Benfica? Não, obrigado! Sou feliz, sou Mindelense

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Para início de conversa: parabéns aos campeões portugueses. Em momento de festa dos Benfiquistas, escorrendo na dita paixão que roça o fanatismo exacerbado, com muito histerismo à mistura, vejo o meu Mindelo mostrar o mal, ou bem – dependendo das perspectivas – em que está submetido. Fico contente por ver tanta gente feliz, sendo que muitos deles são familiares, amigos e companheiros desta jornada da vida e merecem toda a felicidade do mundo, inclusive esta desportiva. Torço sempre pela vossa felicidade companheiros. E se isto vos faz feliz, desta forma, que sejam! Mas não me peçam para compactuar com o fanatismo, a irracionalidade e os que por serem, dizem, “desde mnin” e “tel na sangue”, se acham mais adeptos ou melhores que os outros que não leem pela mesma cartilha, nem do clube preferido e nem na forma de afeição ou demonstração.

Adoro futebol, e creio que não é segredo que, em Portugal, felizmente, o que dou graças, não sou benfiquista. Legitimo e respeito também os que têm o sentimento contrário. Felizmente também que o futebol português não é das minhas causas principais, que se resumem a três e muito bem vincadas: a família, São Vicente/Cabo Verde e o meu trabalho. O resto é secundário, contudo não deixo, naturalmente, de defender as minhas opiniões, quando necessário, sobre outros assuntos, futebol português inclusive. Como não faze-lo?

Nestas ilhas, no futebol, o português é a nossa luz e referência desde que nascemos, adveniente da nossa ligação colonial. Em Cabo Verde, quase que forçosamente, cada um tem uma preferência clubite portuguesa, e, coincidentemente, segue o exemplo da ex-metrópole, onde são, na sua maioria, benfiquistas. Eu, felizmente, quando aprendi a fazer escolhas e a pensar pela minha cabeça, nunca fui de seguir manadas e muito menos de aceitar o que querem impor como verdade absoluta. A minha preferência, mais racional que emocional, permite-me, com os meus defeitos, o distanciamento para relativizar as vitórias, as derrotas, ver os seus meandros e as causas com mais razão do que paixão, mesmo sobre a minha preferência. Por isso sou feliz. Espero que a idade continue a lapidar esta particularidade.

Outra grande felicidade minha hoje é ver que a televisão e os meios de comunicação têm possibilitado ver outro futebol internacional… Um futebol que me agrada e que declaro profundo admirador: a Premier League. Esta sim me faz gostar ainda mais do desporto, pela intensidade das disputas, pela competitividade, por ver que o jogo é simplesmente o jogo e nada mais que isso; por ser jogo no campo e não fora dele, por razões extra futebol não condicionarem os seus actores, enfim, um manancial de boas qualidades do desporto que recomendo e que, infelizmente, não tenho visto no futebol português onde a guerrilha e a paixão dos adeptos já fazem coisas desproporcionais ao desporto, lá e cá. Pelas características, a Premier League é a única onde o Leicester podia ser campeão. Em Portugal, neste tempo, nem o Braga pode sonhar quanto mais o Tondela. As forças superiores não permitem.

Por estes dias, dizem, o Benfica é o maior. De facto, após o tetra campeonato é, ultimamente, o maior. Compreendo a euforia de muitos, sobretudo os da minha geração que viveram e ainda vivem com o Porto atravessado na garganta, não só pela quantidade de campeonatos ganhos – nem falo dos dois tetras e do penta, como também da Champions, da Liga Europa, da Taça UEFA, da intercontinental… E de pequenos grandes pormenores: os cinco secos, festejo de campeão no apagão da luz com “mangueirada” e ainda, claro, o célebre 92 do Kelvin, que fez ajoelhar Jesus perante o Papa.

