Democracia, s’bo tem bo ptá

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Por Nelson Faria

Num mundo em que cada dia vemos mais exemplos de intolerância, de afirmação dos extremos, onde o “fascismo” e “ditaduras” aparentam regressar democraticamente, insistimos em alimentar esta tendência… O que se pretende fazer com a democracia, com a razoabilidade, com o bom-senso, com o equilíbrio e ponderação que se espera da política e dos políticos?

Neste andar da carruagem, tomando exemplo grandes nações e países com poderes planetários, a democracia pode estar comprometida. Infelizmente. Mesmo que venha a ser a própria democracia a legitimar a sua extinção. Esperemos que não chegue a tanto. Mas… para lá caminhamos.

Óbvio que o que se assiste hoje é resultado, também, da falha da política e dos políticos ao longo do tempo na consolidação do sistema democrático. Por razões e interesses vários, a democracia foi comprometida. Dizia, bem, um orador numa conferência “deixemos de brincadeira em acreditar que a democracia é o poder do povo exercido pelo povo. Isto é ilusório. Dominam sim outros interesses corporativos ou conjunturais com a ilusão de se trabalhar para o povo.” Bem, se calhar por isso, do aproveitamento dos interesses por parte dos interesseiros interessados, o populismo, a demagogia, o fascismo, a fala que o povo quer ouvir e se identifica ganha outro fulgor. Resta-me um apelo: cuidemos da democracia, não da ilusão criada, mas sim da utopia que deve ser seguida: governação do povo pelo povo sendo os representantes meros intermediários nesta realização.

Como parte do mundo que somos, nestes dias ficou explícito que a nossa tão badalada “melhor democracia em África” não é nada mais nada menos que a partidocracia que defende os interesses políticos, e não só, das corporações. Se por um lado é verdade que estando dentro dos partidos existem regras e matéria em que o consenso para o exterior deve ser uníssono, existem outras em que também devem ser respeitadas as cabeças de cada eleito pelo povo assim como a vontade da população que representam. Mas, estou ciente que isto não é compreensível e muito menos aceitável no sistema partidocrático. O que foi aprovado, apesar de ainda longe da real necessidade do país e da sua gente, é um passo seguro que não há volta atrás. Sem esta certeza, esta discussão, que dura há muito, poderia durar até o dia de São Nunca. Foi apenas um primeiro passo na materialização, assim o entendi. Se calhar, os que viabilizaram tiveram a coragem de obedecer as consciências e os anseios da sua população. Se calhar tiveram uma visão estratégica e política além dos partidocratas. Por isso, meus parabéns aos que democraticamente e corajosamente souberam entender isto. Mas, aguardemos até a implementação da descentralização / regionalização, que esperemos para breve.

Vou mantendo a utopia que é possível seguir o caminho da democracia, da real democracia. Porém, olhando para o mundo e para a nossa terrinha, tenho de concordar que, se calhar, estou maluco e ainda não me dei conta. Democracia s’bo tem bo ptá, antes de aparecer um Mu(o)ro, um Messias ou outra trampa qualquer capaz de dar cabo disto tudo.

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