Democracia, liberdades e direitos humanos

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Por Nelson Faria

Num dos meus rituais, sentado a beber um café, ouço um comentário que declara “guerra” à democracia, à liberdade e aos direitos humanos”. Isto a propósito de um caçu-body violento que tinha acontecido na noite anterior.

Dizia o comentador do episódio, junto dos seus pares, que, com a moda da democracia, da liberdade de expressão e dos Direitos Humanos muitos criminosos julgam-se impunes. Ou mesmo que a punição compensa diante do crime cometido. Além do acto, condenava quem não pensava como ele, exaltando a voz, parecendo querer impor pelo tom de voz e pelas mãos o que não conseguia com os argumentos. Do muito que disse, registei uma passagem em que afirmou taxativamente: “Direitos Humanos deviam ser para quem se revelar Humano e nunca para os sacanas que dão cabo da vida dos outros. A moda da democracia, liberdades e direitos humanos veio estragar a forma de educar a sociedade e estes aldrabões. Mi ê k era bom…”

É verdade, é tentador esquecermos dos valores e ganhos sociais/civilizacionais, sobretudo quando nos toca a nós sermos vítimas de actos que nos ferem. Muitas vezes, no calor das emoções e paixões, cegamo-nos na raiva e na tentativa do linchamento ou de pagar na mesma moeda. É tentador ao ponto de alguns, como foi o caso, serem saudosistas de práticas ditatoriais, da tortura, da censura, da imposição das regras pelo medo, da sonegação das liberdades civis e jurídicas, da intimidação e mutilação do Homem por quebrar regras sociais. O mesmo acontece em muitas outras frentes, até pelo simples facto de não concordarmos com o outro numa mera opinião expressa. Infelizmente.

Claro que quem prevarica deve ser responsabilizado pelos actos que cometeu, mas nunca fora de um quadro jurídico-legal que, sim, proteja valores civilizacionais que melhoram a vida em sociedade, como a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Obviamente é fácil dizer isto não tendo sido vítima, mas, se não for por estes princípios e valores, como nos regeríamos? Ser tolerante é difícil nestas circunstâncias, porém é a parte que devemos trabalhar vivendo num regime democrático que propaga as liberdades e garantias assim como os direitos do homem, ao menos formalmente. Não há outro caminho.

Desafortunadamente, não foi a primeira vez e não foi somente nesse espaço que constatei práticas atentatórias à democracia, às liberdades e direitos humanos. Evidentemente a questão que se coloca a cada um de nós enquanto cidadão e á nossa democracia, considera a 33ª Mundial em 201 países no último estudo divulgado, é: até que ponto somos efectivamente democratas, livres e defensores dos direitos humanos? Até que ponto somos tolerantes e orientados por estes princípios? Ou, até que ponto somos intolerantes, defensores da censura/tortura e condenação arbitrária do outro?

Os ganhos da democracia, das liberdades e dos direitos humanos só podem ser consolidados. Não deve haver marcha atrás nesta sociedade, até porque não há outro caminho a seguir. Esta deve ser uma linha recta da nossa conduta. Permitindo-me ao paradoxo que pode parecer, a intolerância só deve ser exercida sobre os intolerantes destes princípios e valores. Respeito e responsabilização sempre, mas nunca, nunca, nunca a ditadura, a tortura, a censura, o delito de opinião e a condenação fora do quadro constitucional vigente. Directa ou indirectamente.

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1 COMENTÁRIO

  1. A democracia está no íntimo humano, na compreensão especialmente; não tirar a razão de quem tem para dar a quem não tem, não tirar o direito de quem tem, para dar a quem não tem, não fazer a alguém o que não gostávamos que nos fizessem, ter uma população com uma mente aberta onde, se entende que o Sr. Primeiro Ministro, o Sr. PR. O Sr.DR, o Sr. Engenheiro, o Sr.Director, o Sr. Varredor, o Sr.Pedreiro, são homens iguais, pessoas a quem devemos o respeito de igual para igual, não andar a bajular ninguém por causa do seu cargo ou profissão e, entender, como se costuma dizer que cada macaco no seu galho e, exigir a qq um que não esteja cumprindo com seu dever, que o faça, especialmente os cargos públicos que são pagos por nós os mortais e que em C.Verde não nos prestam contas, ficamos por saber se as receitas do estado são bem ou mal empregues e se os gastos são bem ou mal gastos. Tanto comparar C.V com outras democracias, entretanto, nunca tiveram tempo para conversarem com a população e dizerem; olha fizemos isso e aquilo. A única democracia que eu conheço em C.V, são as eleições que bem ou mal, fazem; já no comportamento, cada um anda por aqui mostrando e exibindo seus poderes e, ai de quem der um pio contradizendo suas decisões.
    Cabo Verde democrata? Inda no tem mute que bai.
    Viva a DEMOCRACIA

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