Alupek – Parte II

139

Por Carlos Fortes Lopes

O crioulo de Cabo Verde é um idioma com várias versões padrão. Ou seja, é uma língua com vários centros, cada um fornecendo uma variedade local, com pelo menos algumas das suas próprias normas. As línguas pluricêntricas, como a nossa, são usadas de modo que a língua e a identidade étnica dos falantes regionais nunca conseguem coincidir em toda a sua dimensão.

A tendência em querer incutir o Alupek ao resto do país, sem consultar as populações e utilizando os poderes políticos locais da ilha onde se encontra localizada a Capital, para forçar a sua inclusão no manual escolar sem nenhuma prévia consulta popular, já ultrapassou todos os limites. A utilização do tempo de antena na RTC (empresa pública sustentada pelas contribuições de todos os cabo-verdianos, de norte a sul) é uma outra aberração para o resto do país, mais concretamente para as populações das ilhas do Barlavento. Como é óbvio, existe uma grande fragmentação dialectal entre a zona sul e a zona norte do país.

Com base nas nossas investigações no terreno, concluímos que os falantes da zona norte opõem-se a falar uma variante com tanta ausência de normas. Nem sequer se conseguiu estabelecer a forma correcta (e grafia) a ser adoptada para cada palavra e já querem forçar o Alupek ao resto do país. A ausência de normas que estabelecem os limites lexicais a serem adoptados coloca o Alupek numa situação inaceitável por pessoas com conhecimentos linguísticos, académicos ou por mera violação da cultura linguística local. No decorrer das nossa investigações, conseguimos constatar que, ao se colocar um indivíduo residente na Garça de Santo Antão frente a frente com um outro de Mangui, Tarrafal de Santiago, o entendimento linguístico entre os dois é quase nula. Isso sem se referir ao processo de escrita onde todos temos a tendência de juntar classes gramaticais opostas.

Pois, nem tão pouco os promotores do Alupek tiveram o cuidado de estudar as estruturas gramaticais a serem adoptadas pelas populações nas diferentes ilhas. Aliás, não houve investigação nenhuma no terreno para se conhecer a realidade do nosso dialeto nacional. Mas devo salientar aqui que não são apenas as diferenças dialectais, porque até numa só variante encontramos flutuações.

A divulgação do Alupek nos canais da comunicação social pública e nas escolas, sem uma consulta pública nacional, é uma violação dos direitos dos cidadãos e residentes do nosso país. Não podemos ignorar a misticidade da nossa cultura para que possamos identificar minimamente as semelhanças e as divergências. Somos um país arquipélago, com realidades distintas, que precisam ser respeitadas.

A história do nosso dialeto é difícil de traçar devido ao ostracismo a que foi relegado durante a administração portuguesa e é quase impossível para um linguístico desvendar o crioulo através de dados recolhidos apenas para a composição de uma Tese de Doutoramento. Em Cabo Verde ainda não se consegue identificar níveis dialetais da linguagem comum. Por este e outros motivos, cada falante, ao falar ou ao escrever, utiliza o seu próprio dialecto, o seu próprio sociolecto, o seu próprio idiolecto.

Para ultrapassarmos estes problemas teremos que criar equipas de estudiosos linguísticos capazes de trabalhar em todas as ilhas, com todas as populações, recolhendo as tradições culturais e as variantes linguísticas de cada zona e criar um processo de fusão das variantes num dialeto comum. Sem ter que tentar impingir um léxico ao resto das populações. Um estudo exigente e que pode demorar cerca de 50 anos a se concluir.

Esse Alupek que se criou com base nos crioulos de Sotavento, em torno da variante de Santiago, nunca será aceite pelo resto das populações nas ilhas de Barlavento e mesmo Sotavento, a não ser os Barlaventinos que, por motivos vários e ou de simples simpatia pessoal ou até partidária, resolveram desligar-se totalmente da variante da sua ilha Natal, por estar há muitos anos ao serviço da elite existente na cidade capital da Praia. Aliás, este Alupek já é uma autêntica arma de divisão nacional jamais visto em Cabo Verde. Com esta visão egocentrista o nosso dialeto crioulo nunca alcançará um patamar de consenso nacional, dificultando o prosseguimento de possíveis e necessários estudos das variantes a nível nacional.

