Edson “Sampê” Oliveira: “Nunca vivi de música. Mas música sempre foi meu sonho”

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Edson Oliveira, ou apenas “Sampê” como é conhecido este jovem mindelense, dedica o seu tempo a mostrar Cabo Verde, através da música e dos serviços de guia turístico. São Vicente sempre foi sua inspiração, sua casa e viver noutras paragens não é opção, mesmo sabendo que a sua vida profissional na música poderia ser diferente. Inclusive chegou a desistir da carreira de professor de inglês, porque foi chamado para leccionar noutra ilha.

“Tive muitas oportunidades, mas nunca equacionei sair de São Vicente. Esta ilha era a minha base para me desenvolver na música. Mesmo neste momento em que as condições não são o que eram, produzimos bons artistas”, explica o cantor de Cruz João Évora, que diz nunca se ter arrependido da decisão de ficar.

Fez-se artista numa altura em que São Vicente foi considerado “capital da cultura” e, por isso, exigia muito dos artistas. O ambiente musical das noites do Mindelo fez com que estivesse em contacto com artistas como Bau, Chico Serra e outros, que o ajudaram a encontrar a sua “essência” na música tradicional. “Os mais antigos mostraram-me que a música tradicional não é abrir a boca e cantar. Ensinaram-me a cantá-la e o seu valor mais profundo.”

Sampê sente que o seu caminho na música foi acontecendo naturalmente, apesar de se ter esforçado muito, como as vezes que passava mais de seis horas a praticar. “Naquele tempo ganhava-se muito com a música em São Vicente, mas o ambiente era exigente. O público exigia qualidade no trabalho e isso fazia com que o esforço e a dedicação dos artistas fossem maiores”, explica com nostalgia.

Antes das noites cabo-verdianas, a sua zona, Cruz João Évora, também facilitou o seu apego à música, que acompanha a sua vida desde muito cedo. Mas imaginava que se iria se transformar num desportista, uma vez que jogava andebol. Um acidente de viação interrompeu os planos de Sampê no andebol e direcionou-o para outros sonhos escondidos, guiado pelo talento.

No início, tocava como hobby. Depois de concluir o liceu passei dois anos sem estudar. Sentava-me na praça com meus amigos e, por vezes, as quatro horas da madrugada apanhavam-me a tocar e a cantar”, explica. Da praça para os palcos, Oliveira aproveitou as actividades que aconteciam na vizinhança para dar o passo num caminho que não pondera deixar: o da música. “Não subi. Fui empurrado para o palco por amigos, numa actividade na minha zona. Depois disso passei a cantor oficial das atividades da Cruz”, diz em tom de brincadeira.

Como artista, já subiu aos maiores palcos em Cabo Verde. Também já pisou outros, além-fronteira. O seu estilo eclético ou polivalente na música, aliado ao seu gosto por desafios, fazem com que migre com facilidade do tradicional para o reggae ou para outros ritmos como o carnavalesco. “Não me via a cantar reggae, até ser convidado a integrar como vocalista a banda Dub Squad, que depois se transformou em Domu Africa.

O seu à vontade na morna e no reggae passou a ser notório. Se ao interpretar mornas “sentia”, com o reggae “libertava-se”. Começou a colecionar seguidores nos diferentes estilos e de diversas partes do mundo devido igualmente ao seu trabalho de guia. Nesse processo de se achar como artista, diz ter percebido na morna a sua inspiração e no reggae a sua vibração.

Por outro lado, e apesar dos 10 anos a interpretar músicas do carnaval do grupo Cruzeiros do Norte, este artista não se sente cantor de músicas do carnaval. Aliás, afirma que foi o grupo de Cruz João Évora que fez com que “o bichinho do carnaval” nascesse e crescesse. Hoje é fã desta festa.

Com a recente viagem ao Brasil, Edson Oliveira regressou com a ideia de investir na apresentação do carnaval como um produto turístico, o ano inteiro, nos seus serviços de guia. Para além disso, Edson Oliveira com trinta e seis anos de juventude, nutre também o sonho de gravar um CD a solo. Sente que este é um sonho que vai adiando. “Não quero gravar só por gravar. No dia em que o fizer, as pessoas podem ter a certeza de que vão ter um trabalho com qualidade e que me mostre assim como sou”, promete.

Sidneia Newton (Estagiária)

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