Ansiedade: reflexo de uma sociedade “fast-food”

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Por Arlindo Rocha

É preciso conhecer-se a si mesmo. Ainda que isso não sirva para encontrar a verdade, pelo menos servirá para regrar a própria vida, e nada há de mais justo. [PASCAL]

Na nossa atual sociedade, onde tudo é processado e customizado a ponto de a chamarmos de ‘Sociedade Fast-Food’, alteramos perigosamente o ritmo da construção do pensamento. A popularização das novas tecnologias e o uso exacerbado das redes sociais, fez com que ficássemos dependentes das mesmas, e, uma referência direta ao desenvolvimento de atitudes e comportamentos que manifestam ansiedade nas diversas faixas etárias, mais especialmente em crianças e adolescentes.

A realidade do boom tecnológico, que ampliou o abismo social, produziu por extensão uma rápida e generalizada gama de novos padrões de comportamento. O mesmo “fenómeno” que nos libertou criou várias “prisões” sem muros. Entre as mais óbvias temos: o medo, o ódio, a dependência, a ansiedade, a depressão […]. Seremos em poucos anos uma espécie de ‘robôs/teletubbies’ que pouco honram a arte de pensar, apenas reproduzem padrões  da moda, pois, o “conhece-te a ti mesmo” socrático e o “Penso, logo existo” cartesiano, há muito perderam seu significado real. Não somos mais equipados educacionalmente, socialmente e culturalmente para atuarmos como atores e construtores da nossa aprendizagem ao modo piagetiano.

O psicanalista, professor e escritor brasileiro Augusto Cury (1958), inaugura o primeiro capítulo da sua obra Ansiedade: como enfrentar o mal do século (2014), com a seguinte questão: “Qual é o mal do século?” Muitos não hesitariam em responder que seria o racismo, a intolerância, a violência, as drogas, a depressão […]. Porém, segundo esse autor é a SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado), que atinge mais de 80% dos indivíduos de todas as idades, de alunos a professores, de intelectuais a iletrados, de médicos a pacientes. É difícil acreditar que atingimos o apogeu da psicologia, da psicopedagogia e da psiquiatria, mas, nunca estivemos tão insatisfeitos e doentes!

Entretanto, é preciso ter muito cuidado com determinados diagnósticos apressados e sem respaldo científico e profissional competente. Cury, alerta que existem muitas confusões no que tange a diagnósticos errados de psicólogos, psicopedagogos, psiquiatras e, especialmente de professores, que ao observarem crianças e adolescentes agitados, inquietos, com dificuldade de concentração e rebeldes nas normas sociais, atribuem-lhes o diagnóstico do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), quando na verdade a grande maioria são vítimas da Síndrome do Pensamento Acelerado. Essa síndrome produz sintomas semelhantes aos da hiperatividade, porém, suas causas são diferentes.

Na hiperatividade segundo o psiquiatra, há um fundo genético, enquanto que o SPA a inquietação é construída pouco a pouco, ao longo dos anos. Entre as causas nas crianças e adolescentes está o excesso de estímulos, de brinquedos, de atividades, de informação. Atualmente a educação assenta-se sobre ‘quatro pilares do excesso’: o excesso de coisas, de opções, de informações e de rapidez, sendo que o último em nosso entender é o que mais favorece o desenvolvimento da SPA. Nesses casos é possível corrigir ou ‘desacelerar’ inicialmente a criança ou o adolescente através do desenvolvimento de atividades lúdicas, como forma de proteger o equilíbrio mental e emocional dos mesmos através de alternativas como: ouvir música tranquila, tocar instrumentos, praticar desporto, reduzir a quantidade de informações, fazer teatro ou simplesmente deixar-lhes livre para criar/brincar com os amigos. A melhor forma de protegê-los é dizer ‘não’ às diretrizes consumistas impostas pela sociedade, ou seja, saber frustrá-los em sua justa medida.

Os professores são o alicerce de uma sociedade formando crianças, adolescentes e jovens da pré-escola à pós- graduação a conhecer milhões de dados sobre o mundo, mas quase nada sobre o mundo que somos. A sociedade reconhece ‘falhas’ no sistema educacional, mas, elas não são do sistema apenas, e sim de todos, ou melhor, do ato de delegar a educação dos filhos apenas à escola e acharmos que assim eles estarão preparando para o mundo, quando na verdade estamos colaborando para formar pessoas doentes, dependentes de likes em  uma sociedade estressante.

