Joaquim “Morgadinho” Almeida: “Sou uma pessoa apaixonada pela música e pela vida”

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 É um apaixonado pela vida e pela música. Aos 87 anos, Morgadinho mantém toda a sua vivacidade. Continua a compor e a cantar, inclusive foi o convidado de Gabriela Mendes num espectáculo recente em São Vicente, que teve o Presidente da República na plateia. Jorge Carlos Fonseca aproveitou para comunicar-lhe a intensão do seu gabinete de homenageá-lo ainda este ano. Estar com a nova geração de artistas no palco, em estúdio, ou apenas a conviver é outro prazer que não dispensa. Também continua a fazer planos. Por exemplo, tem em carteira um projecto musical para homenagear São Vicente, envolvendo outros artistas, que espera concretizar em breve. A única limitação que impõe a si mesmo neste momento é tocar trompete. Como diz, uma pessoa tem de conhecer os seus limites e saber a melhor hora de parar. Esta é uma limitação que compensa com a sua alegria de viver, natural num artista realizado na sua vida e carreira.

– Por Constânça de Pina –

Mindelinsite É um artista consagrado, com muitos anos de carreira, que se encontra em S. Vicente em gozo de férias. No entanto, aproveitou a estada para fazer espectáculos com artistas da nova geração. O que é que aproxima o Morgadinho dos novos talentos crioulos?

Morgadinho A minha relação com os jovens artistas sempre foi muito boa. Entendo que estamos aqui de passagem, seja como cidadão ou como artista. E, como artista, temos de ajudar os outros. Temos de ajudá-los a assumir a responsabilidade cultural de continuar porque ninguém está aqui para sempre. Aquilo que aprendi nos tempos que chamamos de acústico – agora é tudo muito electrónico – temos de partilhar com os mais novos. Acredito que a nossa geração, mais experiente, e a mais actual conjugam-se perfeitamente. Isto porque a música não tem fronteiras. A música entra por todos os lados. É como água. Onde encontra qualquer fresta vai entrar. Por outro lado, a música atravessa gerações e faz parte do ser humano. É universal. Eu tento passar aos mais jovens aquilo que aprendi e a forma como aprendi. Também entendo que é preciso que os jovens saibam estar na música. