As verdades sobre o “Alupek”

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Por Carlos Fortes Lopes

Do Cingalês ao Tamil, línguas oficiais da SriLanka, o cingalês (em cingalês, sinhala), é a língua falada pelo grupo étnico majoritário do Sri Lanka (antigo Ceilão). O Cingalês pertence ao ramo das línguas indo-arianas e tem relação com o divehi, falado nas ilhas Maldivas. O cingalês é falado pelo grupo de burghersportugueses que constituem um grupo étnico do SriLanka, de ascendência portuguesa e cingalesa. São católicos e falam a língua indo-portuguesa do SriLanka, um crioulo baseado no português.

Tenho vindo a tentar ignorar os promotores do Alupek, mas cheguei a um ponto em que sinto existir uma necessidade premente de confrontar essa gente com dados concretos sobre esta falácia do Alupek. Esta tentativa desenfreada de impor o Alupek ao resto do país já me levou até um ponto de saturação e decidi escrever este texto que espero espelhe a minha impugnação total e a de uma boa parte das populações nas ilhas, especialmente nas ilhas do Barlavento. Nesta base alertamos para o facto das anomalias fonéticas do Alupek, em relação aos variantes do Barlavento serem abominais e contraproducentes para uma sociedade que se quer unida.

As circunstâncias em que o Alupek foi introduzido, experimentalmente, nas escolas nacionais é preocupante e alarmante. Pois, a ideologia de exclusão social da maioria das ilhas, e a total dominação política de um pequeno grupo na Capital, demonstram o quanto Cabo Verde está sendo dividido pelos políticos na Capital.
Com essa introdução forçada do Alupek estamos perante uma tentativa criminosa de imposição arbitrária de um léxico criado sem base científica e à base de uma simples adaptação do crioulo falado na Ásia. Uma tentativa arbitrária de se impor um léxico semelhante ao da ilha de Santiago às restantes ilhas do arquipélago.
Uma forma indirecta de afastar as crianças das outras ilhas das suas raízes linguísticas.

O valor cultural e linguístico das populações não pode ser posto em jogo desta forma. As restantes populações não podem e nem devem aceitar que este léxico do Alupek faça casa na nossa sociedade, da forma como está sendo introduzida.
As populações das restantes oito ilhas têm que continuar repudiando esta decisão arbitrária do Ministério da Educação.
Decidir-se introduzir um léxico sem base científica no curriculum escolar, sem aprovação da maioria é inconstitucional e contraprodutivo. O Ministério não só está desrespeitando os pais e encarregados da educação das crianças do nosso país, como está violando os direitos constitucionais das mesmas. Basta visitarmos os artigos 74, 77 e 78 da Constituição da República para nos depararmos perante uma série de violações constitucionais.

A decisão de se lecionar o Alupek nas escolas nacionais foi uma amostra clara da arbitrariedade política de alguns. E mesmo depois de se ter concluído que a utilização desse léxico nas escolas causa transtornos no desenvolvimento linguístico e intelectual das crianças e jovens estudantes, ainda continuam insistindo com esta inconstitucionalidade (ver as dificuldades de adaptação dos alunos bolseiros em Portugal e Brasil).

Esta suposta nova fonética da língua cabo-verdiana, Alupek, não foi resultado de nenhum trabalho nacional de recolhas científicas, mas sim plágio dos idiomas usados no Srilanka, Goa e Damão. Se debruçarmos sobre esta Fonética Articulatória do Alupek verificaremos que o mesmo não contém uma ramificação da fonética das variantes faladas em todas as ilhas do arquipélago.

Quanto à Fonética Acústica também verificamos que, sem a inclusão da Fonética Acústica existente nas variantes de todas as ilhas, o Alupek passa a ser uma pretensão vazia e sem argumentos linguísticos. Pois, como todos podemos verificar, os sons da fala, usando o Alupek, ou seja, os seus aspectos físicos e referentes à amplitude, a duração, a frequência fundamental e o espectro da onda sonora são contraditórios aos princípios da amplitude e ou duração de frequência fundamental nas variantes das ilhas do Barlavento.

Talvez alguns cabo-verdianos ainda não conseguiram identificar os efeitos nefastos desse Alupek para entenderem melhor esta tentativa de violação dos direitos sociais, linguísticos, económicos e políticos em andamento na sociedade, com o apoio da manipulada gestão da RTC. A Rádio e Televisão de Cabo Verde (RTC), ao participar nesta tentativa de imposição de algo criado sem estudos científicos, e carente de um consenso nacional, está por sua vez a violar os direitos constitucionais dos cidadãos contribuintes. Uma demonstração clara de impotência e ou incompetência gestora de tempo de antena. Os nossos direitos à História, à Língua, à Cultura e à nossa Identidade estão sendo severamente violados com a imposição do Alupek às populações das ilhas.

