Bispo Dom Ildo: “A Igreja respeita, mas nunca vai permitir o casamento homossexual porque é um amor que não gera vida”

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No início de mais um ano pastoral e a um mês do 12o aniversário de assinatura da bula papal que criou a Diocese do Mindelo, o Bispo Dom Ildo Fortes, concedeu uma entrevista sem filtros ao Mindelinsite. O prelado fala-nos da Carta Pastoral, que define as linhas de acção para este ano e que causou algum burburinho por causa das suas posições que, segundo Dom Ildo, foram mal interpretados. Explica a escolha do lema “A Família é um tesouro da humanidade”, numa altura que esta passa por uma crise tremenda. Fala com tranquilidade do relaxamento da posição da igreja em alguns aspectos, nomeadamente em relação à mulher profissional, às mães-solteiras, à comunhão dos recasados e ao baptismo de filhos de pais separados, de entre muitos outros. O casamento homossexual é outro tema que não podia ficar de fora desta conversa. Sobre esta questão Dom Ildo garante que a igreja respeita, mas nunca vai aceitar o casamento homossexual porque não concebe este tipo de amor que não gera vida.

– Por Constânça de Pina –

– Está a iniciar agora um novo Ano Pastoral, gostaríamos de saber quais são os alicerces deste ano para os Católicos Cabo-verdianos, e desta Diocese do Mindelo em particular?

Tornamos pública recentemente a nossa Carta Pastoral, que dá o mote e define as linhas de acção para este Ano Pastoral. Quero deixar claro que a Igreja não muda o seu programa todos os anos. Ou, dito de uma outra forma, o programa essencial da igreja é o mesmo há mais de dois mil anos. O fundamental de qualquer Igreja no mundo é anunciar o Evangelho, viver a liturgia (oração e culto) e amar. É amar tanto para dentro, ou seja, os seus membros devem viver em comunhão, mas também o amor que assume a forma social através da caridade. Os quatro pilares na vida da Igreja são eternos: Evangelizar, viver a Liturgia, viver em comunidade e praticar a caridade, particularmente para com os mais pobres.  Mas como estamos num tempo e num espaço procuramos um lema que nos ajude a orientar. Por isso é que o lema da Diocese Mindelo, não é igual ao de Santiago ou Dacar. Este ano escolhemos um lema bem pertinente que é a família. O nosso programa tem três anos e, durante este período, vai se centrar na Família, Juventude e Educação para os valores.

– Porquê da escolha do tema “Família”?

Normalmente escolhemos temas que estão na ordem do dia. Mas há aqui uma razão que nos levou a esta escolha. Por um lado, a igreja viveu dois acontecimentos enormes nos últimos anos, que foram dois Sínodos sobre a Família, extraordinário e outro programado. Sínodos são reuniões de Bispos de todo mundo para discutir um tema em concreto. É uma espécie de Concílio, mas em ponto mais pequeno. Aliás, está a acontecer agora o Sínodo sobre a Juventude, que conta com a participação do Cardeal Dom Arlindo.

Então, destes dois Sínodos sobre a Família, o Papa Francisco fez sair um documento importante chamado “Alegria do Amor”, onde toca questões nevrálgicos sobre a família, os problemas que a afecta, os divórcios, a comunhão dos recasados, etc. Achamos que, tendo a Igreja durante dois anos reflectido sobre este tema, era oportuno dedicarmos este ano à família na Diocese do Mindelo. E, como estamos já a prever o futuro, o próximo ano vai ser dedicado aos jovens. Mas está tudo ligado: família, juventude e educação.

Esta é uma das razões fortes. Mas, mesmo que não tivesse havido os Sínodos sobre a família, escolheríamos este lema. Isto porque a família está a passar por uma crise tremenda. Não é só em Cabo Verde. É transversal. No mundo inteiro, sobretudo no mundo ocidental, crescemos em muitos aspectos – economia, tecnologia, etc – mas, infelizmente, não naquilo que é fundamental, por exemplo, no amor, no respeito, no carinho e no lar. Temos cada vez mais famílias destroçadas; temos mais filhos a viver sem pais.

Tem presente que conceito de família tradicional mudou?

– Mudou bastante, o que é pena. Em Cabo Verde somos herdeiros de uma história, onde a família, mesmo que não a ideal com pai, mãe e filhos viviam juntos, se experimentava a solidariedade. Ninguém vivia isolado. Ninguém vivia na rua, mesmo que fosse pobre. Hoje temos a situação de pessoas isoladas a viverem sozinhas. Sentimos que é urgente falar da família, que é um tesouro. A família está antes da igreja e das outras instituições, como o Estado. A família é criada por Deus. Deus criou o Homem, mas criou-o em família.

