Élida Paris: “ Sempre quis ser diferente”

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Élida Paris Silva – “Elly Paris” – é uma jovem universitária do ramo da criminologia, que escolheu a música como objectivo principal na sua vida. Aos 21 anos, esta jovem começa a fazer sucesso no arquipélago, que se estende para a diáspora, tendo inclusive actuado em Luxemburgo. Com mais de 30 mil seguidores no Instagram, Elly se sente vitoriosa. Dona de um espírito inovador, diz que “o seu sonho está a frente de qualquer livro ou caderno”.

                                              – Por Daisy Aleixo –

As pessoas confundem muito uma mulher solteira e uma mulher solitária”.

Está a ganhar uma grande popularidade, sobretudo entre os jovens residentes e também na diáspora. Diz-nos como a música entrou na sua vida?

– Eu nasci a cantar. Não me lembro de mim sem cantar. Quando eu era criança subia numa chapa rectangular, na porta da minha casa e começava a cantar. As pessoas que passavam na rua diziam “meu Deus essa menina é estranha” (risos).

– Tiveste muitas Influências? Quais, por exemplo?

-Se calhar eu tive uma influência genética e não social. Mas a influência, se aconteceu, foi inconsciente. Eu sempre quis espelhar-me em mim mesma.

– Começaste a cantar a pouco tempo, mas vives da música?

-Neste momento, acho que estou muito bem posicionada financeiramente em relação a muitos jovens da minha faixa etária.

– Para além de cantar, também escreves as tuas músicas, ou seja, és compositora?

-Sim. Todas as músicas que canto, fui eu quem escrevi as letras, excepto as que têm a participação do cantor “ Bangstar”.

– As tuas músicas resultam da sua experiência de vida ou são temas do quotidiano?

– Depende. “Pensa na bo” e “Lembranças” são experiências de vida. Outros temas, como por exemplo “Conde” e “Ninguém t manda na mi” são minhas opiniões. As vezes eu me transformo num sujeito que não existe, mas que dá vida a esses temas musicais.

Você não precisa sonhar em casar, ter filhos e ser a mulher convencional”

– Teu estilo musical é uma chamada de atenção para o público ou é um estilo próprio?

-Os dois! Acreditas? Eu mostro muito da minha personalidade nas minhas músicas. Sinto que tenho uma personalidade muito forte e quero incentivar os jovens para que possam olhar a realidade que os rodeia de outra forma. As vezes é preciso um pequeno empurrão. É assim que sou. E quero ” impor” os jovens esse espírito revolucionário.

– Nas tuas músicas percebe-se que queres libertar alguma coisa. É isso mesmo?

– São sentimentos que tenho dentro de mim e que quero partilhar. Quando escrevo uma música, sinto que visto o personagem e vivo aquele momento. Muitas coisas estão erradas no mundo. As pessoas vêm, mas não conseguem falar sobre isso. Penso que cada um tem direito a sua liberdade e a agir da maneira que bem entender.

 – Como é ser “a sensação” do momento junto da camada jovem em Cabo Verde?

– Fico lisonjeada e honrada. Não consigo explicar melhor este sentimento. Mas não me considero “a sensação”. Tenho ainda muita tanta coisa para conquistar. É verdade que muitos artistas em Cabo Verde deram e continuam a me dar força. Pedem-me para seguir a trabalhar, pois dizem que tenho futuro e que foi assim que começaram também.

-A fama “repentina” mudou alguma coisa na tua vida ou continuas a mesma de antes?

-É claro que mudou. Por exemplo, a minha forma de ver o mundo mudou, mas os meus valores e a minha educação continuam os mesmos. Ganhei mais mágoas, experiências ruins e também boas. São coisas da vida mesmo. Não há como uma pessoa ficar igual quando ela passa por traumas. Hoje sou diferente de ontem. Temos de crescer.

“Se reparares, na sociedade o que é dito de uma mulher de respeito e um homem de respeito são coisas totalmente diferentes”.

 – Protagonizaste o primeiro beijo homossexual na história do vídeo clipe cabo-verdiano. Como sentiste ao transmitir uma mensagem que muitos não conseguem, por estarem reprimidos?

-Depois da música “Conde” ganhei respeito de muita gente, principalmente dos adultos. Não sei se sou a primeira artista cabo-verdiana a colocar um beijo homossexual no seu vídeo clipe. Sou a primeira a ser ela própria a dar um beijo homossexual. No início tive medo. Mas esse medo nunca me fez perder o brio. Sei que é impossível agradar a todos. Houve pessoas que me felicitaram pelo trabalho, principalmente os homossexuais. Mas também houve criticas. Pessoas que tentaram justificar o seu preconceito com a palavra de Deus. Digo que em nenhum lugar está escrito que a homossexualidade é errada.

 -A pouco tempo lançou a campanha “Ninguém t manda n mi”. Com base em quê iniciou esta campanha?

-É uma campanha baseada no feminismo porque a mulher é rotulada demais. Pelo simples facto de usar roupa pequena já é criticada. É prostituta. Se veste uma roupa comprida é santa. Entendo que a personalidade de uma mulher não tem nada á ver com a sua roupa. Para muita gente, estar bem vestida, é estar com uma roupa “comportada”. Penso que uma mulher não precisa casar, ter filhos e ser convencional. Posso muito bem chegar aos 80, com a minha bengala na mão e estar na porta do Caravela para dançar. Também posso chegar aos 80 anos sem filhos e netos. As pessoas confundem uma mulher solteira como sendo solitária. Se reparares, na sociedade o que é dito de uma mulher de respeito e um homem de respeito são coisas totalmente diferentes.

    “Ne mund de música, ê mas difícil bo mantê do qui bo entra”

 -Como te sentes ao ver pessoas mais velhas aderindo a campanha que criaste?

-Na minha idade e com tão pouca experiência profissional já consegui cativar cantores que estão aqui há muitos anos. Isso quer dizer que estou no caminho certo.

-A poucos meses surgiram notícias de que as “Divas Paris” iam seguir carreiras a solo? Algum desentendimento ou foi uma opção seguirem caminhos diferentes?

-Foi minha decisão terminar o grupo por motivos internos. Percebi que tínhamos objectivos e empenho diferentes. Djarilene é uma pessoa mais calma. Eu sou de ir a luta. Segundo ela me disse, neste momento está com dúvidas a cerca da sua carreira musica e do que ela quer para o futuro. Acho que era altura de cada um seguir o seu caminho.

-Quem é Élida Paris?

-Sou meiga e determinada. Esforço-me muito por aquilo que quero. Sou muito amiga e companheira. Sou extremamente sincera e orgulhosa. Sou desorganizada. Ssou muito esquecida e humilde. Sinto que sou tão simples, que nunca disse e nem pondero dizer “não vou entrar naquele estabelecimento porque as pessoas são menos do que eu”.

-O que significa sucesso para ti?

-Para mim, é conseguir alcançar o “sucesso” internacional. E, quando eu chegar nos Estados Unidos, na Noruega ou Inglaterra as pessoas me conhecerem (gargalhadas).

-Que mensagem deixas aos jovens da tua idade, sobretudo sobre seguir seus sonhos? -Vou dizer uma frase cliché: “Nunca desistir”. Tive muito medo de não vencer, mas estou a conseguir. Por isso, sempre digo as pessoas para defenderem as suas ideias e pensar no próximo. Tentem usar a força que tem na sociedade para algo positivo.

  • Aluna do Curso de Ciência de Comunicação – Universidade Lusófona Baltazar Lopes

 

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