As decisões arbitrárias do Ministério da Educação em colaborar com este pequeno grupo de impostores para se tentar impor o Alupek aos professores e indefesos alunos nos ensinos primários de Cabo Verde são de tamanha barbaridade que nem existe definição que não seja crime linguístico. Será que apenas eu tenho coragem de repugnar esta aberração? Os cabo-verdianos estão sendo violados no seu quotidiano vivencial e material todos os dias e ninguém parece prestar atenção à confusão que estão a alimentar na cabeça de muitos. Ao tentar forçar o Alupek aos restantes cabo-verdianos nas ilhas, que nem sequer falam a variante de Santiago, é uma vívida tentativa de violar os direitos culturais e identitários do Povo de Cabo Verde.

As populações nas restantes ilhas do arquipélago não querem ser vítimas de um grupinho de plagiadores de estilos de escrita do Srilanka, Damao e Goa. Esse acto de plágio da holografia asiática não pode fazer casa na nossa sociedade. Já basta de invenções vazias de historietas sobre a real formatação do Alupek nos nossos meios públicos de comunicação. Será que este pequeno grupo de impostores pensa que somos tão ignorantes assim? Não é, não estamos dispostos a aceitar tudo que esses impostores decidem e ou lhes apetecer dizer pelos lados da Capital. Não aceitaremos que esse grupinho denigra e ou ofenda a cultura linguística das famílias residentes cabo-verdianas. Isso é tentativa de violação a nossa identidade linguística.

Somos todos frutos de uma rica História e a nossa Cultura não nos ditou nem nunca nos ditará esse léxico Alupek. Ao permitirmos que seja um pequeno grupo da elite na Capital a definir e a decidir as nossas vontades e pretensões sócioculturais e linguísticos estamos a participar da mesma incúria. Precisamos mobilizar-nos no nosso Cabo Verde para defender a nossa Identidade, a nossa História e a nossa Cultura. E quem sabe precisamos igualmente de alguém que nos represente, sem necessidade de uma procuração reconhecida em notário público.
Do Cingalês ao Tamil, línguas oficiais da Srilanka, o tâmil ou tâmul é uma língua dravídica falada no Sul da Índia (oficial no Estado de Tâmil Nadu), Sri Lanka, Mianmar (ex-Birmânia), Malásia, Indonésia, Vietname, Singapura e ainda em zonas do sul e LESTE DA ÁFRICA, pelo povo tâmil.
Durante as minhas investigações tive o cuidado de visitar alguns estudos sobre a representação de vogais átonas e deparei que é uma prática particularmente problemática, uma vez que são frequentemente reduzidas ou deletadas no crioulo do Barlavento, mas mantidas nas variedades de Sotavento, desencadeando diferenças nas estruturas fonológicas e silábicas. Por exemplo, a supressão das vogais íntegras final-palavra / u / e / i / nas variedades de Sotavento provocou mudanças nas vogais tónicas precedentes nas variedades de Barlavento, tornando-as mais altas e mais arredondadas, como em gatu (‘gatu] , póbri [ˈpɔbri], xatiadu [ʃɐˈtjadu] vs. (CB) gót [ˈgɔt] ‘gato’, pobr [ˈpobɾ] ‘pobre’, xatiód [ʃɐˈtjɔd] ‘irritada’. Essa supressão, que é um dos traços distintivos entre as variedades de Sotavento e Barlavento resulta no que Rodrigues chama de “zero fônico” (Rodrigues 2007: 167).

Ao reduzir para fechar a vogal central como em terser [tɨɾˈseɾ] “terceiro” ou suprimir vogais sem ênfase, o crioulo do Barlavento parece seguir uma tendência geral do português europeu (PE), que no início do século XVIII começou a reduzir as vogais átonas (Teyssier 1982). Este processo também deve ter influenciado o desenvolvimento de outras variedades de Barlavento nos últimos 200 anos. Além disso, Rodrigues (2007) sugere que os dialetos sulistas do PE podem ter tido influência crucial nos sistemas vocálicos de São Vicente e Santo Antão. No entanto, essas influências, embora se encaixem bem no tempo e no cenário soci-linguístico do início das variedades, ainda não foram sistematicamente examinadas. Assim, na notação de vogais não tensas, opta-se por refletir as variações muitas vezes dos falantes. Pronúncia por ortografia fjí [ˈfʒi] ~ fují [f (u) ˈʒi] ‘fugir’ e depos [d (ɨ) ˈpoʃ] ~ txpos [ˈtʃpoʃ] ‘depois de’.

