A corrupção institucional e a falta de coerência político-governamental

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Por Carlos Lopes

É impressionante como o actual Governo consegue exibir a sua arrogância e capacidade de deturpar os dados das sondagens públicas e a realidade social do país. Enquanto apenas 13% da população do país é de opinião de que a situação actual do país é satisfatória e mais de 58% tem opinião contrária, o que indica a ausência do poder de compra (ausência do emprego), o PM Ulisses Correia e Silva vai à televisão pública nacional proclamar o contrário, a ponto de tentar vender a ideia de que “em dois anos de governação já empregamos mais de 20 mil pessoas”!
Esta foi um balde de água fria para mim que tinha o Ulisses como alguém do bem.
Como bem sabe o PM, empregar 45000 pessoas num país pobre e totalmente institucionalizada é uma tarefa impossível. Esta promessa e a sobre a Regionalização foram promessas aflitas de campanha e serão o calcanhar-de-Aquiles para este Governo.
Com esta situação calamitosa em que Cabo Verde se encontra, só resta ao PM continuar tentando manipular os dados do emprego, mesmo que seja através de sondagens fictícias.
Esta tirada do PM Ulisses confirmou as minhas dúvidas quanto à seriedade dos governantes deste país.
Logicamente que não acredito que tudo que o MPD faz tem toques anti-democráticos, mas, vejo nessas declarações infelizes uma certa ignorância político-institucional e ou apenas sinais de frustração com o desempenho da sua equipa de trabalho. A arrogância dos governantes é uma doença infetante e desgastante para o chefe do grupo. O PM não pode esquecer que estamos no século XXI e que a maioria tem acesso à informação (internet). Mesmo que a maioria não tenha condições para deslocar/viajar para outras ilhas (preços exagerados), diariamente troca-se publicações e opiniões entre amigos e ou familiares ficando informado da realidade vivida noutras zonas e ou ilhas.
No domínio do emprego, este Governo sabia perfeitamente que não seria assim tão fácil, mas não teve o cuidado de planear para criar postos de trabalho nas zonas rurais, de forma a conter o êxodo rural, o que, por sua vez, seria uma forma de ter um melhor controlo nas cidades e periferias agora super lotadas e entregues a mercê dos criminosos que muito bem sabem que “a justiça cabo-verdiana é amiga das armas”, o que incentiva a prática de crimes violentos.
Este Governo ainda nem teve o cuidado de analisar e decretar a criação de polos universitários, para abrir caminho para a adesão desses jovens rurais e outros interessados manterem-se nas suas ilhas de origem, evitando assim aglomerações exageradas nas cidades maiores (ver os casos de Praia, Mindelo e Espargos) e a ilha turística da Boavista. Cabo Verde tem que ser capaz de criar condições para o início de formações técnicas nas ilhas, através de polos universitários, e criar incentivos para manter os jovens nas suas ilhas de origem (muitos professores estarão decerto interessados a regressar às suas ilhas de origem também). Caso não forem competentes e capazes de mudar de rumo e êxodo rural e a diminuição das populações nas ilhas “periféricas” acabar por ditar a inviabilidade do país. Somo um país constituído por 10 ilhas, 9 habitadas, e não podemos continuar a considerar apenas uma ou duas ilhas do grupo. Com esta mentalidade estamos a criar mais insegurança e aumentar as exigências dos profissionais da segurança pública nessas ilhas acolhedoras dos migrantes internos.
E para complicar tudo, o próprio membro do Governo responsável pela segurança pública é o primeiro inimigo das polícias, colocando os serviços desses profissionais em questão com decisões arbitrárias e violadoras do conteúdo da Constituição da República.
O actual Governo e os deputados eleitos nas listas desse mesmo partido que suporta o Governo por sua vez tentam justificar as crises sociais e laborais com a falta de dinheiro, enquanto um grupo desses mesmos deputados, abusivamente e sem objeção do próprio presidente da Assembleia, decide e viaja para Lisboa “fazer jornadas descentralizadas parlamentares”. Escutando essas justificações absurdas dos deputados, só nos resta saber se a partir de agora esses senhores eleitos para trabalhar e proteger o bem nacional passarão a fazer jornadas descentralizadas em todos os países onde residem emigrantes cabo-verdianos.
