Aurélia Soares, universitária timorense: “Mindelo é uma cidade linda, habitada por um povo festeiro”

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Durante a recente luta de libertação de Timor-Leste do jugo indonésio, Aurélia Soares presenciou a pior cena da sua vida: o assassinato violento da própria tia mesmo à sua frente. Chocada com a cena, a adolescente ficou uma semana sem poder falar, bloqueada pelo medo de ter o mesmo fim.

“Fiquei aterrorizada, foi um momento complicado para mim e toda a minha família”, recorda a jovem de 21 anos, cuja família ficou dividida literalmente ao meio, entre Timor (terra do pai) e Indonésia (berço natal da mãe). Devido a sua nacionalidade, a mãe de Aurélia Soares escapou por pouco de ser linchada pelos vizinhos timorenses. Ciente do perigo, o pai da jovem escondeu a esposa nas montanhas, à espera que o ambiente sociopolítico serenasse entre as duas nações, cujo conflito começou em 1975, ano em que a Indonésia tomou conta do território dessa ex-colónia portuguesa.

Por conta dessa situação, a mãe de Aurélia teve de fugir para Indonésia, vindo a regressar a Timor-Leste quase dois anos depois, já com a tensão social calma. “Hoje vivemos em paz, a situação é tranquila, há timorenses a viver sem problemas na Indonésia e vice-versa”, realça a jovem, que reside agora na cidade do Mindelo.

Aurélia Soares é um dos 23 universitários timorenses a estudar actualmente na ilha de S. Vicente, com base num protocolo de cooperação na área do ensino, estabelecido entre Cabo Verde e o país de Xanana Gusmão, símbolo vivo da resistência timorense. Há um ano e meio que essa jovem faz o curso de gestão em Hotelaria e Turismo na Universidade do Mindelo, uma experiência que está a ditar um novo rumo à sua vida. Além de obter conhecimentos técnicos, Aurélia está a conhecer uma realidade nova, completamente diferente do quotidiano no seu distrito em Timor. “Suas duas realidades diferentes, mas essa diferença é mais marcante a nível da cultura. A cultura mindelense é viva e dinâmica, enquanto que a nossa é mais fechada. Tive a oportunidade de ver isso no vosso Carnaval, que é muito mais intenso que o nosso. Além disso trajamos alguns tipos de roupas, enquanto que aqui o pessoal quase que desfila nu”, diz a timorense, que verificou ainda que os jovens praticamente não frequentam as missas. Já em Timor-Leste, frisa a nossa entrevistada, crianças, jovens e idosos vão religiosamente às igrejas católicas todos os Domingos.

Mesmo assim, a timorense confessa-se apaixonada pela beleza da cidade do Mindelo e a cordialidade dos mindelenses. “Mindelo é uma cidade linda, habitada por um povo festeiro”, constata Aurélia Soares, que se mostra impressionada com o estilo de vida reinante na “sua” nova urbe. “Aqui as paródias são constantes. Quase todos os dias os meus colegas têm uma festa”, comenta a moça, que já se sente enquadrada no ambiente académico, tendo já arranjado vários amigos.

Cabo Verde era um país totalmente desconhecido para a universitária timorense. Quando soube que vinha para este lado do Atlântico imaginou um país verdejante. Porém, apanhou um choque assim que aterrou no aeroporto internacional da Praia. “Quem escuta o nome do país tem a tendência de pensar que se deriva da cor do seu meio ambiente. Mas não foi isso que encontrei”, confessa a jovem, que ficou dois dias na ilha de Santiago e depois pegou o avião para S. Vicente.

Na terra do Monte Cara iniciou a sua integração social. No entanto, a principal barreira que lhe surgiu pela frente foi a língua, não o português mas sim o crioulo cabo-verdiano, o instrumento de comunicação mais usado na rua. “Confesso que fiquei um bocado desanimada porque não compreendia nada. E nem o meu português é assim tão bom”, salienta. Aos poucos, Aurélia Soares começou a ver que, afinal, a variante de S. Vicente utiliza várias expressões portuguesas de uma forma muito clara. Feita essa descoberta, passou a ser mais fácil para ela compreender algumas frases. “Se falarem comigo consigo perceber algumas coisas, mas ainda não me sinto capaz de expressar-me em crioulo. A primeira coisa que aprendi a dizer foi ‘manera, tude drete?”, revela a estudante, que é uma das 43 timorenses residentes em Cabo Verde, mais precisamente em Santiago e S. Vicente.

Desse grupo, diz Aurélia, 23 escolheram S. Vicente para viver. “Quando cheguei éramos apenas doze, depois vieram onze da Praia porque acham que há mais segurança na cidade do Mindelo”, conta a moça, que já vai no segundo ano do curso superior e se mostra satisfeita com o nível da formação ministrada na sua universidade. Daqui a três anos espera terminar a licenciatura e regressar a Timor-Leste preparada para trabalhar e ajudar no desenvolvimento da hotelaria e turismo, sector que, como diz, mostra-se bastante promissor nessa ex-colónia de Portugal na Ásia.

Kim-Zé Brito

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