Emergência da cidade do Mindelo (1462-1879): Parabéns pelos 140 anos

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Foto: Kim-Zé Brito

Em homenagem aos 140 anos da cidade do Mindelo, o Mindelinsite publica este artigo da autoria da historiadora Marina Ramos, que conta a história do surgimento desta cidade plantada à beira de uma das baías naturais mais belas do mundo. Cidade colonial, a sua dinâmica e beleza correspondem ao perfil dos seus cidadãos e seu cosmopolitismo, que se espelha na sua rica vida cultural. Terra de braços abertos a todos os visitantes, há muito que suas gentes encetam uma persistente luta pela liberdade, igualdade, conhecimento e a paz. Um artigo que, pelo seu conteúdo, pode servir de documento de consulta para estudantes e pesquisadores.

Marina Ramos

A ilha de S.Vicente foi descoberta em 1462, a 22 de Janeiro, pelos navegadores Diogo Afonso e António de Nole. Seu nome advém do facto de, na mesma data, se homenagear o Santo do mesmo, conforme a tradição cristã portuguesa. Embora a data  da sua descoberta e o facto de ter sido doada a 20 de Abril de 1530 pelo Rei D. João III a Martins Affoso de Sousa com a finalidade de a povoar e nela desenvolver a agricultura, foi, por mais de dois séculos, apenas utilizada para a criação de gado caprino e vacum selvagem e para a recolha da urzela, por proprietários das ilhas  de Stº Antão e S. Nicolau, através dos seus escravos, sazonalmente.

Seu povoamento efetivo foi retardado até finais do século XVIII, pese embora a sua posição estratégica e as excelentes características da sua baía e do porto de águas calmas e profundas.

Devido a  diminuta atenção prestada à ilha S. Vicente, ela foi procurada pelos baleeiros americanos como ponto de apoio, que, na baía do Porto Grande e nas restantes baías, com destaque para a de Salamansa, paravam para tratar das baleias arpoadas  nas cercanías. Igualmente veio  a ser utilizada pelos países europeus que então disputavam o domínio dos mares do Atlântico Sul com Portugal e Espanha, durante a União Ibérica e o tráfico de escravos, a partir de Cabo Verde e da costa ocidental africana, nomeadamente Holanda , França, aos quais serviu como porto de escala e descanso, inclusivo a Esquadra Francesa que – tendo como objetivo final as  ilhas Antilhas, afixara a sua bandeira em S.Vicente durante a sua estadia -, bem como a holandesa que se dirigiu para o nordeste brasileiro, aonde impôs a sua presença e domínio por largos anos.

Perante tal interesse, a coroa portuguesa determinou que fossem tomadas medidas a fim de se proteger a ilha com a edificação de muralhas ao redor do Porto Grande e efetivar o  seu povoamento, garantindo assim a sua posse. A primeira tentativa de povoamento efetivo foi proposta em 1734, através do pedido efetuado por João da Távora ao então Governador de Cabo-Verde Bento Gomes Coelho, submetendo-o à apreciação do governo central em Lisboa. Mereceu o indeferimento.

Em 1773, o Governador Saldanha Lobo sugeriu a conveniência de povoá-la com colonos oriundos de Stº Antão, embora não apresentasse condições para a prática  da agricultura. A 12 de Junho do mesmo ano, a Coroa portuguesa decretou o povoamento das ilhas desertas (além de S. Vicente compreendiam Sta. Luzia, Raso e Branco).

Em 1781 retomou-se a determinação que foi efetivada  através do despacho de 12 de Abril de 1782 e, na sequência, a ilha foi visitada pelo então Bispo e Governador Frei Francisco de Sousa Simão e o naturalista Feijó. O Bispo-Governador, reiterou a urgência do seu povoamento e da indicação de um Capitão-mór, informando também possuir já um candidato que se propunha assumir o povoamento desde que nomeado Capitão–mór.    

Assim, pelo ofício de 19 de Dezembro de 1788, assinado pelo Ministro Martinho de Mello, determinou-se criar definitivamente as condições  propícias ao estabelecimento de um povoado definitivo, embora constatasse já a existência de uma exígua e mísera aldeia designada de Nª Sra. da Luz.