Finalmente, nem vale a pena falar da introdução do símbolo ‘mudo e’ sugerido pelos autores do ALUPEK para as variedades do Barlavento. Primeiro, obrigaria a inserir um símbolo gráfico para os sons vocálicos existente apenas na variedade Santiago; segundo, falantes nativos de Barlavento, em escrita espontânea (chats on-line e mensagens móveis), claramente não representam esses sons inexistentes em seus discursos. Por exemplo kmê ‘comer’, ftxód ‘fechar’ e oió-be) ‘vi você’.

De acordo com o ALUPEK, a nasalidade das vogais é representada pelo símbolo da vogal oral seguido por um que indica a nasalidade da vogal precedente como em bon [bõ] ‘bom’. Além disso, seguindo ALUPEK e Veiga’s (2011: 15) sugestão, o til é usado excepcionalmente para indicar a vogal nasal em palavras como irmã [irmã] ‘irmã’ e ditongos como a mãe ‘[mɐj] ou nasãu [nɐsɐw]’ nação.

Nota: Burgher é o nome pelo qual são conhecidos os descendentes de portugueses e holandeses no Sri Lanka. No Sri Lanka a classificação de Mestiços (originário da língua portuguesa) ou Casados foi aplicada para as pessoas que tinham ascendência mista de português e do Sri Lanka (Cingaleses ou Tâmeis), desde o século XVI.
A população Burgher no mundo será de 100.000 aproximadamente, concentrada sobretudo no Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

A Voz do Povo Sofredor

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10 COMENTÁRIOS

  1. Dizia Nelson Mandela que não é necessario enviar bombas para destruir um povo; basta impôr-lhe uma ma’ politica de educaçao que nada tem a ver com a sua realidade ou as suas necessidades. Nao sou contra o ensino do crioulo mas o alupec veio para matar o crioulo e semar a divisao no seio da nossa identidade. Nunca com o alfabeto etimologico, de Eugenio Tavares à B.Leza, passando pelo mestre Baltasar Lopes, poderia criar tamanha divisao no seio deste novo povo novilatino.

  2. Infelizmente esses anormais a querer incutir-nos (Barlavento), uma cultura que não identificamos minimamente, coisas que não lembram nem ao diabo!
    Meus Srs da Capital, ponham na vossa cabecinha tonta, que cabo verde tem duas realidades distintas, que tem que ser respeitadas, barlavento e sotavento, sempre houve uma coabitação normal ao longo dos tempos, mas com a tentativa de uma parte de uma das realidades se querer impor às restantes, atirado por alguns tresloucados, isso é que não aceitamos, estão a arranjar lenha para se queimarem sem saber.

  3. Para o articulista deixar as suas reflexões na construção dessa realidades, não era necessário maltratar desta forma o “alupek”. Temos necessidade de saber escrever o nosso “criolo”. Qual é a solução? O alupek não será uma tentaiva de encontrar uma solução? Isso é matéria para os especilistas e estudiosos como o meu amigo Carlos Fortes, cujos artigos leio com muita atenção e admiro a sua coragem na abordagen das mais diversas questões numa terra em que poucos querem dar a cara.

  4. Agora fiquei baralhado. Alupek é com “c” ou com “k”??
    Esta sanha contra o “C” deve-se a quê? Falta de vitamina?

  5. Caro Florentino Cardoso, obrigado por este teu excelente comentário. “Esta sanha contra o “C” deve-se a quê? Talvez seja falta da vitamina na massa cinzenta dos que ao inventarem o Alfabeto não incluíram o “C” e tentam ludibriar as pessoas com a escrita da palavra Alupek com “C” no fim, mesmo sabendo que dispensaram o “C”. Segue o Alfabeto Alupek:
    A B D E F G H I J K L M N Ñ O P R S T U V X Y Z

  6. São mesmo uma cambada de anormais os que tentam impor-nos tal política.
    Quer queiramos quer não, o Crioulo é uma variante arcaica do português e caso viéssemos a adoptar o Alupek, só nos isolaríamos ainda mais do resto do mundo.

  7. A lingua é o fundamento do Imperio (Haya de la Torre). Sem a lingua não é possivel a colonisaçao. E, agora, no nosso caso, a lingua é o fundamento do centralismo do Estado na capital de Cabo Verde. Viva a Regionalizaçao!!!

  8. Dou os meus parabéns ao senhor Carlos Fortes Lopes pelo excelente artigo que produziu. Meu caro senhor Carlos, faço parte dos poucos que ousam manifestar a sua revolta perante essa tentativa de “santiaguização” de Cabo Verde e tenho-o demonstrado algumas vezes nas publicações que faço no facebook. A imposição da variante de Santiago às outras ilhas é um acto de colonialismo, e um aviso de que as outras ilhas apenas gravitam à volta de Santiago. O centralismo vergonhoso, exacerbado e ultrajante, de tudo na capital, que se impôs com maior veemência desde a Independência até aos dias de hoje é um insulto aos demais cidadãos deste país.

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