Carta Pastoral

-É por isso que a Carta Pastoral gira, quase que toda ela, a volta da família?

– Evidentemente. A Carta Pastoral não caiu do céu. A Bíblia nos diz que Deus fez o homem e a mulher para se amarem, crescerem e multiplicarem. Toda a doutrina da Igreja é no sentido de que a família é um tesouro fundamental. Sem família não temos gente feliz. Mas, quando digo família estou a referir às com valores como a união, a compreensão e o amor, o diálogo. É lá que somos gente. Posso estar mal a nível profissional, por exemplo, mas se tenho uma família que me acolhe e me fortalece, estarei melhor. Hoje há uma demissão enorme das funções da família. Talvez os pais que temos hoje não receberam muito dos seus progenitores. Mas também no mundo em que hoje vivemos, as estruturas da sociedade, não são favoráveis à família. Hoje em dia as famílias vivem longe uma das outras. Há alguns que trabalham em outras ilhas…

– Mas isso tem a ver com a conjuntura económica ou profissional?

É isso que estou a dizer. Mas se colocando nos dois pratos da balança a família e a economia, qual devia pesar mais? Não é difícil dizer qual é a resposta. Para nós, a família deveria sempre pesar mais. Mas, infelizmente, neste momento o que conta mais é o dinheiro, é quanto lucro a minha empresa vai conseguir. Passamos por cima de tudo. A pessoa é deslocada do seu ambiente. Há hoje muitas pessoas que estão em determinados lugares e que só conseguem ver a família nos fins de semana. E isso quando acontece. Ou então uma vez por mês, se for possível. Com isso, o tecido da família começa a deteriorar-se. Conheço uma família, que não é daqui de Cabo Verde. Um dos cônjuges estava a progredir rapidamente dentro da empresa em que trabalhava, mas vivia mais fora do país do que em casa. Felizmente, teve a coragem de dar um muro na mesa e colocar a família em primeiro lugar. Entendeu que não poderia passar semanas sem estar com os filhos, sem acompanhar o seu crescimento. Renunciou ao ao cargo. A família é fundamental, sobretudo para o nosso equilíbrio emocional, psíquico e humano, mas também para a educação dos valores. Os valores começam a se aprender e a apreciar em família. Não é na Igreja, não é na escola ou em qualquer outra instituição. Estes ajudam. Mas o que não se recebe no berço, dificilmente vai se apreender para a vida.

– Fala-nos da essência da sua Carta Pastoral?

– A Carta Pastoral tem um título que não é inédito: “A Família é um tesouro da humanidade”. É uma expressão muito comum da igreja. O Papa João Paulo II frisou muito a importância da família. Ele escreveu um documento de leitura obrigatória que é “Familiaris Consortio”, onde faz uma leitura contemporânea da família. Já lá vão vários anos da sua publicação – foi em 1981- mas continua com uma actualidade tremenda. Nele o Papa salienta o bem que é a família e a sua prevalência às outras instituições.

Neste momento estamos a assistir o contrário. O Estado que quer controlar a família. Quer impor determinadas pedagogias, sobretudo a nível do ensino. Não está correcto. A família é que deve se impor às instituições. Estamos a assistir a uma situação em que o Estado quer absorver tudo para si. O Estado deve sim ajudar os diferentes sectores da sociedade a conseguirem os bens que precisam, seja a nível da família, da juventude, da economia, das artes, da cultura. O Estado deve apoiar e não açambarcar e chamar tudo para si.

Em “Familiaris Consortio” o Papa fala e bem da relação entre a família e o estado, a família e o trabalho. Fala também dos perigos que há neste mundo moderno, onde há muitas pressões que são de fronteiras. Fala por exemplo do aborto, da eutanásia, das ideologias que, muitas vezes e em nome da emancipação da mulher, acabam por propagar uma grande noção de liberdade do tipo ´quero, posso e mando`. Ou seja, posso fazer tudo o que eu entender com a minha vida, dispensando os espaços nas relações de uns com os outros. Estes são perigos enormes.

Há uma tremenda confusão sobre o que é a liberdade. A definição de liberdade nos dias actuais está muito deturpada em muitas mentes. As pessoas vêm a liberdade apenas como uma oportunidade de fazer tudo aquilo que quiserem. Dizem sou livre, mas não é bem assim. Um toxicodependente por exemplo não é livre. Um alcoólatra não é livre. Bom, pode até ser livre para tomar um ou dois copos, mas depois entra por um caminho onde não consegue mais decidir sobre a sua própria vida. Não vejo como é que isso pode ser liberdade. Quando escolho, conscientemente, caminhos que me destroem, será que posso dizer que sou livre? Entendo que a minha liberdade deve existir com a dos outros, mas deve ser sobretudo quando posso escolher por aquilo que me liberta, que me respeita e respeita os outros.