É normal esta euforia, é também, de certa forma, compreensível este histerismo. É a primeira vez do Benfica. Conseguiram algo inédito. Espero que aproveitem e continuem felizes, como certamente os portistas são, mesmo que os últimos anos não tenham corrido de feição. Igualmente hoje vejo e ouço os Benfiquistas decretarem “os maiores” à custa da sua excelente academia de formação como sendo a melhor do Mundo. Claro que tem dado bons frutos, porém ainda longe da do Sporting que fez a base do Campeão Europeu 2016 e detém a escola dos maiores referências do futebol português formados em Portugal: Figo e CR7. Mas, o Benfica é o maior porque assim decretaram…

É bonito e confesso que fico contente em ver multidões juntas, cheias de energia, com objectivos únicos, como acontece nos festejos do Benfica. Nisto deveras são maiores, adveniente da forma passional como vivem o clube e da descarga de frustração acumulada, sobretudo, nas ultimas três décadas. Creio que os outros, não por serem em menor número, mas pela racionalidade associada à paixão, conseguem festejar e sentirem-se felizes sem a necessidade de histerismo e de demonstração de pretensa superioridade, por lerem por uma cartilha diferente. Bem, mas se estão e são felizes assim… que assim continuem! Eu quero é que os meus familiares e amigos sejam sempre felizes, com ou sem o Benfica campeão.

Dizia que fazem um grande espetáculo de massas com muita cor, vermelha, muita energia, muita paixão, muita alegria, muita vontade, muito álcool… Exceptuando o álcool, gostaria de ver toda esta muita intensidade aplicada às causas do dia seguinte, ou do dia-a-dia. Aquelas que interferem com a vida comum de todos nós: a zona, a ilha, a saúde, a educação, a família, o emprego, a segurança, a marginalização de São Vicente, o empoderamento do Centro, etc. Dar-me-ia imenso gozo ver o pessoal de São Vicente a lutar pela ilha como “lutam” pelo Benfica.

Dar-me-ia imenso gozo ver a sociedade mindelense reunida à volta de direitos que lhes têm sido usurpados recorrentemente. Dar-me-ia imenso gozo ver a vida de São Vicente reactivada pelos mindelenses. Mas esta é mais uma utopia minha. Neste momento só o Benfica interessa e só assim são felizes… Que pretensão a minha? Que o Deus Benfica lhes garanta, além da felicidade conjuntural, o emprego, a segurança, a pertença e a valorização no arquipélago, as oportunidades e a saúde. Triste sina, mas continuamos nisto… As trivialidades, a banalidade e a futilidade interessam mais para a felicidade que assuntos sérios. Viva a alienação!

De tetra, e sem treta, eu prefiro o do Mindelense. Sou feliz por isso! Quero ser penta neste nacional por São Vicente, seja pelo meu Mindelense ou pelo Derby. Derby que por acaso jogava à mesma hora do Benfica e perdeu, em São Vicente, com o Sporting da Praia. Afortunadamente, o Mindelense cumpriu a sua parte e iniciou o caminho do Penta com uma vitória em Santo Anão, ante um clube que enverga, coincidentemente, um símbolo da águia idêntica a do Benfica.

Adoro ver o Mindelense campeão nacional por tudo o que representa. O tetra do Mindelense diz-me muito não só pela vertente desportiva, mas pela “pedrada no charco” ao centralismo e resiliência sanvicentina que tem representado. No futebol temos feito com que o centralismo nos engula a seco e espero que assim continue; no futebol e nas outras modalidades desportivas suportadas pelo Pavilhão Oeiras nas condições em que se encontra… Mas isto não se festeja e nem se manifesta em São Vicente.

O Benfica é tetra, se da treta ou não, no colinho ou nos tentáculos do polvo, com ou sem fantasma do Salazar, não interessa. Tudo limpinho-limpinho, até o milagre de Fátima que fez com que fossem marcados dois penaltys a favor do Porto este fim-de-semana. Peço que não moderem na felicidade, sejam sempre felizes! Sempre. Moderem sim no histerismo, nas provocações e no álcool. Relativizem as coisas e saibam valorizar o essencial da vida e das nossas vidas em sociedade. Aguardo, com moderação, os comentários que esse texto suscitará, sobretudo dos mais apaixonados, para não dizer fanáticos. Desejo a felicidade de todos nós.

Para finalizar: O Benfica foi campeão, tetra campeão, corrigir-me-á um amigo, e eu responderei: E daí? Não sou Benfica e eu sou feliz! Que a nossa amizade se mantenha sempre. É o que me interessa.

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