Sendo que essa famosa viagem a Lisboa foi apenas para assistir o clássico encontro de futebol entre o Sporting e o Benfica só restava a esses iluminados tentar camuflar os seus objectivos e interesses pessoais em estarem presentes em Lisboa durante o fim de semana em que o encontro iria acontecer. E, como todos bem sabemos, essas viagens carretam custos exorbitantes para um país como o nosso onde pobres coitados nem comida têm para sustentar as famílias. Qualquer Governo constituído por um grupo de pessoas competentes e humildes teria o cuidado de diminuir as despesas institucionais e aumentar as verbas, a fim de se proceder à criação de condições imediatas para o arranque de algumas indústrias, incentivando a criação de empresas privadas nas zonas rurais, etc., etc.
Há que ser coerente, humilde e objectivo para se alcançar metas exigentes.
Quando qualquer país, supostamente democrático (apenas porque tem um documento chamado Constituição da República), elege grupos de incompetentes, arrogantes e criminosos, o povo é quem acaba por sofrer as consequências. Como todos sabemos, esses políticos tornam-se arrogantes apenas porque sabem que enquanto estiverem no poder estarão imunes a qualquer dificuldade na obtenção dos bens da primeira necessidade e da justiça. Especialmente num país como o nosso onde os políticos são contemplados com as mais vergonhosas mordomias existentes em países seriamente democráticos.
Enquanto o pobre coitado não consegue ter uma única refeição diária, os políticos usam e abusam do seu poder institucional para esbanjar o dinheiro doado por países amigos deste povo. Isto além dos subsídios de renda, eletricidade, água, transporte, comunicações, vestuário e outras benesses inadmissíveis nas sociedades ricas e poderosas.
Voltando um pouco atrás, ao referirmos à incompetência e arrogância de certos eleitos basta darmos uma olhada crítica às manifestações populares para ver que muita coisa está errada com esta governação. A maioria das populações está demonstrando a sua insatisfação com os políticos eleitos através das listas e pedem mudanças no sistema político/eleitoral cabo-verdiano.
Este nosso actual sistema precisa ser revisto para se evitar uma revolução nacional, enquanto é tempo. Ouvir o PM e seus discípulos a minimizar as origens e impactos dessas manifestações populares é algo que nos preocupa imenso.
Aliás, seria aconselhável que os governantes pusessem de lado essa arrogância doentia e organizassem debates populares e institucionais para averiguar o estado de espírito dos eleitores. Está bem claro que existe uma demanda popular para uma ponderação e imediata revisão da Constituição da República, diminuindo o número de Deputados para 32 (câmara baixa) + 9 (câmara alta) e colocar um artigo que estipulasse o limite de mandato a todos os detentores de cargos políticos, além do artigo 170 que precisa ser revisitado.
O processo de angariação de pareceres para o consenso global sobre o debate e revisão da constituição já devia ter acontecido há muito e talvez estaríamos já a caminhar a passos largos para a implementação do longo e complexo processo de Regionalização. O que Eu, pessoalmente, tenho muitas dúvidas que vai acontecer durante esta legislatura.
O tribunal Constitucional e o tribunal de Contas precisam passar a aplicar as leis referentes às exigências institucionais da declaração dos bens dos titulares de cargos políticos porque é inadmissível que, enquanto o povo e os seus gados sofrem de fome, os políticos acumulam fortunas pessoais etc., etc.

A Voz do Povo Sofredor

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2 COMENTÁRIOS

  1. Bem falado, esses deputados são na sua maioria bandos de incompetentes que ninguém sabe de onde saíram, só e só porque foram incluídos na lista dizem que são representantes do povo e que o povo os elegeu para os defender, contudo defendem o interesse pessoal e dos seus partidos. Ao meu ver deve haver uma outra forma de eleição dos deputados, ou seja uma eleição apenas para deputados, onde cada cidadão estaria consciente e tivesse conhecimento em quem esta votando par eleger. Continuado assim, não tarda teremos uma revolta nacional e eu confesso que serei o primeiro a dar cara porque de facto já estou farto de assistir de braços cruzado ao abuso desses políticos enganadores.

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