Já no caba na nada? Em que é que nos transformamos?

Nelson Faria

O passado glorioso de Mindelo permitia vislumbrar pelos de então um futuro seguro, cheio de esperanças em que o “temp d’canequinha” seria a permanente realidade da ilha. Em vez disso, nós, o presente, futuro dos que já foram, andamos à roda com tudo o que nos tem acontecido, atabalhoados com os golpes que temos levado, alienados pelo “passa sab”, sem glória servindo os “senhores da república democrática”, que servem a seu bel-prazer do que ainda temos a oferecer. A ilha, esta maravilha, transforma-se a cada dia num fantasma vivo, ao menos a vida ainda não foi, resiste pela alma que não quer abandonar um corpo que apodrece em património, em valores e em dinamismo. Morte matada? Com certeza. Morte morrida? Com clareza.

A estratégia da elite da República tem sido clara e excessivamente evidente, baseada no seguinte: o enfraquecimento deste corpo deve ser um desígnio, até a exaustão, o que perturbará a identidade, a alma, sugando-a para os seus intentos, fazendo com que sucumba à força do poder dominante. Lamento? Não. Constatação de facto. Esta tem sido a morte matada.

A morte morrida advém da nossa conivência e cumplicidade, toda ela, passiva e pacífica sobre o que o centro nos permite e o local nos omite por conveniência. A sociedade civil mindelense não reivindica os seus direitos e não se agrega com a mesma “vibe” ou “flux” revelada nos mandingas, para assuntos basilares do seu presente e do seu futuro. Os valores inverteram-se e mais tem valido a procura por valores ($), mesmo que isso implique o prestar vassalagem ao interesse instalado… Eis a nossa morte morrida. Calamos e resignamos.

Se já vimos que as forças políticas, com os seus ditos líderes e representantes locais, da situação e oposição, com posicionamentos dúbios, mediante conveniência das posições conjunturais, não têm servido a visão de futuro dos nossos antepassados – muito menos o nosso presente – por quê devemos nós aceitar e acoplar a este jogo de gato presente/gato ausente, quando somos os ratos a serem comidos? Porque resignamos a não definir a nossa visão de futuro? Porque não somos “mandingas” na luta pelo que é nosso de direito?

Temos tido problemas de limitações pela República dos grandes? É verdade. A liderança tem sido a desejada? Longe disso. E nós, sim, nós o Zé-Povão, não os Zés que têm governado, o que temos feito? Contemplado… Caramba?! O que é isso? Aonde vamos parar desta forma? O que será de nós? Dos nossos filhos? Mais alguns engolidos, outros fu(n)didos com o que nos permitem ter e pensar.

O que é feito da nossa criatividade para soltar das amarras partidárias e de governação que têm limitado o desenvolvimento da ilha? O que é feito da energia que demostramos no Festival da Baia? O que é feito da solidariedade que cativa demonstrada na quadra festiva? Por que achamos isto tudo normal quando no Carnaval somos diferentes?

Precisamos unir-nos enquanto sociedade, precisamos definir a nossa caminhada e faze-la acontecer, juntos, precisamos ser sociedade civil, cidadãos, gente de bem, sem que os partidos imponham a sua agenda acima da nossa gente, no máximo que este processo se inverta: nós ditamos o percurso que queremos às forças políticas que tiverem bom senso de a assimilar.

Precisamos reunir, unir e agregar boas ideias e bons ideais. Precisamos fugir deste mandar de bocas constante, cada um à sua maneira, eu aqui neste texto… Precisamos de boa liderança para a esperança que queremos para nós, os nossos filhos e para a ilha.

Se assim não for, como disse Bauman em outro contexto, porém aplicável a esta nossa realidade: “Acima de tudo, sentimos que estamos a perder o controlo sobre a nossa própria vida, relegados que ficamos ao estatuto de peões que avançam e recuam num jogo de xadrez travado entre jogadores desconhecidos, indiferentes às nossas necessidades – quando não se revelam pura e simplesmente hostis e cruéis para connosco – e que nunca hesitam em sacrificar‑nos para atingirem os seus próprios objetivos.”

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