Empresas na era dos “dinossauros”

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Estava a contemplar os novos “adereços” da Praça Nova quando duas jovens sentaram-se ao meu lado a conversar. Uma parecia com o semblante mais sério e remetida ao seu silêncio. Via-se que algo a incomodava, enquanto a amiga falava. Tentava perceber o que se passava. Assim, deixei de contemplar os blocos e as madeiras que seguram as bancadas que estão a ser instaladas para o carnaval e discretamente transferi a minha atenção para as duas.

O motivo para tanta preocupação pareceu-me, a priori, um pouco leviano. A questão de fundo é que ela não sabia escrever uma carta. Tinha aprendido isso na escola há muito tempo, mas não pensava que ainda se usasse esta “ultrapassada” forma de comunicação. Porém, ela precisava encontrar-se com o gestor de uma empresa e, para azar dela, a secretária pediu que escrevesse uma carta a explicar o motivo da reunião. Numa Era de sms’s, messenger, facebook, email, viber, skype, whatsapp e outras formas que a tecnologia nos permite hoje comunicar ela certamente pensava que nunca mais se ouviria falar em… cartas.

– E então? O que disseste? Questionou a amiga, depois de rir-se da situação.

– Perguntei o que era uma carta – respondeu num tom irónico – e se não havia forma de enviar um correio electrónico, em vez de carta.

– E o que te respondeu a secretária? – Continuou a perguntar a curiosa amiga.

– Que não pode dar-me o email sem o consentimento do chefe!

– Mas ela não poderia pedir-lhe permissão?

– Podia, se ele estava presente no trabalho!

– Mas ela não é a secretária? Poderia informá-lo do motivo da reunião, sem que tenhas que escrever a carta. Não podia?

– Pois, mas parece que ela tem um défice de compreensão ou não sabe escrever!

– E agora? Vais fazer a carta?

– Vou, mas tenho que saber como se faz primeiro.

– Vai ao Google! Há lá alguns passos para se comunicar com pessoas do “século dos dinossauros”, aconselhou a amiga.

Neste momento deixei escapar sem querer uma gargalhada, nada discreta e denunciadora de que estava a ouvir a conversa. Daí, o riso foi em coro.

Percebi que, por mais que a tecnologia sirva para facilitar a comunicação, muitas empresas continuam a viver no passado. São pequenos detalhes, como o difícil acesso aos seus representantes, as barreiras que impõem, a forma como ainda atendem o público e o facto de não acompanharem as novas tecnologias para se interagirem com os clientes.

Acredito que a jovem irá encontrar a melhor forma de escrever a carta. Mas não acredito que vá obter uma resposta, pois as cartas muitas vezes criam asas e não chegam ao destino.

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