Elisabeth Salguero, ex-ministra da Cultura da Bolívia: “A democracia não é possível sem a participação efectiva das mulheres nos cargos de decisão”

85

A convite do ICIEG trouxe a Cabo Verde a experiência da Bolívia, país que alcançou a paridade no Parlamento num movimento sociopolítico que aliou as comunidades indígenas e mulheres da cidade e contou ainda com o apoio dos homens e da imprensa. Para Elisabeth Salguero, ex-ministra da Cultura e do Turismo, Cabo Verde também pode almejar ver na Assembleia Nacional 50% de deputados e a outra metade composta por mulheres se souber aproveitar o facto de ser um país mais pequeno, menos populoso e possuir uma única língua, em contraponto com os 33 idiomas existentes na Bolívia e a extensão deste país. Segundo essa jornalista e ex-funcionária da ONU, graças a essa espécie de “revolução feminina”, o seu país conseguiu aprofundar e “humanizar” a democracia. Hoje, diz, a política boliviana está a combater a ideia de que só os diplomados são capazes de representar o povo no Parlamento e ocupar cargos na função pública.

 

Mindelinsite – Como a experiência da Bolívia, que conseguiu uma paridade de 50 por cento homem/mulher no Parlamento, pode ajudar Cabo Verde a atingir esse mesmo objectivo?

Elisabeth Salguero – Estamos felizes por partilhar a nossa experiência e podermos contribuir para a preparação e provável aprovação de uma lei da paridade em Cabo Verde. Na Bolívia foi um processo muito participativo e actualmente, graças à lei da paridade, conseguimos aprofundar a democracia. O país fez isso incorporando a outra metade da população, que são as mulheres. Uma democracia não é possível sem a participação efectiva das mulheres porque somos a metade de cada povo. Aqui em Cabo Verde os homens são 51% da população e as mulheres 49 por cento pelo que não é possível falar da democracia se as mulheres não estão incorporadas em toda a cadeia de decisão na função pública e nas empresas privadas. Os homens têm uma visão do mundo e as mulheres têm a sua. Nada melhor que trabalharem juntos numa lógica de complementaridade. Viemos partilhar a experiência boliviana, pois pensamos que Cabo Verde é um país que, graças a outras medidas como a lei contra a violência doméstica e o sistema de cuidados, pode permitir uma maior participação feminina nos destinos do país.

MI – Quais têm sido as vantagens concretas das conquistas da classe feminina no âmbito politico e na própria diversidade de vozes e olhares na Bolívia?

ES – Mulheres das diversas regiões puderam contribuir com a sua participação na conquista da paridade com propostas de lei concretas. Numa outra conjuntura não seria possível a aprovação dessas leis sem a presença das mulheres no Parlamento. Posso referir-me às leis contra a violência e o tráfico de pessoas, sobre o seguro básico da saúde e o acesso à educação de homens e mulheres…; a verdade é que, por estarem muito ligadas às famílias, as mulheres agem pensando sempre no melhor para as comunidades e incorporando benefícios para todos. Deste modo, dar espaço às mulheres na política significou grandes avanços nos projectos sociais e nos benefícios económicos que recebem sectores vulneráveis como a infância, a terceira idade, pessoas deficientes… Por terem uma maior sensibilidade social, as mulheres pensam mais no bem-comum.

MI – Houve uma maior humanização da política na Bolívia?

ES – A democracia ganhou uma cara mais humana e uma perspectiva de abordagem diferente.

MI – A Bolívia é um país vasto, possui 33 idiomas, pelo que lhe pergunto como fizeram para estabelecer essa rede de comunicação e sensibilizar pessoas tão diferentes, mas que sentem na pele os mesmos problemas?

ES – Foi um processo muito rico no qual as diferentes organizações de mulheres encetaram a participação de todas as comunidades. Neste sentido foram sistematizadas propostas das mulheres de baixo para cima, e não ao contrário. Nessa demanda demos conta de uma união entre as mulheres da cidade e do mundo rural porque houve uma coincidência dos propósitos que era lutar contra a violência, ter acesso a postos de decisão, conquistar direitos sexuais e reprodutivos, enfim, todas estavam sintonizadas. Nesse processo, os órgãos de comunicação social cumpriram um papel crucial porque, para chegarmos ao último recanto do país, contamos com a aliança e o compromisso importante dos jornalistas e das rádios comunitárias, que divulgaram informações e as propostas. E o importante é que havia retorno das organizações das mulheres.

MI – Foi fácil envolver a comunicação social nessa luta uma vez que, como reconhece, havia uma discriminação da mulher boliviana na imprensa?

ES – Claro que os periodistas são homens e mulheres que também enfrentam as desigualdades nas diferentes temáticas. Mas felizmente que essa aliança funcionou, assumiram o seu compromisso de fazer conhecer as demandas e difundi-las por todo o país. Em muitos casos difundiram as nossas campanhas grátis, fazendo conhecer as propostas das mulheres.

“Revolução” feminina

 MI – Durante quanto tempo decorreu essa espécie de “revolução feminina”, quando começou, qual foi o clique que despertou esse processo?

ES – São processos sociais acumulados, mas tudo começou em 2006 com a convocatória para a assembleia constitutiva. Houve, no entanto, alguns itens históricos fundamentais como por exemplo quando oito mulheres lograram questionar o sistema, quando já em 1979 o nosso país teve uma mulher na presidência. De 2006 a ’09 ocorreu um processo participativo de consulta e elaboração das propostas para a nova Constituição. Uma vez que tínhamos direitos na nova Constituição, o desafio seguinte era converter os artigos em políticas públicas. E assim foram aprovadas leis graças a participação paritária das mulheres no Parlamento. Se não estivessem no Parlamento não seria possível aprovar todas as leis que actualmente conformam os avanços das mulheres.

