Djibla: “O destino fez-me fotógrafo e comunicador”

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Daniel “Djibla” Mascarenhas é uma figura incontornável da história recente do Mindelo, que registou minuciosamente através das lentes das suas máquinas fotográficas. Curiosamente, o seu sonho nunca foi a fotografia.“O destino fez-me fotógrafo e comunicador, numa altura em que sequer sabia o que isso significava”, revelou este cidadão de múltiplos ofícios, nascido no Maio há mais de sete décadas, mas que se identifica como mindelense.

Em entrevista ao Mindelinsite, concedida a partir da cave da sua casa onde durante muitas décadas “queimou” as pestanas para reproduzir as gentes, paisagens e histórias desta ilha, Djibla conta que veio para São Vicente aos quatro anos porque o pai, então funcionário público, foi transferido para trabalhar na Alfândega do Mindelo. “Chegamos e fomos morar na Rua d´Praia, bem de frente para o mar. Tive uma infância normal, só comecei a ser conhecido quando fui para o Liceu. Nesta altura, praticava caça submarina, onde me destaquei porque ganhei um campeonato local e fui participar no campeonato do mundo, enquanto integrante da equipa internacional de Portugal”, diz, realçando o facto de ser o criador dos equipamentos necessários, óculos de mergulho, espingarda e outros.

Se já não bastasse este feito, integrava um grupo de sete rapazes que também se destacavam em outras modalidades desportivas – boxe e salto em altura -, o que os impulsionava entre os colegas. “Destacávamos porque fazíamos coisas interessantes a nível do desporto e também porque eu era ainda o organizador dos bailes do liceu. Por isso, hoje muitas pessoas do meu tempo estranham porque já não frequento festas. Mais tarde, ganhei uma máquina fotográfica e comecei a fazer fotos das nossas actividades e dos meus colegas, sobretudo das meninas, o que me ajudou ainda mais”, frisa.

Esta “prenda” marcou a sua vida. Tirava fotos de tudo e todos. Muitas vezes os amigos ajudavam a pagar as revelações no “Nhô Djunga”, que analisava o material, corrigia os erro e davas-lhe dicas para melhorar. Ganhou definitivamente o gosto pela fotografia. “Arranjei uma máquina melhor, que parecia um caixote – tenho ainda na minha loja um exemplar muito parecido – e comecei a tirar fotos para os meus colegas e a cobrar alguns trocos para cobrir as despesas com rolos e revelação. Comecei a ter algum rendimento e vi que tirar fotografias poderia ser um bom negócio”.

Entusiasmado, decidiu montar uma câmara escura na casa dos meus pais na Rua d´Praia para revelar suas fotos com maior rapidez. A procura ainda não era muita – concorria com grandes nomes como Foto Melo, Nho Djunga e Papim – mas começava a granjear clientes, sobretudo entre os mais jovens. Arranjou uma pequena moto e com ela calcorreava a cidade a foto. Também já ia à vizinha Santo Antão fazer fotos de baptizados e casamentos.

Serviço Militar

O serviço militar obrigatório quase que pôs um travão na sua pretensão de ser fotógrafo. Esteve quatro anos em Portugal na tropa. Depois foi colocado em Angola e a fotografia ganhou nova dimensão na sua vida. “Na bagagem levei todo o meu equipamento fotográfico. Logo que cheguei em Angola comecei a fazer fotos. Como era amigo do quarteleiro, ele me emprestou sacos de dormir e tendas, com que improvisei uma câmara escura”, conta.

Mas o melhor ainda estava por vir. Colocado no Gabinete de Estudos e Planeamento da sua companhia, um dia ouviu uma conversa entre um sargento e um tenente, que diziam precisar de fotografias urgentes para anexar a documentos e outros materiais sobre a guerra colonial. “Fui procurar o sargento e me ofereci para fazer as fotos. Meteram-me num jeep e fomos para a cidade comprar materiais e montamos uma câmara escura numa prisão desactivada. Num ápice fiz e revelei 72 fotografias e fui colocar na mesa do Major. No dia seguinte não cabiam em si de contentamento”.

A partir desta data, afirma, tornou-se o fotógrafo oficial da companhia. Fazia fotos de todas as cerimónias oficiais e também para os documentos dos soldados, que também a título pessoal solicitavam os seus serviços para enviar fotografias “armados” para as namoradas, madrinhas de guerra, familiares, de entre outros. O dinheiro que ganhava, e não era pouco, enviava para o irmão guardar em Portugal. Foi com esse dinheiro que, depois de concluir o serviço militar obrigatório, montou a sua loja.

“Quando cheguei o meu pai perguntou-me se ia concluir o 7º ano e ingressar no curso de medicina. É que deixei algumas disciplinas por fazer porque quando fui recrutado estava em pleno exame.Disse-lhe logo que tinha passado muito tempo e já não tinha interesse em continuar a estudar. Ele ainda tentou que eu participasse de um concurso para a Alfândega, que era então um serviço público de grande prestígio, mas também recusei”, pontua, realçando o desapontamento do pai por ter optado pela fotografia.

