Grogue é metade d’um home… e aguardente enê d’gent. Não ao consumo exagerado do álcool.

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Por Nelson Faria

 A boa gente de Santo Antão diz que é essencial diferenciar o Grogue do Aguardente. Grogue é produzido à base de cana-de-açúcar e Aguardente feito com “qualquer amxorda” como matéria-prima…; de açúcar até lixivia ou baterias de carro utilizadas.

Na música que referencia as figuras Mindelenses: Ninaj, Liz Cabel e Cacoi, sobre as preferências pelo “Grogue, tussim e cathupa”, onde o “Grogue ti ta bem cabá” é um lamento vincado, é dito que “Grogue é metade e um Home”, mas “pa quem sabê bibel”. Dizem os entendidos que “sabê bibel” está na moderação em comemoração, como aperitivo ou digestivo, ou num mero prazer circunstancial, sabendo dosear as quantidades da qualidade que se ingere. Assim, um produto de boa qualidade nunca fará mal. Será sempre um destilado que traz bons contributos para o “calor d’corp” e alegria de espírito. Acredito que sim, que a moderação, a qualidade e a selecção dos momentos ajudam no temperamento do corpo e da alma com um artigo que tem mais de trezentos anos de história de produção nacional e que se quer cada vez mais como uma referência, uma bandeira para exportação e uma grande marca do país.

É minha percepção que foi o que se tentou fazer em 2015 com a lei do Grogue, cujo objectivo era que a produção fosse, exclusivamente, à base de cana sacarina, num processo que deveria respeitar parâmetros de higiene e qualidade. Nessa altura, a lei foi socializada e iniciou-se a sua implementação. Referem as notícias de então que o interesse pela correta aplicação da lei, sobretudo em Santo Antão e São Nicolau, foi visível na dinâmica económica que se pretendia para o aumento do cultivo de cana-de-açúcar, nos investimentos para melhoria das condições de produção e de armazenamento. Todavia, a fiscalização ainda era incipiente e com meios limitados para responder a todas as necessidades de correcção no início desse processo.

Processo que se requeria contínuo e que nesta data, certamente, se seguidas todas as suas etapas, traria os frutos esperados: produto de alta qualidade, aumento de empregos ligados a um produto de exportação, abertura de mercados para exportação, diminuição de problemas de saúde ligados ao consumo de aguardente.

Naturalmente, para os interessados, hoje colocam-se as seguintes questões: Como anda este processo? Qual a dinâmica desta lei na actualidade? A apreciação de muitos tem sido que, paulatinamente, tem-se regressado à predominância da aguardente…

Aguardente não é Grogue. Aguardente utiliza matérias-primas para a sua produção que vão da cana-de-açúcar à lixivia, conta quem sabe. Este produto tem feito com que o grogue entre novamente no descrédito quanto a sua qualidade, embora, pós-lei, tenha aumentado de preço sem nunca mais reduzir. Até aguardente de 75$ passou para 500 escudos. Aguardente figura-se como a bebida alcoólica destilada mais consumida no arquipélago, pela facilidade de produção, distribuição, acesso, até do preço que sempre se ajeita ao seu real valor. É com a aguardente que se produz grande parte do “pontche, stompê e caipê” que se consome em vários momentos festivos e é este produto a causa de alguns males sociais.

Males esses que começam nos impactos na saúde do consumidor, mesmo que invisíveis numa fase inicial de consumo. Segundo estudos científicos, o corpo retém 90% do álcool ingerido que forma “tijolos” sucessivos de uma parede futura de problemas com gravidade. Problemas graves que não se resumem à saúde, tendo dimensão transversal com extensões humanas, sociais e económicas relevantes, relacionados com a família, a violência, criminalidade, produtividade laboral, e, não menos relevante, com exemplos e referências familiares e sociais.

Do grogue, se tratado como a lei prevê, com a moderação, certamente deixaria de ter tantas consequências nefastas reveladas pelos dados de consumo… De aguardante apelo à minha gente: não ao consumo. Creio que ninguém “crê pa grogue cabá”, mas ninguém quer também que o grogue/aguardente mate os cabo-verdianos.

Da mesma forma, para outras bebidas alcoólicas, é preciso ter atenção ao que se consome em qualidade e quantidade a bem da saúde e a bem de todos nós. Terá sempre reflexos e consequências para todos. Nas instituições de saúde que serão utilizadas para “curar” o mal, na produtividade laboral, na economia, nas famílias, nos encargos do Estado e de outras instituições com as consequências, sem contar que compromete a nossa imagem como país, onde estamos em terceiro do ranking dos PALOP com maior consumo, conforme “Relatório global sobre o álcool e a saúde 2014”:“O Relatório global sobre o álcool e a saúde 2014 disponibiliza perfis dos 194 países membros da organização, nomeadamente sobre o consumo de álcool e os seus impactos na saúde. O mesmo documento dá conta que os níveis de consumo em Angola, Cabo-Verde e São -Tomé estão acima da média africana (3,3%.) Com a mais alta percentagem de mortes associadas ao álcool entre os lusófonos africanos (3,6%), Cabo Verde tem também uma frequência superior à média africana de perturbações ligadas ao consumo de álcool (5,1%). Juntamente com São Tomé e Príncipe, somos o país com maior prevalência de perturbações do consumo de álcool entre os lusófonos africanos, com uma média de 5,1%.”Igualmente preocupante é o registo de que as famílias cabo-verdianas gastam em bebidas alcoólicas mais do dobro do que em educação e o mesmo que em saúde, conforme dados divulgados na campanha “Menos álcool mais vida”. É imperativo nacional a luta contra o consumo excessivo do álcool a bem do nosso futuro enquanto pessoas, família, sociedade e nação.

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