Caso Ken: Académica mete providência cautelar e ameaça (também) denunciar futebolistas ilegais

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A Académica vai meter duas Providências Cautelares no Tribunal de S. Vicente, que visam suspender a aplicação imediata do acórdão do Conselho de Justiça da FCF, que dá provimento ao protesto do Derby e determina a perda dos pontos conquistados pela Micá nos jogos em que usou Ken Ramos na baliza e ainda sanciona este guarda-redes com cinco meses de suspensão. Os documentos serão entregues amanhã até ao meio-dia na Comarca do Mindelo e esse passo pode ser a primeira de outras medidas ponderadas pela Académica para defender a sua honra e imagem pública no processo despoletado pelos derbianos, por causa do uso alegadamente irregular do guar-redes Ken Ramos. O clube dos “estudantes” mostra-se decidido a ir mais longe, caso for necessário, a ponto de não descurar a possibilidade de levar o assunto ao Tribunal Constitucional e á própria FIFA – organismo máximo do futebol a nível mundial.

“Vamos esmiuçar esse processo, sacudir todas as poeiras que se mostrarem necessárias até o apuramento da verdade, doa a quem doer”, assegura Manuel Cabral, presidente da Associação Académica do Mindelo, ele que clama por justiça. É que, segundo Cabral, a Micá não cometeu nenhuma ilegalidade na inscrição do guarda-redes Ken, ao contrário daquilo que conclui o acórdão do Conselho de Justiça da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF).

Munido de alguns documentos de Ken, Manuel Cabral garante que o clube apresentou toda a papelada exigida no processo de inscrição de qualquer jogador, entre os quais o Bilhete de Identidade, Certidão de Narrativa Completa e o Assento de Nascimento. Além disso, a pedido verbal da Associação de Futebol de S. Vicente (por causa das suspeitas em torno da identidade do jogador), a equipa negra solicitou à FCF o certificado internacional de Kéven Jorge Sousa Ramos, papel que, entretanto, nunca apareceu. Isto por causa da propalada discrepância entre os nomes Kéven Ramos e Kevin Ramos surgidos no Bilhete de Identidade do jogador e num Passaporte alegamente pertencente a Ken.

Nos documentos expostos à imprensa pela Académica pode-se constactar que o atleta em causa chama-se Kéven Jorge Sousa Ramos (e não Kevin Jorge Ramos Sousa) e nasceu a 6 de Outubro de 1989. Logo, para a equipa negra, só existe o Kéven Ramos. Quanto ao “tal” Kevin Jorge Ramos Sousa, que terá assinado pelo Nacional da Madeira, o clube não sabe quem é e tem dúvidas se essa pessoa existe.

Ciente de que tem a razão do seu lado, a Académica do Mindelo, segundo Cabral, não vai tolerar que a imagem do clube e do jogador seja manchada na praça pública e junto das instituições. Por isso, diz, se há ilegalidade que a Federação Cabo-verdiana de Futebol e as instituições competentes da República façam a competente investigação e eliminem de vez essa “mancha” que há décadas paira sobre o futebol cabo-verdiano. “Nunca iríamos tolerar o recurso a mecanismos ou meandros que poderiam conotar o clube com esquemas de falsificação”, assegura o responsável da Micá, que acusa o Conselho de Justiça (CJ) de ligeireza ao concluir que o Kéven nascido em 1989 é a mesma pessoa que o Kevin nascido em 1994.

Matéria criminal

Para a Micá, a matéria julgada no acórdão do CJ é de foro criminal, e não desportivo, por trazer á tona suspeitas de falsificação de identidade, o que seria um crime. Porém, na óptica de Manuel Cabral, ao chegar a tamanha conclusão, esse organismo da FCF pós em causa a credibilidade das instituições da República, em particular o Arquivo de Identificação, o Cartório Judicial e a Casa do Cidadão, serviços ligados à emissão de documentos. “Se há fraude em relação à identificação de jogadores em Cabo Verde, e a FCF tem conhecimento, isso deve ser investigado pelas entidades competentes”, instiga a Micá, cuja direcção se mostra decidida a percorrer “todas as instâncias” para defender os seus interesses. Até mesmo chegar às portas da FIFA.