Igualdade do género

– A Carta Pastoral causou algum burburinho por causa das suas posições relativamente a mulher, mais precisamente sobre a questão da igualdade do género, da liberdade e da sua independência. Não receia que estas suas posições levam a que seja considerado conservador ou então “machista”?

O problema é que na Carta Pastoral não tem nada disso. Acho que algumas pessoas não são capazes de interpretar aquilo que lá está. Vi artigos onde faltou a pureza jornalístico. É que o Sr. Bispo não afirmou, citou outras fontes. Quando se abre aspas, estamos a citar alguém que, como é obvio, estou em comunhão, possivelmente os meus superiores. O magistério da igreja tem séculos de experiência. Citei muito o Papa João Paulo II. Em alguns momentos vi que as pessoas ou não leram a carta, ou então não foram capazes de perceber aquilo que lá escrevi. Isto é que é pena. É preciso fazer jornalismo sério. Uma pessoa, se vai fazer um comentário, deve estar por dentro da matéria. Houve um jornal que fez um artigo, citando um outro órgão. Com certeza que se tivesse lido a carta não precisaria recorrer a nenhuma outra fonte.

Acho que a parte em concreto que deve estar a referir-se é relativo ao mal entendimento sobre aquilo que é independência e liberdade. Longe de mim não defender a igualdade. Agora, é preciso definir o que é a igualdade. Entendo que a igualdade deve ser em dignidade e em oportunidades. O homem não é mais que a mulher, nem vice-versa. Na versão da igreja isto não se verifica. Aliás, as mulheres têm grande destaque na vida da igreja. A igreja nunca dignificou tanto uma pessoa como a mulher, no caso, Maria. O Papa Francisco tem procurado colocar as mulheres nos centros das decisões dentro da igreja. É verdade que no passado a mulher não teve estas oportunidades. Mas entendo que não foi por ser considerada inferior. No texto da Carta Pastoral não se fala sobre isso. Infelizmente, entendo que a mulher foi instrumentalizada. Sabe que em muitos lugares as mulheres saíram a perder.

Se faço um finca-pé em relação a igualdade, então temos de ter igualdade em tudo. Há muitas mulheres que no presente perdem trabalhos porque não são chamadas para fazer determinadas tarefas, o que é uma pena. Deveriam ver é a diferença. A mulher tem a sua biologia. O seu corpo é diferente. A mulher-mãe precisa de um outro cuidado. É para isso que devemos lutar. Devemos dar a cada um aquilo que lhe corresponde pelo bem. Em muitos lugares as mulheres não são promovidas. Estou a falar a nível económico e por aí adiante. Não recebem o mesmo salário que os homens. Então essa igualdade não resultou.

Mal-entendidos

– Como é que, nós mulheres, poderemos reverter isso, então?

– Acho que era preciso termos a coragem de perceber, e isso é outro assunto que está na Carta Pastoral e que foi mal-entendido, que não somos iguais. Eu sou homem. A minha forma, a minha psicologia e a minha sensibilidade são de homem. A sua é de mulher. E é uma riqueza. Esta complementaridade é que torna mais belo a humanidade. Não somos iguais. É preciso assumir isso, com todo o respeito para com alguém possa ter por outras tendências. Uma coisa é acolher o diferente. E há pessoas com outras tendências. A igreja respeita, por exemplo, a homossexualidade, respeita quem tem orientações sexuais diferentes. Agora, o facto de respeitar, não nos dá o direito de dizer que é tudo igual. Por exemplo, a igreja nunca vai permitir o casamento homossexual. Isto não faz parte da sua natureza. Deus escolheu homem e mulher. Mas respeitamos as pessoas e elas têm lugar na nossa comunidade. Têm lugar na igreja. É verdade quem nem sempre isto foi bem entendido e aceite.

– O Papa deu uma grande contribuição neste sentido …

 – É verdade. Mas uma coisa é aceitar, outra é concordar ou aprovar. Posso não concordar, mas tenho de aceitar o outro como o meu semelhante. Estes são assuntos tão importantes que seria interessante um debate aberto. As pessoas precisam sentar e discutir estas questões com a maior naturalidade. A ideologia de género é um assunto da Carta. E a posição da igreja é clara. O Bispo do Mindelo, assim como o Bispo de Santiago ou qualquer outro, têm a mesma posição. Aqui não está em causa uma posição isolada de um prelado.

