Cargueiro Baltimore reforça ligação marítima inter-ilhas: Primeira viagem programada para hoje

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O pequeno cargueiro Baltimore, a mais nova embarcação de bandeira nacional a sulcar os mares de Cabo Verde, deverá realizar esta quinta-feira a sua primeira viagem com a bandeira nacional, na linha São Vicente – Boa Vista. Baptizado esta semana, este barco foi afretado em regime de leasing na Holanda. A sua vinda para o arquipélago é a concretização de um sonho de há muitos anos de Evandro “Micha” Livramento.

Ao Mindelinsite, Micha conta que é um “ilhéu” por excelência. Nasceu em São Vicente, mas cedo viajou para Santo Antão. “Fiquei encantado com a viagem, sobretudo com o comandante movimentando o leme do navio Carvalho. Admirava as velas e o navio deslizando neste canal à noite, mas também de dia. Esta viagem me marcou profundamente”, confessa.  

Nascia assim a sua paixão pelo mar, que foi depois alimentada pela avó, uma mulher destemida que viveu durante muitos anos com um capitão português e que o acompanhava em todas as suas viagens. “A minha mãe queria que eu fizesse um curso de enfermagem e quiçá de médico. Mas a minha avó dizia-lhe que eu seria um homem do mar. Ela me contava estórias sobre o mar e as suas viagens por Serra Leoa, Congo Belga, Angola, S. Tomé. Foi a minha avó que também me ensinou as primeiras palavras em inglês e francês”.

Depois, como todo o rapazinho de “ponta d´praia”, com muito orgulho aprimorou o seu conhecimento de inglês. Estava definitivamente conquistado. Fazer uma formação de marinheiro na Escola Náutica do Mindelo foi o caminho natural. No entanto, não conseguiu um estágio de Imediato porque não tinha muitos contactos na área, ao contrário dos outros colegas. Irrequieto, optou por fugir num iate, à semelhança de vários outros rapazinhos.

“Conheci a filha de um casal inglês no festival da Baía das Gatas e, logo de seguida, fugi com eles no seu iate. Fomos parar em Fernando de Noronha no Brasil. Percorri toda a costa daquele país sul-americano. Depois fui para as Caraíbas, sempre trocando de navios. Como era marinheiro de ´primeira-água`, tive de lavar pratos, limpar casas de banho, cozinhar. Ou seja, fiz de tudo um pouco. O mesmo que agora estou a fazer aqui no meu barco”, pontua.

Após um tempo, Micha decidiu regressar para Cabo Verde. Por causa do seu temperamento forte, admite que enfrentou alguma dificuldade para conseguir trabalho. Mas lá conseguiu uma vaga de Imediato no navio Sotavento, que operava sobretudo na região sul do país. Acabou por desentender com um dos responsáveis. “Telefonei para a agência a pedir segurança para o fiel de porão, que estava a ser ameaçado por estivadores por causa de algumas garrafas de whisky. Disse-lhes que se não enviassem segurança eu iria fechar o porão. Eles entenderam que não era para tanto pelo que, cerca de um mês depois, fui despedido”.

Demissão benéfica

Mas esta demissão acabou por ser positiva. É que, segundo Micha, obrigou-o a emigrar uma segunda vez, agora para Holanda, onde empregou-se como Imediato, Capitão de cargueiro e de rebocador. Foi no seu último emprego que conheceu os proprietários do navio Baltimore. “Na altura trabalhava como capitão de um rebocador. Estávamos a rebocar uma plataforma da Namíbia para a Turquia. Um dos cabos que prendia a plataforma se soltou. Eu e um outro marinheiro estivemos cerca de 10 dias a tentar amarrar a plataforma. Avisaram-nos que, caso falhássemos, a companhia teria de fechar as portas porque teriam de pagar a plataforma e entrariam em falência. Felizmente conseguimos”.

“Estas pessoas foram conhecendo o meu trabalho e fui ganhando a sua confiança. Andei depois num outro cargueiro da companhia, que sofreu acidente com perda total durante uma viagem entre Polónia e Emirados Árabes Unidos. Houve uma explosão na casa de máquina. Perdemos propulsão, perdemos tudo. Mas, graças a Deus, não houve feridos”, acrescenta.

Entretanto, o mercado do petróleo começou a retrair-se na Europa e, com isso, o navio Baltimore perdeu espaço. As solicitações reduziram drasticamente e os donos optaram por vender a embarcação. “É um navio que já conhecia e que visitou o Porto Grande algumas vezes. Por outro lado, já havia capitaneado um navio similar, que prestava serviço em plataformas na Holanda, Polónia, Rússia e Suécia. Tinha sido também controlador de trafego marítimo em um barco muito parecido. Por isso, entrei em contacto com os donos e chegamos a acordo”.

Afretamento em regime de leasing

Este navio, que chegou a Cabo Verde vindo da Holanda no dia 07 de Maio último, vai operar em regime de leasing, muito por conta de uma sociedade entre Micha e o filho dos proprietários do Baltimore. “É um navio potente e pode viajar com uma tripulação reduzida. Para se ter ideia, eu trouxe o barco da Holanda para Cabo Verde, numa viagem de nove dias e sete horas, com apenas dois tripulantes. É uma embarcação muito rápida”.

Após alguns obstáculos burocráticos, o Baltimore, um navio com 42 metros de comprimento, oito de largura e um peso total de 682 toneladas, está pronto para sulcar os mares de Cabo Verde. Segundo Micha, isto é possível graças ao envolvimento directo do Secretário de Estado da Economia Marítima, Paulo Veiga, que está a mostrar uma grande dinâmica e conhecimento do sector. A nível jurídico, prossegue, contou também com a sensibilidade da jurista Eva Marques.

“O navio esteve paralisado durante quatro meses devido a inércia das anteriores autoridades marítimas. Durante este tempo estive a pagar os salários da tripulação, despesas portuárias e outros, sendo que já tinha tido gastos enormes para trazer a embarcação. As pessoas não tiveram sensibilidade e nem a abertura para ver o potencial e a importância de ter este navio, que tem apenas 12 anos e foi totalmente reformado, a operar aqui no país”, desabafa.

O Baltimore, que deverá fazer a sua primeira viagem esta quinta-feira para a ilha da Boa Vista, tem neste momento uma tribulação constituída por sete marinheiros, incluindo o comandante, mais três funcionários na sua agência, a Avalon CV. É um dos primeiros cargueiros do país com condições para transportar carga congelada e fresca, está com toda a documentação e vai operar nas linhas São Vicente, Santo Antão, Sal, Boa Vista e Praia, ida e volta, sendo que o “porto de residência” será o Porto Grande do Mindelo.

Constânça de Pina

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6 COMENTÁRIOS

  1. força e coraja è muito pouco para enfrontar tanta moleza do governo cabo verdiano. um filho quer ajudar a naçao mais os governantes tem que espremelo ate fca sikin. OBRIGADO

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