uma ambição presidencial prematura por parte do PM seja mais inteligível. Reconhecendo em si próprio um carácter avesso ao exercício do poder, e em Olavo Correia uma ambição mais adequada aos desafios da governação, terá o PM sido convencido – ou se convencido – a procurar desde já o repouso da Presidência da República, sem esgotar os prazos habituais? Em 2021, o popular Jorge Carlos Fonseca já não poderá recandidatar-se; e nada garante que, até lá, o PAICV seja capaz de apresentar um candidato credível. Nesse quadro, as chances de Correia e Silva nas próximas presidenciais seriam altíssimas. Maybe… Who knows? I don’t know…

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