 Exactamente, qual é essa posição então?

– A posição é que nos fomos criados por Deus, homem e mulher. Esta é a teoria normal e sã. Não vemos de outra forma. O que dissemos na carta é que devemos respeitar que hajam outras tendências. Sabemos que há pessoas que não se identificam, por exemplo, com a sua masculinidade. São casos que podem existir. Não vou aqui entrar no campo da ciência e nem dizer que não existem. Mas daí a dizer: cada um escolhe o que entender, como se pudesse ir contra a ordem da natureza, ou seja, forçar a natureza. Isto é que não concordo.

– Voltando a questão da mulher, ao ganhar a sua “independência” ou ao emancipar-se, houve reflexos na família. Acha que a mulher é “responsável” por esta crise na família?

Entendo que antes tínhamos uma situação em que tínhamos uma estrutura familiar clássica, em que na casa havia sempre alguém que cuidava dos filhos. A mulher emancipou-se e bem. A mulher profissionalizou-se, ganhou uma vida activa na sociedade. Agora, talvez o que nós não fizemos foi reorganizar a estrutura da família. O que não é normal são os filhos ficarem sem ninguém. Hoje os filhos não têm com quem estar. Entendo que os pais tinham que se organizar. É verdade que temos cada vez mais espaços de ocupação de tempos livres, jardins. Mas, infelizmente, estes não substituem a família. E nem podem.

Hoje passe-se cada vez mais tempo fora de casa, seja no transporte, no trabalho ou a fazer horas extraordinárias. Outrora, havia sempre alguém da família em casa, fosse um irmão mais velho, uma avó ou um tio, para cuidar e educar os mais jovens. Felizmente, ainda hoje acontece em Cabo Verde um pouco isso. Mas muitas vezes estas pessoas não estão. Por isso, temos muitas crianças a viverem na rua, que é um lugar muito perigoso. É o lugar onde se aprende de tudo, bom e mau. E, como somos dados muitas vezes a actividades inúteis, isto põe em cheque o caracter das pessoas. Por isso o rendimento das crianças torna-se menor. Temos muitas crianças com baixo rendimento escolar, o que é complicado. Não têm ninguém que as entusiasme.

A nova organização da sociedade deveria pensar na questão da família, mais precisamente na educação, no acompanhamento dos filhos. O problema, repito, não é que a mulher deve voltar à casa. Isso seria diminuir a mulher. Seria um retrocesso. Mas temos de ver dentro desta nova configuração onde fica a educação. Se não posso cuidar dos meus filhos, preciso pensar se posso tê-los. A prova disso é o facto de as pessoas terem cada vez menos filhos.

– Esta emancipação da mulher poderá estar a contribuir para o aumento dos divórcios? Referiu agora que as mulheres estão a ter menos filhos. Significa que as mulheres estão a optar pela esterilização química ou outros meios para prevenir. Está tudo relacionado?

Acredito que há uma ligação. A questão do bem-estar hoje em dia é vista de uma forma muito absoluta e muito egoísta. Uma coisa é o bem-estar que todos nós procuramos. E devemos sempre procurar o melhor para nós. Mas é preciso termos em mente que não vivemos sozinhos no mundo. Há valores que são superiores ao nosso bem-estar. Por exemplo, a vida humana ou é um valor absoluto ou então entramos por um caminho muito perigoso. Se começo a ver a vida como uma coisa relativa, posso caminhar para caminhos sinuosos, como já aconteceu no passado. Tivemos regimes que dizimaram etnias inteiras apenas por que não convinham, por que eram inferiores, incómodos ou não davam jeito.

Hoje estamos a passar por situações similares por questões religiosas ou políticas. A verdade é que a vida de qualquer pessoa que veio para este mundo é inviolável. A questão do aborto, por exemplo, coloca-se aqui. A pergunta é o que pesa mais? É o que me convém? É a tal liberdade entendida de forma errónea em que, ao ver um filho como um incómodo, faço o que bem entender? No caso, o incómodo é um inocente que ainda não nasceu, como pode ser uma criança, um adulto ou um velho. Não tenho direito sobre a vida do outro.

Primazia da carreira

– Está-se a colocar carreira à frente desses tais valores a que referiu?