MI – Reina a ideia de que um deputado ou um senador deve ser alguém com formação superior ou que tenha uma experiência política relevante. No caso da Bolívia conseguiram envolver as comunidades indígenas, pessoas com baixa escolaridade, mas detentoras de uma grande experiência de vida. Como tem sido a adaptação dessas mulheres na esfera política?

ES – Tem sido uma experiência e um processo de aprendizagem muito interessante, porque, assim como a sociedade está constituída por diferentes sectores e movimentos sociais, na Bolívia o governo de Evo Morales aliou-se com representantes de todos os estratos sociais: mineiros, sindicatos de trabalhadores, organizações de mulheres, enfim cada um dos vinte sectores levou um representante e rompeu com a ideia de que os eleitos parlamentares devem ser os meritocratas. Chegaram mulheres e homens de diferentes estratos sociais, muitos sem nenhuma formação académica. Suscitaram uma mudança estrutural no país porque levaram ao Parlamento uma experiência da vida quotidiana que é a sabedoria popular. Foi um complemento interessante, uma junção de vozes de intelectuais com a sabedoria popular. Actualmente, o nosso Parlamento reflete a diversidade do país e todos os sectores aportam aos interesses da maioria da população porque estão presentes nos cargos de decisão.

MI – Essa conquista das mulheres representava uma perda de privilégios dos homens. Por isso lhe pergunto qual foi a reacção dos homens quanto à pretensão das mulheres de exigir um Parlamento paritário?

ES – Como toda a mudança que implica uma transformação profunda e perda de certos privilégios houve resistências marcadas pela ridicularização das propostas das mulheres, questionamentos sobre a capacidade delas em assumir certas funções e muitos perguntavam quem iria ficar em casa com as crianças para as mulheres se ingressarem na política; enfim, laivos de machismo. Mas pudemos contar com a aliança de muitos homens que em toda a sua vida conviveram com mulheres líderes como as suas mães, tias e irmãs. Na vida de todos os homens costuma haver mulheres valiosas. Não nos esqueçamos que os homens nasceram de mulheres e no seu processo de crescimento convivem basicamente com a mãe.

 Encontro com o machismo

 MI – Nascemos das mulheres e são elas que nos educam, no entanto há homens que depois chegam a um ponto da sua caminhada em que se tornam actores de um sistema machista que maltrata as mulheres. Como vê esse comportamento?

ES – O que se passa é que há diferentes agentes de socialização. Os seres humanos são educados e formatados por diferentes grupos e instituições. Podes ter aprendido em casa a respeitar a tua mãe e irmãs, mas pelo caminho surgem os grupos de amigos, a escola, a universidade, as redes sociais, os meios de comunicação social, as associações e muitos desses meios infelizmente são machistas. Temos que trabalhar e ir sensibilizando na educação para que os valores não se percam. Reforçar os bons valores para que entrementes o filho não se transforme num machista e possa prejudicar os direitos das mulheres. É um trabalho duro, um desafio para toda a sociedade. Temos de democratizar a sociedade e entender que não tem de haver uma dominação do homem sobre a mulher e que somos todos vítimas de um sistema patriarcal. A culpa não é do homem nem da mulher, mas de um sistema que nos educa nesse sentido e temos de desmontar muita coisa nas escolas, na imprensa, etc.

MI – Na verdade, o alvo principal dessa campanha a favor da paridade são os partidos políticos, porque eles é que têm o poder de dominar o Parlamento e apresentar as listas à votação nas campanhas. E sabemos que escolhem quem querem e obrigam os eleitores a legitimar os seus candidatos através do voto. Quando procuram mobilizar a comunicação social no fundo a vossa mensagem é mais para os líderes das organizações políticas ou a sociedade no geral?

ES – É para toda a sociedade, em primeira mão. É evidente que precisamos sensibilizar os líderes políticos porque democratizando os partidos, democratizamos a sociedade. No fundo, os partidos representam a sociedade e agem em nome da população. Queremos que os partidos aceitem a lei da paridade e ajudem no avanço da sociedade. Não deixa de ser mais importante falar com a sociedade no geral, demandar que as organizações incluam as mulheres e cumpram a paridade.

Vantagens de Cabo Verde

 MI – Mediante a realidade cabo-verdiana, um arquipélago composto por mundo rural forte nalgumas ilhas, e tendo em conta a experiência na Bolívia de trabalhar com as comunidades indígenas, que conselho deixaria para que o processo tenha aqui o mesmo sucesso?

ES – Cabo Verde tem uma grande vantagem que é o facto de ter menos população. Além disso as comunidades estão mais próximas, pelo que têm como chegar mais depressa a mais lugares no mundo rural. Creio que seria fundamental que fosse um processo participativo e se permita ter um conhecimento partilhado entre as gentes da cidade e as do mundo rural. Em muitos casos vão ver que as reivindicações, tirando as suas diferenças de grau, são muito similares e até iguais. Com a socialização das propostas pode-se fazer com que a lei da paridade tenha respaldo e apoio social. Se formos às comunidades rurais vamos encontrar lideranças fortalecidas e pessoas com capacidade para participar com ideias para a proposta de lei.

MI – A mulher está a conquistar terreno político na Bolívia e vê-se que querem expandir essa experiência para outros países, como é o caso de Cabo Verde. A mulher no poder pode ou não ser tão ditadora quanto o homem?

ES – Claro que sim, são também um produto da sociedade na qual os valores machistas e ditatoriais influenciam muita gente. As mulheres não nasceram com o gene da bondade e os homens com o da maldade, somos produtos da nossa sociedade e em muitos casos deparamos com machismo de homens e mulheres.

(Visited 176 times, 1 visits today)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here