UCID acusa CMSV de bloquear incineradora por “questões partidárias”

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A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) convocou hoje a imprensa no Mindelo para apresentar um projecto de incineração do lixo desenvolvido por César Lopes, doutor em Química residente na Suécia, com apoio de uma universidade local, que pretende que seja implementado na ilha. Orçado em 750 mil contos e com financiamento garantido pela empresa Againity, António Monteiro afirma que o projecto está a ser bloqueado pela Câmara Municipal de S. Vicente por “questões partidárias”.

Segundo Monteiro, a UCID decidiu tornar público este projecto e trazer o seu mentor para a ilha, após o presidente da CMSV ter levantado dúvidas sobre a sua existência. “No dia 21 de Outubro proferimos uma conferência de imprensa na lixeira de São Vicente para abordar a forma como a Câmara Municipal vem tratando o lixo na ilha e falamos deste projecto. No dia 24, o presidente da CM, respondendo à UCID, levantou dúvidas sobre o projecto e a seriedade do mesmo. Chegou mesmo a dizer que o projecto não existe e que tudo isso não passaria de um bluf político”, relembra o líder da UCID, realçando que não está na política para fazer “bluf”, mas para ajudar a resolver os problemas da população da ilha de S. Vicente e do país.

É, aliás, por esta razão, que o presidente do partido volta à carga, acompanhado do mentor do projecto, porque entende que a questão fundamental para São Vicente, que há vários anos queima o lixo a céu aberto e a baixas temperaturas, emitindo toxinas e furanos, que são prejudiciais para o ambiente e a saúde pública em toda a sua cadeia. “Ouvimos que a CMSV pretende construir um Aterro Sanitário e que está à espera da homologação do Plano Director Municipal para o efeito. Mas hoje os países mais avançados já não estão a recorrer à técnica do aterro porque os efeitos negativos para o ambiente são enormes”, diz o engenheiro, destacando o exemplo do Metano expelido pelos aterros, que é 21 vezes mais prejudicial para o ambiente que o Dióxido de Carbono. “Aterro não é solução”, reforça.

Queima do lixo a céu aberto

César Lopes, que é doutor em Química, explica que o projecto arrancou na Suécia em 2012, após um encontro com a então Ministra Fernanda Fernandes, que lhe disse que o lixo é um problema em Cabo Verde porque a queima é feita a céu aberto. “Fiquei a pensar porque na Suécia a queima é acautelada e, do calor liberado, produz-se água quente, que é vendido para aquecer as casas. Em Cabo Verde não precisamos de água quente, mas podíamos produzir electricidade e água doce”, assevera.

Com esta ideia em mente, abordou uma universidade e elaboraram um relatório com várias soluções. Acabou por escolher a incineração do lixo, que acredita ser a opção que mais se adequa à realidade de Cabo Verde e que permite produzir, em paralelo, electricidade e água. Na posse dos documentos, rumou à Cabo Verde para apresentar o projecto à Câmara Municipal mas, diz, o presidente não mostrou interesse. Mesmo assim não desanimou. Regressou à Suécia e começaram a trabalhar numa segunda fase do projecto, que ficou concluída em 2015.

“Tivemos apoio de uma companhia sueca. Esta trabalhava com um grupo – Againity –, que mostrou interesse em financiar o projecto a 100%, caso a CMSV não tivesse disponibilidade financeira. Os cálculos elaborados mostraram que, com a sua implementação, iriamos criar 25 postos de trabalho e que o projecto é rentável. Estamos a falar de um projecto que é economicamente viável, daí o interesse da companhia sueca”, indica.

Na altura, acrescenta, desconheciam a quantidade diária de lixo produzida em São Vicente, pelo que envolveram a vizinha ilha de Santo Antão. “A nossa ideia era recolher lixo em Santo Antão e trazer para ser incinerado em São Vicente. No entanto, ficamos a saber que esta ilha produz 60 toneladas de lixo por dia, quantidade suficiente para viabilizar o projecto”, pontua, realçando que continua a aguardar por uma resposta da Câmara de São Vicente, que deve ser a protagonista neste processo. “Eu sou um emigrante. Queria oferecer este projecto à CMSV para resolver um problema”, indica César Lopes, que defende igualmente o envolvimento da Electra, que é quem vai distribuir a electricidade e a água produzida com o calor da queima do lixo.

Bloqueio da CMSV

Este projecto, refira-se, contempla ainda soluções para o aproveitamento de garrafas de vidro, baterias de carros e outros materiais. No caso das garrafas de vidro, por exemplo, estas seriam moídas e utilizadas para produzir areia para a construção civil, sendo que em São Vicente já existe uma empresa que produz máquinas para o efeito. É por tudo isso que a UCID insiste na necessidade de aproveitar esta oportunidade que é dada por este cabo-verdiano natural de Santo Antão, mas que reside há largos anos na Suécia para “ultrapassar aquele quadro triste da Ribeira d’Julião”.

“Insistimos, mas não por birra. Aliás, procuramos esta solução ainda na qualidade de vereador da CMSV. Estranhamos que até hoje não a conseguimos pôr em prática, sendo que trará benefícios para esta ilha e para os seus cidadãos e pode, o futuro, ser aproveitado nas outras ilhas. Acredito que este projecto é a via que o Governo Central e locais devem seguir. Hoje não existe lixo, existe matéria-prima que pode ser utilizada para potenciar a economia da ilha e do país”, refere Monteiro, adiantando que os deputados da UCID por duas vezes solicitaram encontros com o Presidente da CMSV para apresentar este e outros projectos, mas nunca foram recebidos.

Na tentativa de contornar os bloqueios da Câmara de São Vicente, António Monteiro revela que abordou o Ministro do Ambiente, que disse não ser um defensor da incineração, em detrimento dos aterros. De acordo com o líder da UCID, o governante disse ainda que a instalação de incineradoras nas ilhas poderia criar problemas técnicos. Trata-se de uma posição que respeita, mas que não concorda porque, afirma, os países europeus, sobretudo os nórdicos, estão a substituir aterros por incineradoras.

“Na década de 80/90 os aterros estavam no seu apogeu mas, com os avanços tecnológicos, estes vêm sendo substituídos por incineradoras. E a tendência é diminuir cada vez mais. Por outro lado, é preciso ver que, com este projecto, iremos eliminar o caos social da lixeira de São Vicente, onde famílias inteiras vivem à volta do lixo”, afirma o presidente da UCID, que diz não ter dúvidas que, questões partidárias, estão a bloquear projectos interessantes para São Vicente. Aliás, sublinha, muitos já foram perdidos.

Constânça de Pina

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