– Mas aqui não será apenas a mulher a colocar a carreira à frente. Acho que se está a dar primazia a carreira em detrimento da família. Em Cabo Verde, o homem chega em casa quando chega porque é o empresário; porque é o provedor do lar; porque é o político. É preciso perceber que os dois – homem e mulher – têm responsabilidades acrescidas no âmbito da família. É preciso pensar quando quero constituir família. A família não pode nascer num de repente. Não pode ser um acidente. Deve fazer parte de um plano de vida. Quando decido criar um lar tenho de ver se tenho condições para dar uma vida digna à minha família. Se tenho tempo e disponibilidade. Só depois é que se pode embarcar nesta aventura. Infelizmente não é isso que acontece.

O Papa Francisco disse há um tempo atrás num documento fabuloso uma frase importante: “esta economia mata”. É a sua grande Exortação Apostólica Evangelii Gaudium onde ele expõe as suas ideias e o seu programa para a Igreja. Ele aborda esta questão com uma clareza muito grande também na Laudata Si. Diz que o mundo está a ir a reboque da economia e que quem manda nisto tudo é o dinheiro. Manda nos políticos, manda nas empresas, manda nas pessoas. Se não mandasse, colocaríamos os valores à frente.

Diante destes cenários em que a economia se sobrepõe aos valores, às famílias e ao Estado, quais os grandes desafios que se colocam a igreja?

– A igreja funciona permanentemente na discrição. Não há um único domingo em que centenas de crianças, jovens e famílias não se encontram. E isto não é só para entreter o tempo. A Catequese passa uma mensagem assente no amor, na bondade, na verdade. Os nossos jovens reúnem-se semanalmente para discutir temas diversos, nomeadamente a sexualidade, a família. Temos neste momento em Cabo Verde uma associação em crescimento, as ENS–Equipas de Nossa Senhora, com mais de 70 equipas de casais. Cada equipa é constituída por sete casais, que se encontram para discutir como foi o seu mês, a vida familiar. É uma partilha. Normalmente escolhem um tema, quase sempre de actualidade, ligado à vida conjugal, ao trabalho, à educação dos filhos ou outro. Um casal prepara o tema durante um mês e apresenta-o, na reunião mensal que acontece nas casas uns dos outros. Começa por uma refeição em conjunto, que é algo muito bom. Hoje as pessoas fazem muito poucas refeições em conjunto, mesmo nas famílias. As ENS estão em quase todas as ilhas. Falta-nos apenas a Boa Vista, mas vamos lá chegar. Este movimento está com um dinamismo extraordinário. A ENS integra uma organização mundial. Aliás, em Julho último aconteceu uma reunião a nível internacional, que acontece de seis em seis e que juntou cerca de oito mil pessoas, e Cabo Verde fez-se presente com alguns casais. Sentimos que o trabalho tem de começar na base.

Mas a igreja funciona em diversas frentes. Este é um trabalho que acreditamos dará fruto a seu tempo. Todos estes casais por detrás têm a sua família, têm colegas de trabalho, são professores, trabalham nas fabricas.  É uma bola de neve. Há coisas que pegam por contágio. A igreja tem uma dimensão que é profética. As vezes somos um incómodo. Dava mais jeito estarmos calados. Mas não pode ser. Jesus Cristo foi pregado na cruz porque decidiu anunciar a verdade. Se um Bispo nada tem a dizer, temos de perguntar se ele é um pastor a sério. Não posso e não devo estar de bem com todos. Qualquer pessoa que seja fiel aos seus valores profundos, gera conflito.

E temos muitos exemplos: Ghandi, Martin Luther King. São homens que lutaram por aquilo que acreditavam – liberdade e autodeterminação -, mas encontraram nos regimes e na sociedade choques. E eram pacíficos. Não é nossa intensão provocar ninguém. A igreja não tem nada contra ninguém. Mas temos uma verdade a propor. E esta verdade passará pelas mensagens que fazemos sair nas homilias, o nosso grande palco, mas também nos encontros com as pessoas, nas conferências.

Temos vindo a fazer algumas actividades, por exemplo a Semana Teológica. As paróquias estão muito envolvidas em fazer palestras temáticas. No ano passado falamos sobre a Justiça e a Paz, que é um tema pertinente. Sentimos que temos um papel a desempenhar na sociedade. Talvez alguns não percebam que a igreja está na sociedade. Pensam que a igreja está fechada na sacristia. Jesus Cristo não passou a vida na sacristia. Esteve sempre nas margens do mar, no templo, no mercado. É assim que temos de estar. Há dias convidaram algumas igrejas para estar numa palestra sobre inclusão social porque queriam ouvir-nos. O meu papel foi expor a doutrina da igreja. Não forçamos nada, mas quando somos convidados a dar o nosso contributo para melhorar o nosso país, estamos disponíveis. Um Bispo não vai à uma conferência para vender o seu peixe ou para fazer proselitismo. Se temos uma luz, se temos um contributo que podemos dar para fazer avançar a sociedade, a igreja sempre faz-se presente. O Papa Leão XIII, no sec XIX, escreveu uma Encíclica Rerum Novarum, em 1891, que é sobre a condição dos trabalhadores. Esta encíclica foi uma revolução numa altura em que a máquina começava a ter mais importância que as pessoas. Ele dirigiu uma mensagem dizendo que devemos optar, escolher e colocar em primeiro lugar a dignidade das pessoas.

