“Enterro” do Carnaval une mandingas e arrasta multidão

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O Carnaval d’Soncente está morto e enterrado… até o verão. Entre 10 a 15 mil pessoas participaram num cortejo fúnebre fervilhante, de fazer inveja a qualquer defunto. 

Os mandingas das zonas periféricas da cidade do Mindelo – Areia Branca, Espia, Fonte Filipe e Ribeira Bote – uniram-se na tarde deste Domingo, 05 de Março, para fazer um grandioso “enterro” do Carnaval 2017. Não faltaram os tradicionais “caixões” improvisados de papelão, madeira ou mesmo de plástico e acompanhantes trajados a rigor para marcar o término de uma festa que começou no segundo Domingo de Janeiro, dia 08. Foram mais de nove Domingos consecutivos de desfiles dos Mandingas.

Era por volta das 16 horas quando ecoaram os primeiros sons da batucada característica dos assaltos dos “guerreiros” na Ilha d’Madeira. Estava dado o sinal para o início de uma paródia que ia até à noite, arrastando uma multidão sem precedentes. Desde então, foi difícil manter o corpo parado. Entre 10 a 15 mil pessoas cantaram, dançaram, enfim, divertiram-se à moda mindelense. Fizeram uma festa grandiosa e empolgante, num extenso cortejo, que subiu a Avenida Cidade Invicta do Porto, desceu a estrada que liga Cruz João D´Evora à Laginha e ocupou toda a Avenida Marginal. Crianças, adolescentes, jovens, adultos, nacionais, emigrantes e estrangeiros embarcaram-se nessa onda frenética.

Na berma das estradas, muita gente acompanhava, incrédula, a impressionante moldura humana, mas também extasiada e desejosa de participar. No entanto, nem todos tiveram a coragem de meter-se na “tcholda”, com receio de sujar-se do carvão oleoso, como confessou uma emigrante. O jeito era improvisar alguns passos de dança e acompanhar o frenesim de fora. Os que estavam na onda não se importavam com os empurrões, o cheiro a suor e dos produtos utilizados para se pintar o corpo – oléo de cozinha, lama e carvão- os pisões, respingos de bebidas e, por que não, de sapatadas.

Para o artista plástico Manu Rasta, os mandingas são o verdadeiro Carnaval. “Mandinga é o início do Carnaval de São Vicente. Esta é, sem dúvida uma grande manifestação cultural, que agrega pessoas de todas as classes sociais. Aqui não há discriminação. Mandinga deve, também, beneficiar do apoio do Estado”, lançou o autor dos projecto alegórico do “Vindos do Oriente”, para quem é preciso sobretudo mais organização e suporte durante os desfiles para que não sejam “engolidos” pela multidão.

A união dos mandingas neste último desfile foi também destacada por este carnavalesco. Para Manu Rasta, essa “fotografia” é muito positiva. Engrandece o fenómeno mandinga e mostra que não existe qualquer tipo de rivalidade entre os grupos das diferentes zonas. “A iniciativa partiu dos Mandingas da Ribeira Bote, que convidaram todos os outros mandingas para juntos fazerem o enterro. Isso mostra que não há divisionismo. É bom para São Vicente porque o fenómeno mandinga é hoje uma das maiores manifestações culturais do país. Nasceu aqui no Mindelo, mas hoje é de Cabo Verde”.

Muita gente, sobretudo estrangeiros e emigrantes pouco acostumados com a contagiante energia dos Mandingas aproveitavam as brechas, muros, árvores e varandas para fotografar ou filmar este enterro do Carnaval, uma das maiores já vistas na ilha de São Vicente, de acordo com várias pessoas ouvidas por Mindel Insite ao longo do percurso.

Enfim, o Carnaval d’Soncente está morto e enterrado… até o verão.

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