Funcionárias da fábrica Atunlo sofrem desmaios: Suspeita de intoxicação com soda cáustica

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Vinte e nove funcionárias da empresa Atunlo foram transportadas esta manhã pelos bombeiros municipais para o Banco de Urgência do HBS, após sofrerem desmaios e ataques de tosse minutos depois de começarem a trabalhar no sector da produção dessa fábrica de  tratamento de pescado. Tudo indica que foram vítimas de uma intoxicação provocada pela presença de soda cáustica na sala, produto químico usado normalmente pela empresa para limpar os ralos das condutas de esgoto. Desconfia-se que o pessoal de limpeza terá aplicado uma quantidade maior ou não teve o cuidado de usar água suficiente para limpar as condutas, situação que acabou por afectar cerca de 30 dos 120 trabalhadores dessa secção.

“Todas as sextas-feiras usamos soda cáustica para limpar os ralos por onde passa a água que vai para o esgoto. Fazemos uma limpeza profunda nesse dia já que o sector da produção não trabalha aos sábados e domingos, pelo que dá tempo para o ambiente ficar totalmente limpo. No entanto, desconfiamos que o pessoal de limpeza terá usado ontem uma quantidade maior de soda ou não usaram água suficiente para garantir a limpeza adequada”, diz Lucibela Nascimento, responsável do Controlo de Qualidade da Atunlo-CV, empresa de capital espanhol cuja infra-estrutura fica montada dentro do cais internacional do Porto Grande.

Segundo Nascimento, houve pessoas que começaram a trabalhar por volta das sete e meia mas que nada sentiram. O quadro mudou, entretanto, com a entrada de um grupo de funcionárias às oito da manhã. Cerca de quinze minutos depois, algumas mulheres começaram a sofrer ataques de tosse, a espumar pela boca, a revirar os olhos e a desmaiar, conforme testemunhas abordadas por este jornal. Os sintomas alastraram-se a outras colegas e o pânico tomou conta do ambiente, o que obrigou a fábrica a pedir o auxílio dos Bombeiros Municipais.

Cerca de trinta trabalhadoras foram transportadas de ambulância para o Banco de Urgência do HBS nas três deslocações que os bombeiros fizeram para a fábrica. Além disso, a empresa solicitou apoio a uma clínica privada, que enviou mais uma ambulância, que chegou depois de a situação estar sob controlo. “Várias colegas sentiram-se mal, foram levadas para a rua, entretanto um responsável da empresa disse que isso era fita, que estavam a dar espectáculo porque ninguém iria morrer. Como pode afirmar isso? Há uma intoxicação na sala e querem que fiquemos nas calmas?”, reage uma funcionária da empresa, para quem a causa do problema terá a ver, realmente, com uso de soda-cáustica no piso da sala.

Confrontada com esse comentário, Eloisa Monteiro, responsável pelo sector da produção, diz não acreditar que o director da empresa tenha tido esse comportamento. “Eu mesma estive lá em baixo, falei com elas, pedi-lhes calma porque é uma falha que nos foi adversa e que ninguém gostaria que tivesse acontecido”, comenta.

Por causa desse incidente, o trabalho foi suspenso devendo ser retomado amanhã. “Podíamos retomar a produção daqui a uma hora porque o cheiro foi eliminado, mas achamos melhor deixar para amanhã”, frisa Eloisa Monteiro, salientando que a empresa decidiu parar a actividade de imediato e usar compressores para aumentar a circulação do ar no espaço.

Todas as funcionárias vistas pelos médicos de plantão no Hospital Baptista de Sousa foram liberadas horas depois de darem entrada e, segundo a directora Ana Brito, estão estáveis. Questionada sobre a causa do mal-estar, Brito evitou fazer afirmações, mas não descarta a possibilidade de uma intoxicação provocada pela presença de soda cáustica. O incidente ocorrido esta manhã na fábrica Atunlo já provocou a intervenção da Inspecção-Geral do Trabalho e da própria Delegacia de Saúde de S. Vicente.

Cheiro desagradável

Instalada dentro do cais do Porto Grande, a fábrica Atunlo é vista neste momento como a causa de vagas de cheiro a esgoto na Avenida Marginal e igualmente no meio da baía do Porto Grande, devido a sua actividade. Algo semelhante ao problema que afectou a zona do Lazareto e que levou as pessoas a considerar a Frescomar a responsável por essa poluição ambiental. Porém, segundo Lucibela Nascimento, o cheiro que tem estado a invadir a cidade do Mindelo não é proveniente da fábrica de tratamento de pescado. O problema, conforme essa fonte, está relacionado com o funcionamento deficiente de uma bomba situada num dos parques de estacionamento da Enapor na Av. Marginal, que nem sempre consegue dar vazão às descargas de esgoto.

“Sempre que essa bomba falha, o fluxo do esgoto regressa à fábrica. Nós também somos vítimas e temos gasto muito dinheiro para tentar resolver a situação”, informa Nascimento, adiantando que neste momento está em curso uma auditoria encomendada pela Enapor, concessionária do espaço, para apurar as causas. Conforme apurou este jornal, a Enapor tem todo o interesse em solucionar o quanto antes esse problema, que tem atingido o pessoal que trabalha nessa área, além dos turistas que desembarcam no Porto Grande.

Kim-Zé Brito

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