O Papa Francisco, quando fala, manda recados, seja para economistas, empresários, políticos, para o mundo. Diz sempre que a pessoa humana deve estar em primeiro lugar.

Casamento homossexual

– Falou na dignidade da pessoa humana. Vários países começam a aceitar o casamento homossexual. Disse há bocadinho que a igreja respeita a posição do outro. Como é que a igreja vê esta questão? E há espaço em Cabo Verde para casamento homossexual?

– Esta é uma questão delicada. O casamento é uma complementaridade à luz da Bíblia. É uma comunhão de diferentes não apenas no âmbito sexual. O casamento é para formar família. A vida deve nascer do amor. E a homossexualidade não gera vida. O amor, o bem das pessoas e a procriação estão ligadas. O casamento tem duas propriedades na visão da igreja: o bem dos esposos e a procriação. As pessoas casam-se para desfrutarem do amor e da vida sexual, que é uma riqueza. Só por si isto já é um bem enorme. O matrimónio tem esta finalidade, mas também tem outra muito importante, que é continuar a espécie. Na Bíblia nós lemos “crescei e multiplicai-vos”. Duas pessoas que querem casar mas que não têm no horizonte fazer crescer a humanidade não têm uma base para o casamento. Não podem casar na igreja. Uma coisa é não poder ter filhos por questões de infertilidade ou outro. Agora, por capricho ou porque não querem o inconveniente, é inaceitável.

– Mas disse que a igreja é defensora do amor. Os casamentos homossexuais não têm amor? Por outro lado, sempre podem gerar filhos “do coração”…

– Claro que tem amor. Quando digo que o casamento é para a procriação, devem ser frutos do casal. Conheço muitos casais que, não tendo possibilidade de terem filhos, adoptam e bem. Também conheço casais com filhos, mas que têm um amor tão grande, que adoptam. Sentem que podem incluir no seu seio mais um. Mas não é fácil. É preciso ter uma dose de amor muito grande. Mas quando a igreja fala do matrimónio, só o concebe entre um homem e uma mulher. Entre dois homens ou entre duas mulheres não fala de matrimónio.

– Então a igreja questiona este amor “diferente”?

– Podemos amar todos. Um homem pode amar outro homem e uma mulher outra mulher. Eu, por exemplo, tenho imenso amor ao meu pai, aos meus irmãos, aos meus amigos.

– Não estou a falar exactamente no amor fraternal…

– Está a falar no amor do género conjugal. A igreja não concebe este tipo amor, mas respeita. E quem vai nesta linha porque não segue a da igreja, o que lhe pedimos é bom senso. Que não viva na promiscuidade, que sejam sérios uns com os outros. Há pessoas que, pelo facto de não poderem viver este ideal, pensam que qualquer coisa serve. Não é verdade. Então que sejam sérios, que respeitam e sejam fieis um ao outro. Apenas estão em um outro parâmetro.

– O Papa Francisco tem uma posição mais aberta em relação a homossexualidade, por exemplo. Bastas vezes já afirmou que todos são filhos de Deus. Este discurso leva as minorias, inclusive os homossexuais, a se aproximarem dele. O Papa fala apenas no amor…

É verdade. Mas de certeza que nunca ouviu o Papa Francisco dizer que é a favor do casamento homossexual. Não há nenhum pronunciamento do Papa Francisco que seja contrário aos ensinamentos da igreja. Isto é que seria perigoso. O Papa pensa com a igreja. O que acontece é que o Papa tem uma pedagogia e uma sensibilidade extraordinária. Para mim. a grande novidade é que o facto de seres diferente ou de teres as tendências que tens, não me dá direito nenhum de te criticar, de te excluir, de te colocar fora da nossa vida em comunhão. Isso vale para os homossexuais, para as mulheres mães-solteiras ou outros.

