Criada em São Vicente a Associação de Marinheiros e Mestranças de Cabo Verde

361

Acaba de ser criada em São Vicente a Associação de Marinheiros e Mestranças de Cabo Verde (AMMCV), uma primeira entidade do género que reúne contramestres, motoristas e cozinheiros dos navios. O presidente desta novel organização, Evandro “Micha” Livramento, explica que o motivo que levou ao surgimento desta iniciativa foi a necessidade de resolverem os vários constrangimentos resultantes da actividade desses profissionais, numa altura em que Cabo Verde volta novamente a sua atenção para o mar.

O nascimento desta associação é o culminar de um processo iniciado há largos anos, mas que só agora se concretiza. O seu propósito é juntar forças para tornar esta classe de marinheiros – contramestres, motoristas e cozinheiros – mais conhecida e discutir os seus problemas. “Nunca tivemos uma representação. Quando Cabo verde entrou na lista negra da IMO criou-se a Associação de Marítimos, que entretanto foi partidarizada e não nos representava. Agora criamos uma entidade virada para os marinheiros”, realça Micha.

Cerca de 50 marinheiros subscreveram os documentos da associação, o que é um “número significativo” para o presidente, se for levada em conta as dificuldades para se juntar marinheiros e mestrança. A assembleia constituinte, que vai delinear os objectivos que nortearam o surgimento desta entidade, deverá acontecer em breve. “O que queremos, realmente, é discutir os problemas dos marinheiros. Neste momento, um dos maiores problemas desta classe é a documentação. Temos de renovar os certificados e fazer várias formações na Escola Náutica, que são obrigatórias e caríssimas”, refere.

As formações obrigatórias para a renovação dos certificados são, aliás, uma das maiores preocupações do mencionado presidente. Sobre este particular, Micha explica que as Emendas de Manila sobre a substituição ou renovação de certificados dizem que nenhum marinheiro pode ir para o mar sem ter os documentos renovados. O problema é que acabam por ficar em terra muitas vezes devido aos custos elevados da qualificação profissional.

“O surgimento desta associação é precisamente para tentar ajudar os marinheiros nacionais a resolver os seus problemas, que não são poucos. Para isso vamos organizar e procurar parcerias na Europa, especialmente na Holanda e em Portugal. Também penso procurar apoios no Rio de Janeiro, através dos conhecimentos que temos. Vamos tudo fazer para defender esta classe. Também iremos procurar apoios junto da Escola Náutica para podermos subsidiar os marinheiros que precisam de uma cédula”, explica o presidente, que contesta sobretudo os preços cobrados.

Micha não tem dúvidas que os preços cobrados são exagerados, sobretudo porque servem apenas para a renovação dos certificados. “As pessoas já são formadas. Vão lá na Escola Náutica apenas para uma actualização, pelo que não se entende os valores cobrados. Por outro lado sabe-se que esses cursos são apenas para respeitar as normas internacionais, ou seja, não têm qualquer aplicação prática”, desabafa este responsável, que aproveita para criticar também a forma como a Agência Marítima e Portuária lida com os marinheiros.

Para Micha não há um diálogo entre os marinheiros e a AMP, que sequer compreende o que é certificação. “Não há sensibilidade na AMP para falar com os marinheiros. Por exemplo, as leis que regem este sector são próximas das de Portugal. No entanto, lá as autoridades são mais acessíveis. Aqui os fazedores de leis tiveram o cuidado de ser mais rigorosos e exigentes. Digo mesmo que os marinheiros são ´maltradados` na AMP.”

Já em relação a possíveis conflitos, a Associação de Marítimos mostra-se tranquila porquanto, afirma, os propósitos são diferentes e congrega profissionais distintos. É que, enquanto os sócios dos primeiros são os oficiais e capitães, os da Associação de Marinheiros e Mestrança são os marinheiros, mestres e cozinheiros. “Ambas agrupam profissionais que trabalham no mar, mas as pretensões de cada um são completamente diferentes. Não tem como entrarmos em choque. Aliás, entendo que todas as entidades devem unir esforços para a melhoria deste sector”, afirma.

Sem ainda uma sede própria, as reuniões dos marinheiros acontecem na Associação de Marítimos, uma das parceiras estratégicas da AMMCV junto com a Associação dos Armadores, ambas sediadas em São Vicente. Num futuro próximo, espera ter um espaço próprio, o que lhe vai permitir desenvolver uma das suas principais acções em carteira, que é ministrar cursos de inglês para os marinheiros.

Constânça de Pina

(Visited 386 times, 1 visits today)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here