Arquivo vivo

Hoje Djibla é um dos poucos que possui testemunhos da vida dos mindelenses e dos principais acontecimentos que marcaram esta ilha. Os seus arquivos são consultados com regularidades por alunos das universidades, que aproveitam para extrair-lhe muitas informações sobre São Vicente de outrora. Também é procurado por clientes ou descendentes destes interessados em resgatar fotos antigas. “Tenho milhares de rolos de fotos no meu arquivo. Estão todos devidamente numerados e datados, pelo que é fácil localizar qualquer fotografia. Tenho ainda livros, organizados por ordem alfabética, de todas as pessoas que fotografei e de acontecimentos importantes. Por exemplo, tenho fotos da actuação de Miriam Makeba no Éden Park, que aconteceu há mais de quatro décadas. Penso no futuro montar um museu de fotografia na ilha de São Vicente”, diz, entusiasmado.

Para além dos rolos de fotos tirados desde 1968, Djibla guarda todas as máquinas fotográficas utilizadas ao longo dos anos, equipamentos para lavar e secar fotos, ampliadoras e até papel fotográfico, que já não se usa.

Montra d´bonê

Mas as fotos que Djibla fazia não era apenas para consumo individual. A montra da sua loja, na Rua São João, é famosa por divulgar os principais acontecimentos da ilha, do país e do mundo. Os mindelenses habituaram-se a passar pela loja para saber as últimas novidades, numa altura em que os jornais eram poucos e ainda não existia internet e nem as redes sociais.

“Era chamado para testemunhar os acontecimentos da ilha e as pessoas me tratavam sempre com carinho. Por isso decidi retribuir de alguma forma, partilhando informações com o público. Também recebia colaborações dos mindelenses, por exemplo, muitas vezes fui acordado de madrugada por pessoas que iam me avisar que tinha havido um acidente. Levantava e fazia fotos, que no dia seguinte amanheciam expostos na montra da loja”, realça.

Mas essa “ousadia” acabou por trazer-lhe alguns dissabores. Djibla lembra, em jeito de exemplo, que chegou a ser ameaçado uma vez quando o Mindelense foi jogar em Portugal e perdeu por 21×0 porque colocou muitas fotografias e cartazes com alguns comentários relatando o “desastre”. Também acabou por despertar a atenção da PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado Novo (Portugal) porque contratou um funcionário que tinha sido despedido da ex-Congel por discordar das políticas de então à revelia das autoridades portuguesas. Por causa disso, todos os dias os agentes “batiam ponto” na porta da sua loja para certificar a entrada e saída do funcionário. Situação que ficou ainda mais tensa após a prisão e fuga de Luís Fonseca, ex-Combatente, e porque era vizinho de Dante Mariano, que também contestava e muito o regime colonial.

Após a independência de Cabo Verde, tornou-se um crítico acérrimo do PAIGC, não obstante ter muitos amigos nas fileiras do partido. “Não sou político, mas não gosto de ver as pessoas a fazerem coisas desnecessárias. De início aproximei-me do PAIGC, mas senti alguma resistência e fiquei no meu canto. Mais tarde começaram a fazer muitas asneiras, então criticava. Dizia-lhes que correram com os tugas e estavam a fazer pior. Mas também critiquei o MpD, apesar de ter alinhado com este partido desde o primeiro momento”, justifica, acrescentando que chegou a ser eleito deputado nacional. Também esteve com o Onésimo Silveira em determinados momentos. Mas, diz, acabou por perceber que as vezes “deixamo-nos enganar” por pessoas de confiança.

Precursor das transmissões televisivas

Sempre irrequieto, Djibla acabou por ser um dos pioneiros das transmissões televisivas em São Vicente, numa altura em que o número de pessoas que tinham televisão nesta ilha contavam-se aos dedos de uma mão. Alguns viam programações das Canárias e do Senegal, outros deslocavam ao Monte Verde para acompanhar os jogos, inclusive muitos jovens faziam este percurso a pé para espreitar. “Procurei alguns técnicos da rádio para saber se era possível transmitir e dar assim oportunidade a outras pessoas de verem televisão. Infelizmente não mostraram interesse. Entretanto, chegou a São Vicente um especialista francês para reparar uma antena. Questionei-o sobre a hipótese de montar um retransmissor e ele disse-me que era possível. Então recolhi 500 escudos junto de algumas pessoas – juntamos cerca de 50 mil escudos – e compramos um retransmissor. Montamos o equipamento e começamos a transmitir”.

Para Djibla, a satisfação de poder transmitir programas de TV foi enorme. Aliás, a expectativa era tanta que, antes mesmo de descerem do Monte Verde, mandaram avisar algumas pessoas para ligarem os seus aparelhos. Já ele e o cidadão francês tiveram de parar na zona do Lameirão e ligar uma pequena TV que traziam no carro, tanta era a impaciência. Anos mais tarde, voltou a aparecer em outros projectos de comunicação, sendo o mais recente a Rádio Morabeza, de que é um dos fundadores. Também é proprietário de uma óptica e de um residêncial.

“Fiz tudo isso porque sempre contei com o apoio incondicional da minha família. Muita gente pensa que comecei a transmitir TV porque queria ver jogos dos campeonatos internacionais. Nada disso. O futebol nunca me atraiu. Queriam sim dar a oportunidade a toda gente de ver televisão. Basta ver que quando comprei uma parabólica, coloquei uma pequena televisão na varanda da minha loja para que toda a gente pudesse ver”, afirma esta figura do Mindelo, para quem a sua satisfação é a alegria dessas pessoas. “Não sou católico, mas fiz a minha parte”, conclui.

Constânça de Pina

Foto: Ronaldo Barbosa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Grande senhor Djibla… Obg MindelInsite por dar o devido destaque as FIGURAS de São Vicente/Mindelo q fazem e fizeram desta cidade ,o que ela é hj.

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