– Aliás, sobre a questão de mães-solteiras, há dias o Papa Francisco disse claramente que isto não existe. Existem apenas mulheres-mães… 

É verdade. Mãe é mãe. É um facto que a igreja, no passado, nem sempre aceitou bem estas questões. Por exemplo, não aceitava baptizar filhos de pais não casados. Em alguns lugares ainda segue esta regra. Mas isso não pode ser. A criança não tem culpa dos pais que tem. Se baptizar é fazer alguém filho de Deus e os pais desejam é minha obrigação fazê-lo e não estar a colocar dificuldades. Temos de acolher todas as pessoas. Por isso é que digo que o Papa Francisco tem um sentido de humanismo profundo. E a igreja no seu todo deve ser assim. Até porque por causa de um pequeno pormenor ela é visada. Mas se há alguém por este mundo fora que excede em humanismo é a igreja. Não há nenhuma instituição no mundo que tenham tantos centros de acolhimento de crianças, de jovens, de pobres, de deficientes como a igreja. E não é de hoje. As maiores instituições de solidariedade social no mundo são da igreja, no campo da educação, da saúde, etc. São os salesianos, os jesuítas, os franciscanos. E não ganham nada com isso. As vezes as pessoas têm uma visão míope. Quando há qualquer coisa menos favorável da parte da igreja, imediatamente ela é atacada. Aqui mesmo em Cabo Verde, estou a vir agora do Tarrafal de São Nicolau, onde fui presidir as festas de São Francisco. O verdadeiro “pai” do Tarrafal foi o Padre Jesualdo. Criou oficinas, formas de dignificar as mulheres, facilitou para que elas pudessem ter um trabalho na Itália. A igreja tem lá um espaço enorme para apoiar as pessoas. E temos histórias similares em outros pontos do país.

– É facto que a igreja esteve sempre presente em Cabo Verde em diversas áreas …

– Foi a pioneira na educação, por exemplo. Aprendia-se nas escolas da igreja. Qual foi a primeira “universidade” de Cabo Verde? Foi o Seminário São José em São Nicolau. Foi lá que se formaram muitos pessoas da elite de então. O seminário foi fechado por decisão da República de Portugal, o que foi uma desgraça. Mas as pessoas têm memória curta. O lugar da igreja é onde há pessoas, quer seja para ajudar na educação, na saúde. Em alguns países da África as instituições que funcionam a nível da saúde são todas da igreja. Passam os regimes mas a igreja fica porque ela não tem cor política, não tem interesses partidários. O seu único interesse são as pessoas. Quando há guerra as pessoas vão-se embora, mas a igreja fica. Ninguém ouviu dizer que os padres abandonaram a Síria ou o Iraque nas guerras. O seu lugar é junto das pessoas até ao fim. Na América Latina onde tem havido enormes desacatos – Venezuela e Nicarágua – a igreja não foi embora. E por estar a defender as pessoas é perseguida. Esta é a “sorte” que lhe cabe.

Diocese do Mindelo: 15 anos

– A Diocese do Mindelo vai completar no próximo mês de Novembro 15 anos da sua criação. Que balanço faz desta década e meia de actividades?

– É verdade. A Diocese do Mindelo foi criada oficialmente no dia 14 de Novembro de 2013, data em que foi assinada a Bula Papal. Mas só passou a existir efectivamente em 2004, quando chegou o Bispo Dom Arlindo, que foi ordenado em Fevereiro. Devo dizer que a criação desta Diocese foi uma intuição belíssima do Papa João Paulo II. Não somos hoje capazes de conceber Cabo Verde sem as duas dioceses. É sinónimo de que estamos a crescer e corresponde àquilo que o Papa Francisco tanto tem falado, que é a igreja na periferia, ou seja, próxima das pessoas. O pastor tem de estar com as suas ovelhas. Eu, para dar a volta a minha diocese, não é fácil. São cinco ilhas. Estou a vir de São Nicolau. Este fim-de-semana estive em Santo Antão na tomada de posse de um padre. Nos próximos dias estarei na Boa Vista. Por isso, o balanço que fazemos é que a criação desta diocese foi uma graça enorme para a igreja de Cabo Verde e para os cabo-verdianos. A Diocese do Mindelo tem apostado num aspecto fundamental, que é a capacitação dos seus membros, de entre eles os sacerdotes, que são fundamentais. Nós nunca tivemos tantos padres como temos agora aqui na Diocese do Mindelo.

– Já agora, quantos padres tem esta Diocese?

 – Temos os chamados padres seculares, que são os estão encardinados ou fixos na diocese. Neste momento temos um número que deve rondar os 12. Depois temos os padres capuchinhos e os salesianos, que também são da diocese. Temos três padres salesianos. Já os capuchinhos temos três em São Vicente, três no Porto Novo, três no Tarrafal de São Nicolau. Temos um total de nove padres capuchinhos na nossa diocese.

– E cobrem as necessidades? 