Temos que ser capazes de estudar e investigar o processo, para que consigamos conciliar a unidade do idioma com a sua diversidade. Neste contexto, teremos que começar pelo reconhecimento de factos atuais e normas que possam ser utilizadas como novos centros difusores, de forma a se criar alguma relevância na ideia de língua pluricêntrica, a qual permite definir estratégias de colaboração e intervenção.

Fundamentos teóricos e metodológicos

A atitude linguística do falante de uma variante particular emerge da posição que este adopta face a diferentes variantes linguísticos, que, por regra, se encontram em contacto. Os estudos etnológicos defendem (cf. Anderson 1983) que os falantes percepcionam a sua língua de modo semelhante à de uma nação. Isto significa que, quanto maior for o número de laços que um povo considera existir entre os seus membros, mais forte são os seus sentimentos nacionalistas; ou seja, quanto maior for a união comunitária entre as ilhas melhor será o nível de credibilidade mútua para se compreender os objectivos linguísticos e a sua diversidade. Uma forma de tornar a língua comum menos  pluricêntrica.

Do ponto de vista sociolinguístico, o modo como os falantes das diferentes variantes linguísticas, nas ilhas, forem capazes de assimilar a variante aplicada na formação de um léxico nacional afecta o comportamento linguístico da mesma, quer no que diz respeito à preservação da estrutura quer às funções sociais que lhe são inerentes (Trudgill 2003).
Este é um formulário que desencadeará posturas positivas relacionadas com a identidade e lealdade linguísticas.

A identidade linguística é o fruto de um estabelecimento de relações entre os falantes das diversas variantes e o meio de comunicação, enquanto, no caso da lealdade linguística, na esteira de Weinreich (1953), se trata de um princípio em nome do qual um povo fundamenta a sua união, resistindo a alterações que possam afectar a estrutura do idioma e/ou da variedade linguística em uso, bem como a função por ela desempenhada. O que isto quer dizer é que tanto a identidade como a lealdade linguísticas estão na base da atitude positiva perante uma dada variante linguística, o que, por sua vez, leva, por regra, à preservação e manutenção desta variante.

Nos últimos anos, vários estudos desenvolvidos no âmbito da Sociolinguística, e sobretudo da Sociolinguística Cognitiva (Cf. Geeraerts 2003; Auer 2005; Kristiansen and Dirven 2008; Impre, Speeleman and Geeraerts 2009), defendem que o conhecimento aprofundado da identidade linguística é a chave para o sucesso de uma política e ensino de uma língua, estabelecendo ligação entre as atitudes linguísticas e a compreensão do idioma a que se reportam. Quando os falantes de diferentes variantes linguisticas se comunicam, o grau em que eles se entendem pode ser diferente.

Vários estudos, como Börestam (1987), argumentam que as atitudes linguísticas podem desempenhar um papel importante na explicação de tais relações de inteligibilidade assimétricas. Atitudes de linguagem positiva muitas vezes encorajam os ouvintes a tentar entender a variedade da língua em questão. A compreensão da linguagem falada não é, portanto, necessariamente apenas uma questão de ser capaz de compreender, mas também pode ser uma questão de disposição para entender. (Impre, Speeleman e Geeraerts 2009).

A Voz do Povo Sofredor

(Visited 351 times, 1 visits today)

3 COMENTÁRIOS

  1. Cara Elsa Furtado. Por favor não procures pôr mais paninhos quentes nessa indecência submundista que vem tomando conta do nosso país. Nesse caso, não se trata só de um caso de perspectivas diferentes. Tratata-se sim de uma reacção, uma clara confrontação contra aqueles (os promotores do (Alupec), que querem a todo o custo, impôr a realidade Santiaguense ao país. O Alupec não é suportado por um pensamento nacionalista mas sim bairrista, complexado e violento.

  2. Penso tratar de um grande erro que poderá vir a custar muito caro ao país; esta imposição esta sendo feita de foma abusiva através do Ministério da Educação. Porque os pais ou encarregados de educação de Barlavento não estão dispostos a verem os seus filhos/educandos a serem intruidos no “ALUPEK”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here