Crónicas de São Nicolau

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Por Zita Cardoso

São Nicolau, a ilha misteriosa das mornas, escrita por Armando Zeferino Soares, imortalizada por Cesária Évora, que nas histórias tristes da seca, das migrações, para as roças de São Tomé, da odisseia da emigração para os portos da Holanda e das cidades europeias dá-nos o fascínio emocional da “sôdade”. A Ilha Misteriosa vulcânica tem como principal porto o Tarrafal, com uma pesca e actividade conserveira ativa, levada pelos pescadores machiqueiros que chegaram a estas costas e portos, nomeadamente o de São Jorge, também para baleação. A fábrica Sucla de conservas continua em funcionamento desde 1952, bem como o seu Museu da Pesca, que está a ser redimensionado. Abunda o atum, espadarte, serra e de mais peixes nestas águas cálidas.

Aqui unem-se os povos ilhéus como no imenso lago, longe-perto. A Ilha descoberta a 6 de Dezembro, dia de S. Nicolau, só é colonizada dois séculos mais tarde. Os marítimos chegaram ao Porto da Lapa e refugiam-se dos piratas na vila da Ribeira Brava. O acesso ao mar faz-se pelo Porto da Preguiça, ao longo da Baia de S. Jorge, onde foi construído um forte que actualmente tem um padrão de Pedro Alvares Cabral, antes da sua passagem inicial para a India, desviando para o Brasil. A História continua a unir a Ilha de S. Nicolau à Madeira, pois na vila da Ribeira Brava, o rei D. João III pede ao Papa Clemente VII a criação da primeira diocese atlântica, desagregando-se da diocese do Funchal.

Aqui nasceu o primeiro seminário de Cabo Verde, que ao longo de séculos formou e educou todos os intelectuais deste país. Esta Ilha misteriosa da Macaronésia tem como símbolo o Dragoeiro, num acidentado relevo entre invulgares rituais, danças, num linguarejar crioulo afrancesado.

Ribeira Prata, um povoado situado nas entranhas do vale, em que o grande aluvião numa noite do ano dois mil levou à sua frente plantações, animais e casas numa tromba de água que quase submergia a Ilha para as profundidades desta plataforma das Ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau. A imponência das rochas com retornos de caras, de almas, de figuras mágicas, das plantações de cana-de-açúcar, mangueiros, amendoeiras, aljofareiras, purgueiras, terrenos de mandioca, tudo tão seco mas tão perto do céu como uma janela no espaço azul.

Os trapichos já não moem as canas, os corrais estão com o gado caprino subnutrido e o burro à espreita da palha de cana. O vento sopra do mar dando o formato à amendoeira como o formato da própria Ilha o continente africano com o braço estendido para o Oceano Índico.

Chegamos à Ribeira Prata no bulício do Hiace que, ao som de alta música, de cheiro à maleta e de alegria contagiante das famílias chegadas da Holanda e desembarcadas no Porto do Tarrafal. Eram saudados, beijos, abraços, alegrias, lágrimas partilhadas e o arranque para o destino de Ribeira Prata. Cada viagem isso mesmo, uma aventura, de ida e volta. O condutor faz de tudo: recebe a bolsa dos clientes com o almoço para o seu destinatário, embrulhado em frescas toalhas, desvia a pedido do cliente para apanhar o telemóvel que ficou em casa, desvia para fazer o pagamento da mercearia de outra cliente, enfim, sai, entra, coloca mercadoria em cima do carro, sintoniza a musica a pedido do freges, tudo numa simplicidade ilimitada.

O amanhecer era uma gargalhada matinal, como o coaxar dos sapos, o cantar dos pássaros, o lavar dos olhos á gato com a água num pequeno caneco, o beber a primeira água matinal no cajirão, tirada do pote de barro. Á noite os cantares das mornas reúnem uma população Idosa, muita criançada e migrantes num convívio ao luar, onde a musica é rainha. Nesta Ilha estão duas das sete maravilhas do país cabo-verdiano, Monte Gordo e Carbeirinho.

Porto Preguiça

Porto Preguiça, aldeia piscatória, situada nas costa de S. Jorge, foi o principal porto de chegadas e partidas, mudando-se posteriormente para a vila do Tarrafal. Foi importante porto de baleação, a sua matriz urbana consta de um cais com farol, alfandega, correio, habitações coloniais, grandes armazéns, praça pública, igreja dedicada S. António dos Navegantes. Hoje é uma vila em fase de restruturação urbanística, na sua vertente de atração turística e total melhoria de vida para os seus escassos habitantes que se dedicam a uma pesca artesanal.

Nesta povoação há uma história de vida fabulosa de uma filha da terra, posteriormente emigrada para a Suécia, que se realçou como escritora e pintora autodidacta de elevado apogeu intelectual, Leopoldina Barreto (1937-2007), deixando o seu legado quer humano quer material disponibilizando o seu património como museu, casa da cultura ao município da Ribeira Brava para a arte, cultura, educação nesta ilha e de Cabo Verde. História de vida já documentada e reconhecida com o mais alto galardão cultural do País.

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