Guerreiros tribais de África: A “soberba” Comissão de Frente do bicampeão Vindos do Oriente

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Uma apresentação de garra. É desta forma que os internautas estão a descrever a performance da Comissão de Frente do Vindos do Oriente, que se sagrou bicampeão do Carnaval do Mindelo. O grupo formado por 15 elementos liderados pelo dançarino Ricardo “Riky” Lopes, secundado pela bailarina Noelisa Santos, deu um show de cortar a respiração nas ruas de Mindelo e deixou no palato dos sãovicentinos um sabor de “quero mais”.

Segundo Ricardo Lopes, o sucesso desta apresentação deve-se fundamentalmente ao facto de terem entendido o que era a essência e o objectivo de serem guerreiros africanos. Primeiro ensaiaram a parte coreográfica para que pudessem estar todos sincronizados no dia do desfile. Já os movimentos corporais sinuosos, os olhares penetrantes e a expressão facial marcante foram feitos de improviso. “A coreografia nasceu da vontade de mostrarmos aquela garra que temos. Por acaso trabalhamos a coreografia, mas, quando chegamos na Rua de Lisboa, uma das coisas que nos deu mais ‘vibe’ foi saber que o júri estava em todas as partes para assistir ao desfile. Então disse ao pessoal: ‘não viemos aqui para fazer um espectáculo para o júri, mas sim para o povo de Soncente, porque o júri está em cada pessoa que assiste ao desfile’. Foi assim que tiramos a ideia de fazer aquela performance para que todos os que estivessem lá sentissem o que queríamos passar. E é por isso que levantávamos sempre a bandeira pintada no escudo que trazíamos”, explica Riky, reconhecendo que houve muita coisa que saiu do improviso.

Para a sua companheira Noelisa Santos, o grupo entrou na onda do líder e deixou que os sentimentos fluíssem. “Com a excelente liderança do Riky, simplesmente seguimos a sua onda. Confiamos cegamente nele porque ele consegue liderar várias pessoas ao mesmo tempo e tudo o que ele fez fizemos também.”

O abre-alas do Vindos do Oriente era formado por 13 elementos, a maioria sãovicentinos, todos já familiarizados com a dança, embora alguns não tinham praticado há algum tempo. “Tínhamos apenas uma italiana, a Carlotta Landi, que está aqui em Cabo Verde a trabalhar num projecto da Organização das Mulheres Cabo-Verdianas (OMCV). Ela contactou-me porque estava interessada em fazer aulas de dança. Ela veio e fez um teste e ficou connosco”, complementa Noelisa, que se licenciou em dança na Holanda. Para a bailarina, as pessoas de São Vicente mereciam este show, por causa da sua entrega e amor para esta festa. “Se o Carnaval é para todas as pessoas, se há quem é capaz de vir do Calhau para assistir ao desfile, então acho que o público merecia ver um show. Estávamos lá para o povo de Soncente e foi óptimo sentir também que eles estavam connosco”, afirma a coreógrafa, para quem é desta forma que a cultura chega às pessoas e não numa sala de espectáculos fechada onde só vai quem pode pagar.

A performance exigia muita energia, principalmente por causa do percurso longo que teriam que fazer mas, conforme Riky Lopes, a força e a energia que o público lhes deu foi “um recarregar das baterias” para continuarem até ao fim. “Nós gostamos do tema e por isso conseguimos manter a energia até ao fim. Quando se luta por algo que se ama o corpo não cansa. As pessoas também nos ajudaram porque vimos nos seus olhos que o nosso trabalho estava a chegar neles e a causar impacto. Quando demos a primeira volta e chegamos na Rua 5 de Julho havia outro grupo na nossa frente e tivemos que esperar um pouco. Aproveitamos para beber água e as pessoas pediram-nos para dançar. Mesmo sem música, começamos a dançar e quando o pessoal transmitiu-nos aquela vibração começamos a segunda volta com mais energia. Foi como se tivéssemos renovado a bateria”, considera o bailarino que, apesar de ter nascido e crescido em Monte Sossego, diz que desfilou no Vindos do Oriente com entrega porque, independentemente da agremiação em que se está, cada um deve dar o máximo de si para que o trabalho seja feito da melhor forma.

Riky lembra que antes os grupos não davam valor à Comissão de Frente. Tanto assim é que muitos entravam na avenida sem música. Mas, depois que passou a ser um quesito essencial na premiação, o cenário mudou. Isto fez também com que a presidente do VO, Lili Freitas, e a filha Josina Freitas, apostassem neles. “Disseram-nos que teríamos que cantar e ao mesmo tempo dançar, caso contrário iam perder pontos. Expliquei-lhes que tudo dependia do nosso espectáculo porque havia partes em que nós podíamos cantar e em outras que não poderíamos sequer mexer a boca. Tudo fazia parte da nossa performance e no fim deu certo”, regozija-se.

O mesmo defende que, apesar de um grupo ser um todo, a Comissão de Frente deveria ser premiada. “Se for premiada no próximo ano é bom porque os outros grupos vão preparar-se melhor. Rivalidade à parte, acredito que a competição tem que existir porque ajuda a evoluir. Cada vez que formos subindo, o nível as pessoas começa a melhorar ainda mais”, remata o dançarino, para quem a competição tem que existir porque só serve para melhorar a qualidadel da festa do Rei Momo em São Vicente.

Carina David

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