Bigui, uma promessa do Rap

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Camilo Júnior “Bigui”, pertencente ao grupo D.B. One Boyz, é sem dúvida uma das promessas do Rap sãovicentino. Rapper voltado para os aspectos sociais e baseados em vivências pessoais e coletivas, tenta exercer um papel interventivo na sociedade cabo-verdiana. Cronista musical, aborda nas suas composições, além dos problemas da sociedade, tudo aquilo que vive, observa e sente, de forma criativa. Diz que o Rap nacional está no seu auge e que já conseguiu a aceitação de grande parte da sociedade. O seu sonho é mudar o máximo de vidas possíveis com as suas músicas.

Por Cleudir Rocha*

Quem é “Bigui”?

“Bigui” é um jovem sãovicentino, formado em informática de gestão, que tenta exercer um papel interventivo na sociedade cabo-verdiana e mindelense em particular, fazendo uso da música para o alcance desse objectivo.

Porquê escolheu o nome artístico “Bigui”?

É um nickname herdado das peripécias da minha infância. O seu registo surgiu de um episódio interessante. Ocorreu num dia em que eu discuti com um colega. Num determinado momento quis dizer-lhe que eu era “forte” e usei a expressão “bigui”. Desde então passei a ser chamado de Bigui na minha zona. E por ser mais conhecido por “Bigui”, resolvi adoptá-lo como meu nome artístico.

Como surgiu o seu interesse pela música?

O interesse pela música vem desde criança. Cresci ouvindo muita música. Como se diz por aí, o povo cabo-verdiano já nasce com veia artística. Na minha casa sempre ouvia os grandes clássicos da morna, mas também do rap. Eu vejo a música com um papel determinante na educação das pessoas.

Porquê o Rap?

Acompanho o Rap tanto nacional como internacional desde 2000 mais ou menos, por influência dos meus irmãos mais velhos, que sempre ouviam Rap. Já ouvi rappers como o 2Pac, BIG, Boss AC, DMX, Valete, San The Kid, 50 Cent, Ice Company e muitos outros. Com o passar do tempo comecei a entender as letras das músicas destes rappers, que procuravam dar a conhecer os problemas enfrentados, tentavam motivar pessoas, até mesmo vestindo a pele de revolucionários. Entendi que era mesmo isto que a sociedade necessitava, daí o interesse pelo Rap cresceu.

“O povo cabo-verdiano já nasce com veia artística”

Quando eras criança imaginavas ser cantor?

Sinceramente, nunca me imaginei como cantor…

Quais foram as maiores influências que teve no início da carreira?

Como referi antes, tenho influências de rappers tanto nacionais como internacionais, sendo que os anteriores surgiram numa fase inicial. Recentemente oiço bastante Kendrick Lamar, Batchart, Mark Delman, JCole, Inquerito, MCBill, Emicida, Rashid, Indzays, DNA, Jo Mohamend, Azagaia, de entre outros.

Quando subiu ao palco pela primeira vez? Qual foi a sensação?

A minha primeira aparição em palco foi em 2013. Ainda não tinha lançado nenhuma música. Foi uma sensação ótima por actuar numa atividade realizada na minha escola, a Escola Industrial e Comercial do Mindelo. Fomos muito bem acolhidos pelo público, embora sentisse aquele frio na barriga e uma certa timidez.

Sentes sempre apoio e carinho do público quando sobes a um palco?

Todas as vezes que subo a um palco sinto uma energia positiva com o público. Por isso, quando desço vem aquela satisfação pelo feedback do público. É claro que nem sempre a minha actuação tem a mesma repercussão.

Como funciona o processo de composição das tuas músicas? Onde vai buscar inspiração para as tuas letras?

Bom, todas as músicas que canto são da minha autoria, eu é que escrevo as letras. A inspiração vem do dia-a-dia, daquilo que vivo, observo e sinto, e sempre que vejo algo que me chama atenção. Tento abordar tudo isso nas minhas músicas de forma criativa, de forma a transmitir o que sinto a respeito, apresentando as minhas ideias. O objectivo é que quem vai ouvir se sinta tocado e identificado com o que foi retratado.

“Vejo a música com um papel determinante na educação das pessoas”

O seu primeiro EP “Ka txa só na papel” está a ser bem aceite pela sociedade? Qual a sua música favorita?

Para meu espanto, o meu primeiro trabalho musical a solo foi muito bem recebido. Superou as minhas espectativas. Recebi muitas mensagens de apoio de rappers e de apreciadores do Rap. Pelo que tenho observado e pelas mensagens recebidas, as músicas que as pessoas mais gostam são KTSNP, que é a primeira e dá o nome ao EP, e também Monotonia, que tem a participação de um dos maiores nomes do rap Crioulo, o Indzays. A música “Vazio” é no entanto a que mais elogio teve, inclusive fiz um clip do mesmo.

Fale-me um pouco do tempo de trabalho que dedicaste a este EP?

Digamos que este EP está pronto desde 2015, mas só agora, em 2018, é que resolvi gravar e fazer o lançamento do mesmo nas plataformas digitais. Isso por muitos motivos, sendo o mais gritante a falta de dinheiro para gravar as músicas. De realçar que duas músicas do EP foram escritas em 2017 – “Vazio” e “Consternação”. A parte da gravação durou mais ou menos dois meses.

Como vês o Hip Hop neste momento?

– Acho que o Rap nacional está no seu auge, com grandes rappers, estamos a conseguir alcançar muito público. Digamos que já temos a aceitação de grande parte da sociedade, não só na camada juvenil. Mas ainda há muito por melhorar, pelo facto de haver ainda rappers que têm uma abordagem pouco ortodoxa nas suas músicas.

“Os meus pais são hoje os meus principais seguidores”

Quais são os teus sonhos como artista?

Tenho muitos sonhos, mas o principal deles já foi alcançado, que era conseguir fazer os meus pais aceitarem as minhas músicas. Antes eles não viam o Rap com bons olhos, mas hoje posso dizer que são os meus principais seguidores. Outro sonho é o de conseguir mudar o máximo de vidas que puder, já que eu vejo a música com um papel determinante na educação das pessoas.

Para além de cantar, o que faz?

Neste momento estou na fase de preparação e defesa do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), mas também trabalho. Nos tempos livres pratico futebol.

A música para ti é um hobbie ou pretendes seguir esta carreira?

Pergunta difícil. Prefiro dizer que sinto necessidade de cantar porque a sociedade precisa de se esclarecer em alguns aspectos. Vejo-me no RAP como uma obrigação/dever.

Qual é a mensagem que deixa aos jovens cantores que estão a iniciar a carreira?

– O que lhes posso dizer é para terem cuidado porque as palavras têm muita força, portanto é preciso cuidado na utilização das mesmas. E também desejo-lhes força e muitos sucessos.

*Aluno do 2º ano do Curso de Ciências de Comunicação da Univ. Lusófona

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