Celeste Fortes: “O que existe em São Vicente, em relação à homossexualidade, é uma tolerância disfarçada”

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O livro “Homossexuais, gays e travestis em Mindelo” foi considerado pela cientista social Celeste Fortes uma importante contribuição para dar voz a um grupo marginalizado por uma sociedade “machista e patriarcal”, muitas vezes por causa de influências religiosas judaico-cristã. “Temos uma percepção de que São Vicente é uma ilha tolerante em relação à homossexualidade, mas é uma tolerância silenciosa. Questiono-me até que ponto pode ser chamada de tolerância, pois as pessoas toleram, mas não se relacionam com eles. Cada um no seu lugar”, considera Celeste Fortes, na sequência da apresentação, ontem, da obra que resultou da tese de mestrado da autora Lurena Silva.

“Este respeito e tolerância que pensamos ter em relação a estes grupos pode ser facilmente testado se eles começarem e reivindicar os seus direitos. Por exemplo, o direito de ter um nome social, de acordo com a orientação sexual, ou então o direito ao casamento ou à adopção. Estou desejosa de começarmos a falar abertamente sobre esse assunto para testar o nosso nível de tolerância”, desafia.

Para a autora, Lurena Silva, esta obra resulta da curiosidade e da vontade de trabalhar um tema diferente, num terreno onde ninguém quer entrar. “São Vicente é dos lugares onde os homossexuais vivem de forma mais tranquila, assim como Cabo Verde é dos países na África com mais tolerância em relação à homossexualidade. Por viver numa cidade cosmopolita como Mindelo, as pessoas estão com uma mentalidade mais aberta, entretanto ainda deparamos com uma aceitação silenciosa, em que as pessoas aceitam mas não se misturam”, assegura Lurena Silva.

“Desta forma deixo um apelo à família, que é onde começa o preconceito, e para a sociedade em geral, no sentido de se ter mais respeito e tolerância com as escolhas de cada pessoa. A homossexualidade não é uma opção”, frisa. Para Lurena Silva, trata-se de uma orientação sexual e relembra que todos estão sujeitos a ter que lidar com um filho ou um familiar com uma orientação diferente.

O lançamento contou com a presença do Presidente da Associação Gay Cabo-verdiana Contra a Descriminação (AGCCD), Anita Faiffer, como representante do grupo com quem a autora trabalhou e acompanhou na sua investigação. “Não queremos impor nada a ninguém. Só pedimos respeito pela dignidade humana. Neste sentido faço um apelo aos nossos governantes para que façam uma revisão na lei que contempla a homofobia, em todos os sentidos, e a descriminação”, apela Anita, para quem a sociedade cabo-verdiana está mais “moderada” em relação à homossexualidade, mas sublinha que ainda esse grupo enfrenta muitos problemas principalmente em relação ao mercado de trabalho.

“O livro é a nossa vivência, a nossa história. A história de seres humanos, pessoas desconsideradas. Agora, queremos dizer não à discriminação, porque somos cidadãos do mundo, nascemos aqui e vamos morrer aqui, independentemente de qualquer coisa”, afirma.

O livro “homossexuais, gays e travestis em Mindelo: entre identidades e resistências” foi lançado ontem no Centro cultural do Mindelo, pela livraria Pedro Cardoso. O próximo lançamento está previsto para amanhã, na Cidade da Praia.

Natalina Andrade (Estagiária)

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2 COMENTÁRIOS

  1. O interessante é que se defende o direito dos homossexuais com mais rigor, do que o a luta contra a corrupção..
    Defendem o direito a liberdade de escolha., e não o direito á vida…
    Milhares de pessoas vão a ruas marchando pelo movimento LGBT, mas poucas são as pessoas que vão a rua reivindicar para mais emprego, mais saúde. ..
    Enfim..até quando os nossos jovens deixarão de ser alienados por carnavais e festivais e reiinvidicam mais emprego, mais transparência na política , mais educação… mais tolerância..menos violência..menos crimes..uma sociedade justa e equilibrada.

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