Boa Vista é também 100% Cabo Verde!

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Por Nelson Faria

A minha cabo-verdianidade tem várias origens, entre as quais da “ilha fantástica”, como diria o Prémio Camões 2018, a Boa Vista. Fiquei sobremaneira orgulhoso ao ver que as pessoas da e na Boa Vista assumem por inteiro como cabo-verdianos, como cidadãos conscientes, lúcidos e reivindicativos dos seus direitos, já que têm cumprido com os seus deveres para com a ilha e para com o país.

Boa Vista é a ilha com maior PIB per capita de Cabo Verde segundo dados do INE, é uma ilha turística por excelência, com condições naturais excepcionais para o turismo de praia. Ilha de boa gente e culturalmente muito afirmativa, sobretudo, pela Morna. Morna que pretendemos que seja considerada património imaterial da humanidade.

Entretanto, a sua gente residente mostrou que, apesar dos contributos, das suas valências e potencialidades não têm tido a atenção que merecem em sectores-chave da sua vida social e da dignidade humana. O caso das evacuações que despoletou uma revolta há muito acumulada foi apenas mais um dos pontos reivindicativos da manifestação do dia 26 de Maio.

De facto, os problemas transcendem a questão evacuações. A educação, a saúde, a habitação e o saneamento numa ilha em franco crescimento, que se quer considerada como ex-líbris do turismo de praia, deixam muito a desejar para servir com dignidade os cidadãos nacionais da e na ilha, assim como atractivo para a vinda e fixação de turistas. São questões chaves para responder a um desenvolvimento equilibrado, justo e harmonioso da ilha. São questões que há muito deveriam ser respondidas pelos governantes, locais e nacionais. São questões que ultrapassam esta legislatura e já têm barba branca. Porém, quando o “comprometimento” governativo não resolve, faz bem à população pedir e reivindicar que se resolva. Afinal foi para isso que legitimaram, nas urnas, o poder dos governantes. Parabéns à população da Boa Vista e aos organizadores da SOS Bubista pela manifestação de cidadania!

Constatei também em boa nota a presença, junto da população, do Presidente da Câmara Municipal, que, independentemente de outras leituras, demonstra solidariedade, empatia e conexão com a população que o elegeu. Demonstra igualmente que as suas forças são limitadas para o que certamente gostaria de ver acontecer à ilha. Demonstra que, independentemente da sua eventual ligação partidária, não deixa de ser um cidadão preocupado com as questões que afligem a ilha e sua gente. Merece ser parabenizado e enaltecido pela coragem. O meu respeito. Quantos mais teriam a mesma coragem?

Já é tempo das demais ilhas demonstrarem que são igualmente 100% Cabo Verde e não sucumbirem às manifestações de centralismo que existem em todas as escalas, em todas as relações sociais e em todas as organizações (incluindo os partidos, sem excepção).

Democratizar a democracia, via descentralização, é preciso e imperativo. As mentes governantes não podem reduzir a democracia aos números e às vontades de um centro que desconsidera o país. É necessário que seja garantido o acesso, nas mesmas condições, a bens públicos e a direitos sociais por toda a população das ilhas, independentemente da sua localização geográfica, mormente as que contribuem para sua afirmação cultural, económica, de imagem e notoriedade. Como reconhecer na Boa Vista um paraíso turístico com as debilidades que hoje se apresenta? Somente as belas praias não chegam…

Depois das manifestações de São Vicente, no Sal sobre a segurança, e agora na Boa Vista, fica igualmente evidente um clarear da sociedade civil cabo-verdiana que, reconhecendo as limitações naturais do país, não está disposta a compactuar com conveniências partidárias e de outros interesses instalados. Fica evidente que a sociedade civil quer que sejam resolvidas as reais prioridades e necessidades para que o bem comum e o país se realizem em pleno de Santo Antão à Brava, para todos os cidadãos. Sim, “tud cristom, tud cimbrom, tem direito na sê gota d’agua…”

Esta manifestação tem de nos levar à reflexão sobre algumas questões partilhadas nas redes sociais: “As demais ilhas não têm problemas capazes de suscitar a reivindicação da sociedade civil? Até que ponto os partidos do arco do poder querem resolver os reais problemas das populações das ilhas? Não seria o momento de se repensar outras vias partidárias para soluções efectivas dos problemas das populações? Quem serão os corajosos que assumirão este desafio?” Até lá, resta a esperança que os problemas essenciais levantados nestas manifestações, sobretudo ligados aos direitos Humanos elementares, sejam respondidas nesta legislatura.

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