A educação formal raramente auxilia os alunos a desenvolverem as ferramentas básicas para aprenderem desde a mais tenra idade a filtrar os estímulos estressantes, proteger a emoção, gerenciar seus pensamentos, pensar antes de agir, ser resilientes e, desse modo preparar o ‘eu’ gestor psíquico para lidar com a SPA. Nesse sentido, é comum afirmarmos que estamos na era do conhecimento, da democratização de informações, mas nunca produzimos tantos repetidores de informações, em vez de pensadores.

Especialistas dizem que a Síndrome do Pensamento Acelerado não é uma doença, mas sim um sintoma vinculado a um quadro de transtorno de ansiedade. As pessoas mais vulneráveis geralmente são aquelas que são avaliadas constantemente por conta das suas obrigações profissionais, não podendo desligar um minuto sequer, caso contrário o trabalho é comprometido. As possíveis causas nos adultos são, além da ansiedade devido à pressão profissional, o excesso de informações às quais somos submetidos durante o dia, condição considerada normal nos dias de hoje. Sejam quais forem às causas, não podemos esquecer que fomos feitos para pensar e nele reside toda a nossa dignidade, como afirma Blaise Pascal.    

Sugestão de leitura

CURY, Augusto Jorge. Ansiedade: como enfrentar o mal do século. – 1ª. ed. – São Paulo: Saraiva 2014.

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1 COMENTÁRIO

  1. O Mestre Augusto Cury, vem revolucionando o sistema educativo, a condição psicossocial dos jovens estudante, bem assim, dos professores, pais e encarregados de educação, e da sociedade no seu todo, dando assim um contributo inestimável a humanidade, pelo menos em seu pensamento.
    Mas, estão nas mãos dos professores os primeiros dinamizadores e impulsionadores para uma luta árdua de sacudir com o status-quo do sistema educativo, em colaboração com os pais e encarregados de educação, a promoverem junto dos governos e de forma gradativa, a flexibilização e personalização do sistema de ensino, voltado para, essencialmente a vertente FELICIDADE e o SABER FAZER, ou seja, um sistema que se adapte a cada aluno, sem ter em conta o espaço-tempo ou um conteúdo fechado. Se a educação é o pilar do desenvolvimento humano e sistémico, o próprio “sistema global” encarregou de o transformar nos mais empecilhos e impactantes instrumentos de escravização, com impactos diretos na miséria das pessoas e do seu meio envolvente, porque? Porque constrói um “túnel iluminado de utopias” e de mentiras, “lixos”*, ou seja, ensinamentos irrisórios e superficiais ou banais (salvo alguma exceção) incutidos “à força” (por pressão do sistema), que poderiam muito bem serem aprendidos ou apreendidos na rua, na vida social e nas vivencias, ou mesmo deixados ao interesse de cada um a sua absorção fora do sistema de ensino. Assim, sobraria tempo para o focar na construção do próprio SER e no ensinamento do SABER FAZER num curto espaço de tempo, com custos irrisórios, trabalhando a felicidade em toda a sua latitude, preparando o ser e o próprio espírito (que continua sendo marginalizado por ignorância ou por interesse do sistema), apesar deste ser o motor, ou melhor, a própria VIDA. Assim, um ser humano não teria necessidade de utilizar um terço ou meia vida estudando “asneiras”* para conseguir ganhar uns tostões para utilizar na sua sobrevivência angustiada enquanto ativo, e quando entrar na sua derradeira fase da vida, vier pensar que AGORA QUER VIVER – QUER RESGATAR O SEU SER PERDIDO, porque, apesar de ter acumulado diplomas, percebeu-se que encontra-se ignorante, e mais angustiante ainda é constatar que, no final das contas continua “materialmente pobre” tal como iniciou a carreira – pois, o sistema nos enganou e continua nos enganando. PENA!!
    *é só avaliar qual o conhecimento apreendido durante o teu percurso académico que é colocado na prática da sua vida profissional, versus, do pouco que você coloca na prática se teria necessidade de gastar uma meia vida, estudando para tal.

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