Amílcar Cabral: O Combatente anónimo

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Por Ildo Rocha Ramos Fortes
Jornalista, Universitário da Sociologia

A Universidade Nova de Lisboa (UNL), através do Instituto de História Contemporânea, acolheu de 1 a 3 de Março uma Conferência internacional Amílcar Cabral: “O Combatente Anónimo” pelos Direitos Fundamentais da Humanidade”.

Organizado pelos historiadores Victor Barros e Aurora Almada dos Santos, jovens de origem cabo-verdiana mestrandos na Universidade Nova de Lisboa, a conferência contou com a participação de várias personalidades e investigadores de Universidades de países como Brasil, Estados Unidos, França, Itália, Portugal e Cabo Verde que, ao longo de três dias, reflectiram sobre o percurso político, académico, intelectual e humanístico deste que é uma referência importante da história da África no contexto da luta de libertação da Guiné e Cabo Verde em particular e Africa em geral.

Pedro Pires, combatente da liberdade da Guiné e Cabo Verde, que fundou com Cabral o PAIGC (Partido Africano para Independência de Cabo Verde), Primeiro-ministro de Cabo Verde entre 1975 /1991, que participou na mesa redonda “Fontes e Preservação da Memória de Amílcar Cabral”, manifestou a sua satisfação por ver o interesse que este ainda suscita junto do meio académico de Portugal.

Tendo como moderador o historiador e professor da Universidade de Cabo Verde, António Correia e Silva, na presença de Basílio Ramos, antigo Presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde, e José Maria Neves, antigo Primeiro-ministro, Pedro Pires, falou das muitas dimensões de Amílcar Cabral e destacou a sua qualidade de autonomia do pensamento, curiosidade e acção. O sucesso de Cabral está precisamente na forma como encarava os desafios que tinha pela frente em que os interesses colectivos estavam sempre em primeiro lugar.

O painel em que participou o antigo Presidente da República de Cabo Verde teve uma grande participação dos jovens investigadores cabo-verdianos, que questionaram Pedro Pires, entre outras coisas, sobre o que fazer com os ideais de Cabral estudados nas Universidades de todo mundo. Pires respondeu que a história tem que ser uma paixão… “devemos estudá-la, compreende-la e poder pensar com as nossas cabeças e agir com os nossos pés”.

O antigo presidente da República de Cabo Verde 2001/2011, ano em que foi laureado com o Prémio de Boa Governação em África pela Fundação Mo Ibraim, é Presidente da Fundação Amílcar Cabral. E nessa qualidade foi convidado para falar sobre os desafios desta instituição, que tem como objectivo preservar, estudar e difundir a memória de Amílcar Cabral. Como não há futuro sem memória, Pedro Pires assume que este é o seu mais recente combate e anunciou que a Fundação Amílcar Cabral está a trabalhar numa candidatura para integrar o legado de Cabral na Memórias do Mundo da UNESCO, projecto esse Coordenado pelo investigador e linguístico Manuel Veiga.

Esta Fundação, cuja sede foi cedida pelo Governo de Cabo Verde, tem vindo a recolher um grande acervo documental da obra de Cabral, editando e reeditando um vasto espólio. Tem estabelecido parcerias com outros países que se interessam e pesquisam a vida e obra de Cabral, nomeadamente Itália. Neste momento existe na fundação um “sala-museu” com uma exposição de fotografias da autoria de uma fotógrafa italiana.

Pedro Pires referiu ainda ao papel importantíssimo de Iva Cabral, que resgatou um largo espólio documental na Guiné e entregou à Fundação Mário Soares. Em Cabo Verde encontram-se alguns documentos originais, mas a grande maioria está em Portugal.

Neste momento existem na Fundação Mário Soares 10.500 documentos digitalizados, categorizados e classificados, que as tecnologias de informação permitem consultar a partir das palavras-chave temáticas/filtros de pesquisa. Alfredo Caldeira, um dos guardiões da memória de Cabral, disse que o movimento de libertação da Guiné-Bissau atraiu muitos (bons) fotógrafos estrangeiros, pelo que o espólio é muito grande e tem muita qualidade.

A estes, juntam-se ainda grande parte do espólio original a filha, Iva Cabral, conseguiu resgatar na Guiné Bissau e que contém documentos diversos sobre a organização do partido, da luta armada, correspondência entre responsáveis políticos e militares, rascunhos, fotografias e outros elementos biográficos de Amílcar Cabral.

A Fundação Amílcar Cabral reeditou pela 1ª vez em português a obra que Mário Pinto de Andrade tinha escrito sobre a vida e trajectória política de Amílcar Cabral. Neste momento está a fazer a recolha de textos inéditos e/ou pouco divulgados, a fim de serem compilados e editados em Junho ou Julho deste ano. Tudo isso realça o trabalho com outras Fundações e Universidades em Cabo Verde e noutros países.

Uma das grandes vocações da Fundação Amílcar Cabral é salvar a Memória. O interesse dos investigadores internacionais e cabo-verdianos poderá contribuir para divulgar o pensamento de Cabral. Caso do investigador José Neves da (UNL) que, em parceria com outros cientistas sociais, desenvolve um projecto que pretende desconstruir o mito que inevitavelmente se constitui à volta de Cabral e analisar quais as variantes que contribuíram para o seu trajecto e desempenho como líder político. Essa representação biográfica de Cabral foi, como referiu José Neves, promovida por Patrick Chabal, que tem um peso significativo nos estudos cabralianos.

No que concerne ao conceito de “povo” no discurso de Cabral emergem as diferenças analíticas entre Chabal que afirma que essas ideias não emergem de ideologias ou modelos estrangeiros, mas sim na sua própria história e de Mário Pinto de Andrade, que defende que derivaram das concepções ideológicas de um marxismo eurocêntrico.

No discurso de Cabral é visível uma vontade reformadora que apela à responsabilidade humana da ciência ao serviço duma economia que servisse para melhorar as condições de vida do “povo”; “povo” este que se destaca em vários universos semânticos da época, sofrendo uma evolução histórica e política no quadro das várias lutas anticoloniais do pós-guerra. Este refere ainda a importância de preservação e da disponibilização dos arquivos documentais para o exercício de preservação da memória. Foi com esse propósito que se criou a Fundação Casa Comum, projecto que visa conservar documentos e outros acervos informativos, como elementos identitários da memória e da história singular e colectiva dos povos.

De referir que, nesta conferência, alguns historiadores de origem cabo-verdiana apresentaram trabalhos científicos sobre Cabral em várias dimensões. Ângela Coutinho, da UNL que integrou a comissão científica, Redy Lima, Davidson Gomes, Paulino Oliveira Canto são exemplos de investigadores que tem debruçado sobre vários fenómenos sociais e humanas em Cabo Verde.

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