Para tal fim, pela Provisão de 4 de Maio de 1794, foram enviados pelo navio  Senhor Jesus de Boa Morte, com 44 casais e alguns presos e, pela de 22 de Julho de 1795, foi deferido o pedido de João Carlos da Fonseca Rosado, atribuindo-se-lhe o cargo de Capitão-mór, conforme a condição imposta para que investisse no povoamento efetivo da ilha de S. Vicente, através  do Governador José da Silva Maldonado Eça.

Em  agradecimento ao apoio que lhe fora concedido para conseguir seus objetivos, Fonseca Rosado mudou o nome do povoado de Nª Sra da Luz para o de D. Rodrigo, em homenagem ao Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho, com a anuência do Governador António Coutinho de Lencastre, mudando-se igualmente o patrono da paróquia para S. João, em detrimento da Nª Sra. Da Luz.

Importância estratégica

A importância estratégica da ilha de S.Vicente no Atlântico tornou-se claramente  reforçada com o facto do então Regente e futuro D. João VI de Portugal, acompanhado da rainha D. Maria I, haver escolhido o Porto Grande como local de paragem do navio Príncipe Real, a quando da sua viagem ao Brasil, a 20 de Março de 1808, ao invés de se dirigir à ilha sede do governo do arquipélago.

Em  1819, o Governador António Pusich defendeu a ideia de que o desenvolvimento de S. Vicente só seria  possível através do comércio. Mudou o nome do povoado para Leopoldina, em homenagem à esposa do Rei D. Pedro IV, e mudou o nome do Porto Grande para o de Porto Real.

Os hidrógrafos Vidal e Mudge fizeram o levantamento topográfico e orográfico que serviriam de base para a elaboração do projeto de implantação urbanístico para a vila e futura cidade do Mindelo, uma vez que foram enviados ao governo português croquis do porto, montes, praias e uma lista de edifícios púbicos a construir.

Em 1835, respondendo à autorização para escolher uma ilha «mais própria para a sede do governo», S. Vicente foi escolhida pelo Governador Joaquim Pereira Marinho. «Sou de parecer que a ilha de S. Vicente é a única  aonde se pode  fazer un centro de civilização, para dali se espalhar para as outras ilhas; aonde se devem assentar  todos os estabelecimentos de industria, de comercio, de navegação».

Pelo decreto de 11 de Junho de 1838, através do Visconde de Sá da Bandeira  foi ordenado pela rainha D. Maria II. «… Hei outro sim por bem  determinar que a nova povoação que se levantar em S. Vicente tenha o nome de Mindello, reservando-me dar-lhe a categoría que lhe competir quando pelo augmento da população e mais circunstancias o merecer

Com a criação do povoado do Mindelo, investiu-se fortemente na sua urbanização, que obedecia a um modelo progressista, visando a implementação da cidade desejada pela Coroa portuguesa, que não só espelhasse a homenagem e o papel histórico – político que se pretendia , mas também que apresentasse condições para ser a futura capital, indicando-se como responsável das obras oficiais a edificar, o Major-capitão Carlos Leite Pereira de Mello Virgolino.

Presença inglesa

A presença inglesa e seu interesse na exploração do transbordo do carvão foi uma forte condicionante que ganhou força definitiva a partir de 1850, com a instalação do Cônsul Inglês em Mindelo, e os depósitos de carvão em terra. Na sequência disso, várias outras companhias se estabeleceram em Mindelo, gerando expetativas no domínio do desenvolvimento económico comercial.

Em 1852, nomeou-se a 1ª Comissão Municipal chefiada por J. Fonseca Machado, decidiu-se sobre as novas taxas a aplicar, destinando-as ao Município. Definiram-se os espaços de trabalho, cultura e  lazer.

Em 1858, o Decreto-régio de 29 de Abril elevou o povoado a Vila do Mindelo, que se tornou num pequeno posto avançado da sociedade ocidental industrializada do Atlântico, cuja composição profissional se fazia de trabalhadores das companhias carvoeiras, pescadores, marinheiros, comerciantes, contadores, funcionários públicos, eclesiásticos, jurídicos, militares, músicos, etc.

