25 de Abril de 1974 – As portas que Abril abriu

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Por: Ildo Rocha Ramos Fortes*

A música foi o veículo encontrado como senha pelos estrategas do MFA para marcar o momento zero da Revolução dos Cravos. Não tendo sido a primeira escolha, acabou por ser a canção “E depois do Adeus”, vencedora do Festival da Canção a 7 de Março e interpretada por Paulo de Carvalho, a escolhida para o primeiro sinal, em virtude da sua letra ser politicamente neutra e não levantar qualquer suspeita.

A 24 de Abril de 1974, um grupo de militares instala-se secretamente no posto de comando do movimento no quartel da Pontinha. Este grupo é liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, uma figura incontornável da Revolução. Às 22H55mm, os Emissores Associados de Lisboa emitem a canção “E depois do Adeus”, que desencadeia a tomada de posições da primeira fase do golpe. O segundo sinal que conforma o golpe e marca o início das operações ocorre às 0H20mm, quando no programa Limite – da Rádio Renascença, passa a canção “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso. Vários regimentos militares aguardavam por este sinal. A Norte, uma força do CICA 1, com o apoio das tropas vindas de Lamego, toma o Quartel-General da região do Porto. Forças do BC de Viana de Castelo tomaram o Aeroporto de Pedras Rubras. Forças do CIOE assumem os principais postos de comunicação – a RTP e o RCP no Porto.

Da Escola Prática de Cavalaria de Santarém partem forças comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, que ocupam o Terreiro do Paço nas primeiras horas da madrugada seguinte. Uma parte dessas forças segue depois para o Quartel do Carmo onde se encontrava Marcelo Caetano, que se rende ao fim do dia. Parte depois para a Madeira, rumo ao Brasil, onde morreu em 1980. No seu reduto, elementos da polícia política (Pide-DGS), resistem e disparam, matando quatro pessoas que se manifestavam à porta das suas instalações.

Falar do 25 de Abril é antes de mais viajar no tempo, até um tempo sem tempo, onde tudo era linear, monocromático, amorfo, vigiado, proibido. Inspirava-se a opressão, o medo, a tortura, o “orgulhosamente sós”, a defesa da pátria, a beatitude da pobreza séria e digna, a ignorância do que palpitava no mundo, nesse estrangeiro quase desconhecido, as leis severas e castradoras que coercivamente castravam a criatividade, a crítica, a liberdade. Era esse país onde habitaram gerações de portugueses e portugueses, onde as mulheres ganhavam em média 40% menos que os homens, tinham o direito de voto altamente condicionado, as “paredes tinham ouvidos”, a emigração era a única saída para muita gente, um simples acto de respirar podia ser alvo de suspeição. Portugal combatia o seu Império mandando para as colónias os seus filhos combater os filhos dos territórios que aspiravam a liberdade, a fim de aniquilar os movimentos independentistas.

Cabo Verde e outras colónias, Angola, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Principie, foram Nações onde a Ditadura fazia parte do quotidiano dos povos que incessantemente lutavam pela independência. A conquista pela liberdade foi feita em três dimensões: Combates – luta armada, havendo registo de muito derramamento de sangue -; frente diplomática, com Amílcar Cabral e outros camaradas, em várias ofensivas até subir ao plenário das Nações Unidas na sua IV Assembleia Geral, que ficou para história. A palavra através da música, poesia e prosa, foram poderosas armas de combate contra a Ditadura do Fascismo português e ajudaram os filhos das ilhas a tomarem consciência da importância do povo ser dono do seu próprio destino. 25 de Abril teve como consequência  a independência das ex-colónias. No dia 5 de Julho de 1975, Cabo Verde torna-se país livre, assim como outros países, ainda que em datas diferentes.

Cabo Verde não foi palco de luta armada, mas o Concelho do Tarrafal na Ilha de Santigo, que hoje 25 de Abril celebra 101 anos da sua criação, simboliza como o maior instrumento de repressão dos portugueses e africanos. A 23 de Abril de 1936, no Decreto-Lei n.º 26 539 António de Oliveira Salazar criava a “Colónia Penal do Tarrafal”. Segundo a obra “Tarrafal na memória dos Prisioneiros”, de Nélida Freire Brito, este foi o período mais agudo do fascismo português. A colónia no Tarrafal a sul da ilha Santiago, considerada pelas autoridades como uma das mais inóspitas na altura, destinava-se aos “presos por crimes políticos e sociais” e estava sob dependência da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, PVDE, cujo director, Agostinho Lourenço, trabalhava sob influência de Salazar.

Tarrafal funcionou, “numa primeira fase, de 1936 a 1954, como cárcere para presos políticos de Portugal; e mais tarde, de 1962 a 1974, com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom, como penitenciária de nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Ao todo estiveram aí encarcerados mais de 340 antifascistas portugueses e cerca de 230 nacionalistas africanos (106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos) “. Entre os reclusos houve ainda uma dezena de estrangeiros, “arrebanhados em rusgas em Portugal”. As vítimas mortais, na contabilidade de José Vicente Lopes, foram 37.

Por ser um dia histórico para Cabo Verde em geral e Tarrafal em particular, A Assembleia Municipal do Tarrafal comemora hoje 25 de Abril os 101 Anos da criação do Concelho, com uma Sessão Solene a decorrer no espaço do ex-Campo de Concentração. O Concelho do Tarrafal foi criado em 1917, através do Decreto-lei nº 3, 108-B, de 25 de Abril, publicado no Suplemento nº 3, do Boletim Oficial (B. O.), nº 25/1917, integrando as (então) freguesias de Santo Amaro Abade e de São Miguel Arcanjo.

25 de Abril, é motivo para comemoração em Portugal e Cabo Verde. Em Portugal Marcelo Rebelo de Sousa, durante o seu discurso no Parlamento Português falou da importância do equilíbrio do Poder, concluindo “ se algum dia este princípio for rompido, entraremos num terreno perigosíssimo”.

No Tarrafal, os Autarcas José Pedro Nunes, Presidente da Câmara Municipal, e Presidente o Assembleia Municipal, Silvino Lopes Évora, promovem a Cerimónia Central, com Forças Armadas de Cabo Verde a içar Bandeira Nacional, na Câmara Municipal, estando previsto um desfile militar, perto do meio-dia, pelas ruas da Cidade de Mangui (a Capital do Tarrafal), com Sessão Solene, a decorrer e no ex-Campo de Concentração, na presença de Jorge Santos, Presidente da Assembleia Nacional e lideres das Bancadas do MPD e PAICV.

*Jornalista e Investigador sociocultural

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