– Contamos com todos, ainda que alguns em actividades mais especificas, caso por exemplo dos Salesianos. Estes não estão tão presentes na pastoral territorial, ou seja, nas paroquias. Mas têm uma missão fundamental, que é a educação. Os capuchinhos têm uma casa de formação, mas também estão na paroquia e trabalham como qualquer padre na evangelização, na catequese, com a juventude, etc. Neste momento na Diocese do Mindelo, no seminário menor no Bom Pastor, cerca de 12 jovens.

– Quer com isso dizer que a Diocese do Mindelo motivou mais jovens a enveredar pela vida sacerdotal?

– É verdade. Basta dizer que temos neste momento 12 jovens em formação aqui em São Vicente, e 11 no exterior, entre Portugal, Roma e Brasil. Uma coisa curiosa é que, no mundo de hoje onde a matéria tem um peso tremendo e as coisas parecem absolutas, continuamos a encontrar jovens que querem ser padres. É uma graça de Deus. Não temos dúvidas de que o facto de termos alguns padres novos, é um estimulo. Mas isso não é matemática.  As vezes um padre novo pode ficar 100 anos em uma paróquia e não aparecer nenhuma vocação. Em outro pode estar um velhote que ressuscita vocações. Mas é facto que os jovens se identificam. É o mesmo com um jovem que vê o Cristiano Ronaldo e quer ser jogador de futebol.

A comunidade católica de Cabo Verde, particularmente nesta região, acompanha este crescimento? É que a ideia que se tem é que o número de católicos tem vindo a reduzir…

– A leitura que faço é que os nossos espaços não chegam. Precisamos construir mais igrejas em vários sítios. Caso por exemplo do Sal, mais precisamente em Santa Maria, na Murdeira e na Palmeira. Em alguns casos são novas comunidades que vão surgindo. Em São Vicente, a cidade cresceu. Precisamos construir igrejas em Ribeira de Craquinha, Fonte Inês/Ribeirinha, Chã de Alecrim e Salamansa. Em alguns destes bairros temos pequenas igrejas, que já não comportam os fieis. Estes muitas vezes ficam na rua ou levam bancos de casa.

Mas é verdade que, em termos gerais, há uma diminuição daqueles que se dizem católicos. Antigamente toda a gente se identificava como católico. Mas temos os que são praticantes e os que não são. Os que se dizem católicos são em maior número do que aqueles que praticam. Os que não praticam, comungam dos valores, sentem necessidade de Deus e fazem a sua prática à sua maneira. Por exemplo, não perdem a procissão de Nossa Sra da Luz, é sagrada a peregrinação ao Mato Inglês, é impensável não baptizarem os seus filhos. Há uma variedade tão grande de vivência cristã. Mas temos pessoas que, talvez, a sua consciência de participação seja mais elevada. Temos mais movimentos na igreja.

Citei a cima o exemplo das Equipas de Nossa Senhora (ENS). Mas há outros movimentos, caso do Maria, Jesus e José. Temos uma associação de Gestores, Empresários e Profissionais Católicos, com sede na Praia. Ali também somos algumas centenas. A ideia é transformar a partir de dentro. Muitas vezes pensamos a igreja como uma multidão. Mas é um trabalho de formiguinha. Queremos que estes casais, empresários e outros profissionais sejam o fermento que faz levedar a massa. Que sejam sal para dar sabor a comida. Vamos para a igreja para celebrar a fé, mas o ser cristão não acontece dentro das paredes da igreja. Deve acontecer no campo, no bairro, na escola, no trabalho. É assim que temos de trabalhar.

Estou de acordo consigo no seguinte: precisamos muito trabalhar no campo da evangelização porque o mundo está a descristianizar-se. Temos muita gente, sobretudo a camada jovem, que os pais não deram educação cristã. As pessoas não podem ter o que não receberam. Por isso é que digo que há um mundo a crescer sem referências cristãs. Isto é muito perigoso porque a religião faz bem. A religião séria, e não estou a referir apenas a católica, ajuda a perceber a vida em comunidade, transmitir princípios, desperta para a solidariedade.

O pior que nos pode acontecer é sermos uma sociedade sem religião, sem Deus. Nas sociedades onde se colocou Deus de fora, sabemos qual foi o resultado. Temos o exemplo dos regimes marxistas, onde Deus não tinha lugar, onde se cometeram as maiores atrocidades contra a pessoa humana. Absolutizaram os seus princípios, as suas ideologias. Mesmo que nem todos o chamam de Deus. Temos de reconhecer que há uma força maior, uma entidade superior, que é o responsável de isto tudo. O mundo não é um acaso.

 

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