Abraão Vicente: “Manter a qualidade, a linha do jazz e a coerência são essenciais”

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A casa das noites do jazz do Mindelo, o Jazz Village na pracinha do antigo Liceu Gil Eanes em São Vicente, abriu as portas ontem para três artistas e respectivas bandas originários de Cabo Verde, Camarões e dos Estados Unidos. E teve lotação esgotada. A decisão de manter só o jazz na programação do espetáculo valeu a organização do Mindel Ímpar Summer Jazz imensos elogios. O Ministro da Cultura, Abraão Vicente, destacou, por exemplo, o facto deste certame musical mindelense não se deixar levar por “artistas da moda”.

“É essencial manter a qualidade, a linha do jazz é a coerência do Mindel Summer Jazz. A partir do momento que temos festivais temáticos é preciso que estes não caiam na tentação de ir pela moda. É preciso dar palco aos jovens talentos do Mindelo e Cabo Verde que tenham essa vertente jazz e, depois, consolidar com nomes  inauditos. Grande parte dos mindelenses, provavelmente, não conhecem estes artistas, por isso é um momento de aprendizagem que o Mindel Summer Jazz teve em perspectiva”, sublinhou.

Rendido ao evento, Abraão Vicente diz-se satisfeito de ver artistas internacionais de renome a tocar no MSJ, o que “é de se tirar o chapéu” aos organizadores por se manterem fiéis,  depois de tantos anos, a ideia de que os festivais não têm que ser iguais e que os cabeças de cartaz não têm de artistas que fazem sucesso nas bilheteiras aqui em Cabo Verde. Esta crítica foi direcionada ao Kriol Jazz Festival. O ministro garantiu que não é o único com esta visão sobre este festival que acontece, em abril, na capital de Cabo Verde. “De repente temos um festival com pagode, com musica brasileira e com musica tradicional cabo-verdiana. Pode ser uma perspectiva, mas creio que se é jazz, é jazz. Mesmo que seja jazz africano, jazz latino…jazz é jazz. Não é uma crítica, é alguém atento que tem que dizer aquilo que é evidente.”

Abraão Vicente concorda com a “enorme” qualidade do Kriol Jazz Feastival. Contudo diz que deixou de ser um festival apenas do jazz. “A partir do momento em que se colocam artistas pop ou da música tradicional cabo-verdiana, que não têm nenhuma ligação com o jazz, como cabeça de cartaz ou como convidados ano após ano, é claro que fogem desse standard” .

Neste sentido, classificou o cartaz do MSJ como “incrível”. Isto porque, frisou, os organizadores estão a saber manter o nível e as pessoas continuam a responder e por isso atribui nota positiva ao evento. As masterclasses também foram alvos de observação do ministro da Cultura. Segundo Abraão, foram realizadas pela primeira vez em São Vicente e o resultado foi “bastante” positivo, tendo em conta o intercâmbio, a troca de experiências  e de conhecimentos entre artistas americanos e os nacionais. 

“Não estamos a falar apenas de artistas internacionais.  Estamos a falar do Berklee, que é das maiores escolas jazz do mundo. A cidade da Praia deixou fugir a oportunidade de ter o Barkley no KJF, porque a organização não quis e não fez um esforço necessário para a financiar. Creio que é de louvar que Mindelo tenha tido esta abertura para receber esta escola tão conceituada”, frisou este nosso interlocutor, realçando que Mindelo tem artistas “excepcionais”, mas a cidade ganha com a presença do Berklee.

Entre o liceu Velho e o Palácio do Povo, o ministro disse que o cenário é ideal porque Mindelo tem que aproveitar o seu patrimônio histórico construído. “Morada é o maior legado e o maior patrimônio que Mindelo tem para mostrar. Todos os grandes eventos da cidade deveriam ter como cenário a zona antiga do Mindelo, mas é preciso também diversificar, o charme da cidade”, conclui, não sem antes afirmar que é preciso re-habitar a Morada e torná-la o cenário preferencial para os grandes eventos. Com isso, Mindelo torna-se “sab como antigamente”.

Actuações da noite

A primeira actuação foi de Vamar e sua banda, que diz ter ficado satisfeito com o seu espectáculo e rendido à reação do público. O jovem cabo-verdiano afirma ter sido uma honra abrir o palco. Comparou a atual abertura para este estilo musical, com a de há 20 anos, quando começou o projeto de jazz crioulo, em que não havia a adesão do público. “Tem havido mais jovens a quererem ouvir outros estilo de musica e a promover a nossa música através do jazz”, comemora Martins, que é compositor, professor , filho de músicos e já compôs para o teatro. É um guitarrista, com sonoridades jazz, blues, misturadas com batuque, coladeira e morna.

Seguiu-se Etienne Mbappé, natural dos Camarões, acompanhado pela sua banda eletrizante. Destacou-se ainda pela sua luva de seda, que considera deixar mais doce as cordas mais alegres e mais suaves. Este artista, no seu percurso já tocou com muitos nomes conhecidos, inclusive com Mayra Andrade. E, com orgulho, afirmou que o filho seguiu as suas pegadas e hoje faz parte, também, de uma banda suporte da artista cabo-verdiana. Do pouco que diz conhecer do português agradeceu o feedback do público.

Outra atuação esperada da noite  foi de Maceo Parker, que fechou o palco com sonoridades do jazz e não deixou o publico nada indiferente à sua actuação. De Carolina do Norte, acompanhado pelo seu saxofone conquistou a plateia. Esta pôde apreciar a sua actuação, onde o artista se mostrou irreverente, mesmo nos movimentos corporais.

A organização reflecte no público que encheu a pracinha do ex-Liceu Velho, para considerar que era IXª edição do MSJ está a ser um sucesso. “Está um bonito espetáculo, ao nível de ‘Soncente’ que é uma ilha muito bonita. Penso que tudo está a correr bem. Boa musica, bom ambiente, um lindo cenário, estamos a ver cumprir o nosso objetivo”. Voo, que faz parte da organização, diz que independente das dificuldades que surgem na preparação deste evento, são ultrapassadas, com pensamento sempre positivo. Hoje promete uma proposta surpresa, ja a pensar na X edição do evento.

Hoje espera-se a atuação de Ron Savage Trio  com convidada especial Farayi Malek e ainda atua o artista Jimmy DluDlu acompanhado pela sua banda.

Sidneia Newton (Estagiária)

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1 COMENTÁRIO

  1. Sim, é preciso reabilitar Morada. Reabilitar ou reconstruir os prédios devolutos e em risco de ruína, e exigir o acabamento de todos os prédios inacabados no centro de Morada e, acima de tudo, não continuar a licenciar prédios inacabados no centro da cidade. Parece que a Câmara Municipal de há muito se alheou desses pormenores.

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