Há vida no Ilhéu Raso escondida na sua aparência desértica

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Parte-se da zona do Calhau num bote que leva as pessoas a um barco um pouco mais para dentro do mar, com a tranquila ilha de Santa Luzia à frente, repousada no azul do oceano. Chegar ao Ilhéu Raso leva umas quatro horas de viagem, dadas as condições do barco. Num bote pesqueiro é possível fazer a trajectória em aproximadamente 45 minutos. Entretanto, para quem vai pela primeira vez, todo esse tempo se converte num agradável momento para apreciar, com calma, a ilha de Santa Luzia e a sua extensa praia de areia branca na sua costa e, um pouco mais adiante, o pequeno Ilhéu Branco.

Ao chegar ao destino, à primeira vista parece mais um ilhéu abandonado e sem vida, onde ser nenhum seria capaz de sobreviver. De aparência árida e pouco amigável, entre as suas pedras e terra seca, o sol escaldante assusta quem chega para visita.

Basta pôr os pés em terra para se aperceber que, a final, temos anfitriões à nossa espera. Vários. Destemidos e até muito íntimos. Os pardais são os primeiros a dar a cara. Em grande número e à procura de novidades, recebem os que desembarcam no ilhéu com “música”. Logo a seguir, o caminhar exige cuidado para não se esmagar as formosas lagartixas que saltitam entre as pedras, ou os ninhos de calhandras espalhados pelo chão.

Há vida no ilhéu raso! E não fica por aí. As aves marinhas que ali habitam constituem a mais bela fatia da visita. A cagarra, anos atrás em perigo de extinção, hoje já abunda em número maior, graças ao trabalho de sensibilização desenvolvida pela Biosfera 1, principalmente junto dos pescadores que, outrora, faziam a caça da espécie para o consumo, vindos inclusive de Santo Antão.

Quem não sabe não dá por eles. Sempre nos seus ninhos, debaixo de pedras e em pequenas grutas ou buracos no chão, nesta época do ano já estão a se preparar para a sua viagem a países como Argentina ou então para a América, em meados de Novembro.

A “Rabo de Junco” é conhecida como a mais bela habitante da ilha. Com o seu bico avermelhado e cauda peculiar, esta ave encanta pela sua beleza e singularidade.

Mais adiante encontramos os Alcatrazes. Não menos formosas, as suas crias parecem ser de algodão. Difícil controlar a vontade de tocá-las. Mas, muito cuidado ao se aproximar delas. São “meio destrambelhadas” e com tendências suicídas. Se aproxima um estranho, os mais novos são capazes de saltar penhasco abaixo, sem ao menos terem aprendido a voar. Mas o objectivo aqui é proteger. Então vamos manter a distância segura e respeitar o seu espaço.

À noite saem dos esconderijos as osgas gigantes. Tarentola Gigas é o seu nome científico. Em muito pouco se assemelha às osgas a que estamos acostumados. De tamanho muito maior e corpo espaçoso, podem atingir o tamanho máximo que uma osga pode alcançar. Em perigo de se extinguir, esta espécie já só se encontra no Ilhéu Raso, e em número muito escasso na Ilha de São Nicolau.

O Ilhéu Raso é, neste momento, um importante habitat para espécies diversas da biodiversidade de Cabo Verde. O local com maior número de aves marinhas, uma autêntica fonte de vida que habita, entre tantas, a espécie endémica de Cabo Verde, a Calhandra, agora também transladada para a ilha de Santa Luzia, com o intuito de se expandir a sua área de residência.

Desde o mês de Junho, o ilhéu conta com um grupo de biólogos e voluntários da Biosfera I que estão no terreno a trabalhar, principalmente com a Cagarra, mas também com outros animais, contando com o apoio de investigadores e estudantes da Universidade de Coimbra. O Ilhéu ainda é vigiado por uma pessoa destacada pelo Ministério do Ambiente, que controla quem entra e qualquer movimentação ao redor que possa afectar esta reserva.

Natalina Andrade (Estagiária)

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