Desvio de enxurrada na Laginha criticada por biólogos: Enseada de coral condenada à morte

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Foto tirada logo após a chuva

A “rara e rica” biodiversidade marinha existente na enseada situada atrás da Electra está condenada a uma morte lenta por causa do desvio da água da chuva proveniente de Chã d’Alecrim para esse recanto, na sequência dos trabalhos de drenagem pluvial na praia da Laginha. O alerta foi lançado pelos biólogos marinhos Corrine Almeida e Evandro Lopes e pelo Eng. Electrotécnico Guilherme Mascarenhas, que prognosticam o desaparecimento de corais – e com eles mais de 300 espécies, como peixes raros, moluscos e algas endémicos, porco-espinho, lesmas e até tartarugas – devido a lama que certamente irá depositar-se em cima das pedras e no fundo. Para Evandro Lopes, essa rica vida marinha está sentenciada a desaparecer dentro de pelo menos cinco anos, se houver enxurradas sucessivas durante esse período de tempo. E, alerta, não se trata de uma perda qualquer, como muita gente poderá pensar, dada a “simplicidade” aparente desse “lago” localizado entre o esporão e antiga praia da Matiota.

“Prevejo a condenação dos corais porque a praia da Laginha vem sendo atacada de todas as formas, há vários anos. Até agora os corais conseguiram resistir, mas desta vez a situação é mais preocupante por causa da canalização das enxurradas directamente para essa pequena enseada. Enquanto noutras partes do mundo há países que gastam milhões de dólares para preservar os recifes – por serem poucos a nível mundial – nós estamos acabando com aquilo que temos”, desabafa Lopes. Para ele, colocar a tubagem nessa enseada foi como que encostar uma pistola à cabeça desses seres marinhos. No caso dos corais, explica, será uma morte triste. Como explica, a estrutura dispõe de uma espécie de cálice onde vive um pequeno pólio – anémona. “Ora, a lama vai tapar a cálice, como se enchêssemos uma caneca com areia, e impedir a sua fuga.”

O temor dos biólogos começou a concretizar-se já nas chuvas do dia 6 de Setembro. Imagens captadas por Guilherme Mascarenhas mostram a água dessa piscina toda castanhada, com lixo e peixes mortos a boiar. O próprio biólogo marinho Evandro Lopes visitou o local, mas não arriscou entrar no mar. Como relembram essas duas fontes, antes esse sítio recebia água da chuva, mas em quantidade residual, em comparação com o cenário actual.

“É certo que vamos perder essa grande riqueza, e sem razão. Quando a enxurrada ia para a parte central da praia podia ficar suja umas duas semanas, mas depois a corrente ajudava a limpar a água. Nessa enseada não há saída, o lixo vai-se depositar no fundo e matar os corais, tal como aconteceu na Baía das Gatas. Seguro!”, comenta Mascarenhas, um curioso que adora fazer mergulhos de pesquisa, em particular nessa enseada, em colaboração com biólogos marinhos. Do trabalho feito até agora conseguiu identificar 307 espécies de seres vivos nesse pequeno spot, que sempre manteve uma água cristalina. Esse ponto, diz, é um local de desova e berçário de várias espécies, alberga uma representatividade considerável da biodiversidade marinha cabo-verdiana, sendo por isso um “importante laboratório” para o conhecimento da fauna e flora. Isto sem contar com o facto de servir para a educação ambiental das crianças, por causa das suas águas transparentes e calmas.

Em termos ilustrativos, esse professor revela que já encontrou nessa zona um terço dos peixes vistos em Cabo Verde até a profundidade dos 60 metros. Além disso descobriu nesse local os quatro tipos de porcos-espinhos e lagostas de raso existentes no arquipélago. “Há 23 espécies endémicas de peixe em Cabo Verde e 15 delas vivem na Laginha, como tainha preta, ‘mané cabeça’, bidião carnaval, etc. É um sítio rico, sem dúvida”, afirma Mascarenhas, salientando que a casa de água construída pela Electra junto a Trampolim acabou por servir de abrigo a peixes e moluscos, alguns típicos dessa zona.

Para a bióloga marinha Corrine Almeida, o ideal seria que a água da enxurrada fosse obrigada a desaguar para lá do esporão, onde pode ser levada depois pela correnteza. Como diz, nesse ponto há mais hidrodinamismo e essa solução, conta, foi inclusivamente indicada à Enapor em dois encontros realizados entre os referidos biólogos marinhos e a empresa de administração portuária, enquanto financiadora da obra. Porém, explica, a Enapor mostrou-se sensível a essa questão, mas ressalvou, por outro lado, que seria tecnicamente difícil estender a tubagem até a ponta do esporão, por causa da cota – além dos custos que isso acarretava. “Este é um aspecto técnico que nos ultrapassa. Tudo indica que o melhor momento para se fazer essa canalização era durante a construção do esporão”, diz Corrine Almeida.

Menos “dramática”, esta bióloga não prognostica obrigatoriamente a morte da vida marinha nessa espécie de piscina. Como relembra, essa zona foi sempre fustigada pela poluição proveniente da Electra e da Cabnave e os corais conseguiram sempre sobreviver. Refere, aliás, que não há um estudo do impacto ambiental das enxurradas nesse recanto. “Mas é óbvio que a concentração de lixo, lama e água doce pode afectar a sobrevivência dessa biodiversidade, que é realmente muito rica. E devemos levar em conta que Cabo Verde tem poucas zonas de coral pelo que é nosso dever proteger as que existem. E estamos no caso a falar de uma zona de águas calmas e cristalinas localizada praticamente na cidade, o que lhe agrega ainda mais valor”, salienta Almeida, que lamenta o facto de não se ter ouvido a opinião de um biólogo marinho antes de se fazer o projecto. Na sua perspectiva, apesar das dificuldades de engenharia levantadas pela Enapor não lhe parece que fosse impossível levar a tubagem mais para o largo, em nome da defesa da natureza. Para ela, parece claro que a grande preocupação dos engenheiros foi desviar a lama do areal da praia.

Segundo os nossos entrevistados, quando souberam da intervenção na praia da Laginha já era tarde. Mesmo assim solicitaram um encontro com a Enapor e a Câmara de S. Vicente, mas que não surtiu os resultados esperados, apesar da sensibilidade demonstrada pelos representantes da empresa e da edilidade. Refira-se que este jornal tentou ouvir estas duas entidades, mas os pedidos de reacção enviados à Enapor não surtiram efeito, enquanto o vereador responsável pela obra não atendeu às nossas chamadas, talvez por estar neste momento de féria. Mesmo assim, Mindelinsite continua disposto a ouvir a Enapor e a CMSV caso estejam interessadas a falar do assunto.

Kim-Zé Brito

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3 COMENTÁRIOS

  1. Uma autentica vergonha….gentes deMindelo mostrem a vossa indignacao…a melhor praia citadina de Cabo Verde a ser cintinuamente destruida…divulguem e se faca uma concentracao na praia…via facebook vamos la minha gente..!!!!

  2. Como é possível fazer uma obra dessas numa zona tão sensível, porque trata-se de proteger uma praia de grande valor para esta Cidade e onde existe uma biodiversidade marinha importante, sem a intervenção do Ministério do Ambiente e que tem um representante aqui em São Vicente?! Quem autorizou a obra? Quem se responsabiliza pelos elevados prejuízos? Onde param os nossos Deputados? Não podemos continuar a ser governados desta maneira.

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