A expansão da vila do Mindelo tornou-se rápidamente necessária, surgindo novas localidades ligadas ao primeiro centro urbano. Se tomarmos em conta a comparação entre os mapas de 1820 e 1858, constatamos um grande crescimento abrangendo quer a zona norte da pare central da baía do porto e a zona já existente em 1820, para sul, oeste e norte. É indiscutível que o terreno ocupado pelas casas expandiu-se a partir da Igreja, acompanhada da correspondente  rede viária em expansão.

De 1873 a 1878, novas zonas habitacionais surgiram como espaço físico de residência dos trabalhadores menos afortunados, embelezou-se a vila através da arborização organizada e cuidada, além de ganhar destaque no cenário mundial pela união dos três continentes (Europa, África, América)  através do cabo submarino Brazilian Telegraph.

Elevação de Mindelo a cidade

Assim, culminando a realização do seu desejo, a rainha D. Maria II, em 1879, pelo Decreto-régio de 14 de Abril, elevou Mindelo à categoria de cidade «…Hei por bem, conformando-me com o parecer da Junta Consultiva do Ultramar e informações do Governo Geral da Província de Cabo-Verde, elevar a mencionada villa do Mindello à categoria de cidade com a [1]denominação de cidade do Mindello de S.Vicente.»

Crescendo ao redor do porto, então sua fonte de vida e trabalho, a cidade porta uma retícula urbana, com ruas paralelas arborizadas e travessas perpendiculares. Centro de negócios e de cultura, distinguiu-se e ainda se distingue por uma arquitectura eclética, aonde se vislumbram traços manuelinos, barrocos e neoclássicos, que se manifestam nas edificações oficiais e nas casas coloridas de dois pisos, com seus telhados em cerâmica ou de madeira americana, embora hoje se possam ainda encontrar nas construções modernas existentes apontamentos artísticos dessa época. Por outro lado, ainda hoje, nos bairros, ela mostra a distinção social, a pobreza, através das casas inacabadas, por vezes sem pintura, ou em pedaços de madeira ou chapas de tambor, pese embora o longo e lento desenvolvimento nos dois últimos séculos.

 Mindelo é uma linda cidade colonial em seu conjunto arquitetónico, muito dinâmico e belo, corresponde ao perfil dos seus cidadãos, ao seu cosmopolitismo, que se espelha na sua dinâmica cultural, nos braços abertos a todos os visitantes, provenientes dos vários continentes, factor que é sobejamente  demonstrado através das nuances físicas antropológicas da sua gente, na sua língua crioula e na sua persistente luta pela liberdade, pela igualdade pelo conhecimento e pela paz.

Feliz Aniversário Mindelo de S. Vicente!


[1] B.O.20/1789, Decreto Régio de 14 de Abril de 1879

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5 COMENTÁRIOS

  1. Apreciei muito este texto. A ilha de S. Vicente merece ressurgir do apagamento a que foi forçada pela política centralista dos diversos governos do país independente. Necessário é que a população mindelense saiba unir esforços e encetar formas de luta eficazes para que os seus créditos não continuem a ser ignorados e desbaratados. Essa tarefa compete sobretudo às suas forças vivas, aos seus intelectuais e aos políticos que a representam.

  2. Excelente texto que nos leva a refletir que os melhores anos da cidade do Mindelo, foram sem dúvida durante os 100 anos a partir dos meados do século 19, com a presença das companhias britânicas para o reabastecimento do carvão aos navios, que cruzavam o oceano norte sul ou vice versa. Antes, devido ao abandono da coroa portuguesa, o excelente Porto Grande do Mindelo era refugio de corsários e piratas. Depois da saída dos britânicos, a má gestão do governo colonial, seguindo-se de uma gestão centralista e ruinosa dos governos nacionalistas atuais, conduziram Mindelo e o seu Porto Grande a um completo abandono por razões de interesses sulistas , restando aos seus homens e mulheres, a única hipótese de uma emigração massiva para assim poder ter e dar aos seus uma vida com esperança e dignidade.

  3. Grande homenagem à nossa Cidade e excelente lição de história.
    Pelo significado que teve e continua a ter , Mindelo merece carinho.

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