Bastante crítico ao acórdão, o jurista Armindo Gomes chama a FCF a capítulo quando o próprio Conselho de Justiça afirma na sua sentença sobre o protesto do Derby que Kéven e Kevin são a mesma pessoa e admite ainda que o “segundo” até jogou pela selecção de Cabo Verde. Para Gomes, isto é uma confissão grave. “Tiveram o desplante de dizer que o jogador que acusam de ter dois documentos jogou pela selecção nacional com outro nome. Isto não nos interessa neste momento. Agora, se a FCF sabe disso, gostaria de saber por quê não instaurou um processo disciplinar ao mesmo e aplicou-lhe uma sanção desportiva?!”, questiona Gomes, para quem Cabo Verde e a FCF não teriam nada a ganhar se essa informação chegasse à FIFA de forma oficial.

À falta de um tribunal desportivo em Cabo Verde, a Micá viu-se obrigada a recorrer a um tribunal civil, neste caso o da Comarca de S. Vicente. Segundo Armindo Gomes, o objectivo do clube é que essa instância judicial analise e julgue evidências de ilegalidade que depararam em todo o processo. “Evidentemente que não poderíamos meter uma acção no Tribunal de S. Vicente para se debruçar sobre questões desportivas. Mas aqui não se trata de aspectos meramente desportivos”, frisa o jurista, que fala de ilegalidades “grosseiras” cometidas no caso e que, garante, serão provadas pela Micá.

Uma vez aceite a Providência Cautelar pelo Tribunal, a Académica terá trinta dias para meter a acção principal. Por esse caminho é fácil antever que a atribuição do título de campeão de S. Vicente não será tão simples, ainda mais se a Micá vencer o Derby este Domingo, na última partida do calendário normal da presente época.

Colocado perante esse cenário, Armindo Gomes diz que nunca será intenção da Académica prejudicar a ilha de S. Vicente. “Quem pretende fazer isso são outras pessoas, pessoas essas que já tiveram situações semelhantes noutras ilhas e que não agiram. Agora pretendem agir contra S. Vicente. Se S. Vicente tiver que pagar o preço de ficar arredada do campeonato nacional será um escândalo”, salienta Gomes, numa mensagem enviesada à cúpula do futebol cabo-verdiano.

Futebolistas ilegais na ilha do Sal

Sem receio algum, o jurista afirma que há casos de falsificação de identidade de jogadores na ilha do Sal e muito provavelmente em Santiago, mas que estão quietos nos seus cantos. Aliás, Armindo Gomes vai mais longe para afirmar que no actual campeonato de S. Vicente há futebolistas nalguns clubes que terão documentos adulterados. “Se for preciso, faremos uma denúncia pública sobre jogadores que em anos transactos jogaram pelo Mindelense e com a ajuda dos quais esse clube ganhou o campeonato regional e depois o nacional”, ameaça o jurista, que não descarta a hipótese de a Académica vir solicitar inquéritos para se aquilatar desses tais casos de falsificação de documentos. A seu ver, era esse o procedimento correcto que a FCF deveria accionar no caso do guarda-redes Ken, agora despoletado pelo Derby.

Jogo do título

Para a Académica nada está decidido, até porque a equipa meteu um recurso e uma providência cautelar. Isto para mostrar “ao pessoal” que não há nenhuma decisão ainda transitada em julgado. Por esta razão, a equipa treinada por Bubista tenciona enfrentar o Derby este Domingo num duelo a matar. “Vamos encarar esse jogo como uma partida para ganhar, para a Académica sagrar-se campeã”, deixa claro Manuel Cabral, que se mostra agastado com a forma como o processo relactivo ao protesto do Derby foi conduzido pela própria FCF.

Para começar, afirma que a Micá foi notificada do processo numa Sexta-feira, fora do horário normal de expediente, e logo informada que tinha até Segunda-feira seguinte para apresentar contestação, sob pena de perder o caso. Foi preciso negociar com a FCF para conseguir prorrogar o prazo mais dois dias, segundo a citada fonte.

Cumprido esse trâmite, e quando aguardava pela resposta do CJ, a Académica soube que o conteúdo do acórdão já estava a circular em S. Vicente, antes do jogo entre o Derby e o Mindelense, no passado Sábado. Tanto assim, reforça o jurista Armindo “Batxa” Gomes, que o clube encarnado terá festejado o título assim que venceu o Derby. Para Gomes, isso é obstrução à justiça, mas vai alertando que tudo ainda está em aberto.

Micá defende Ken

A Académica convocou a imprensa para contestar a decisão do Conselho de Justiça da FCF sobre o protesto do Derby. A Micá afirma que agiu dentro da legalidade, que os documentos do Ken são verdadeiros e que o CJ pronunciou-se mais sobre uma matéria de carácter criminal do que desportivo.

Publicado por Mindel Insite em Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

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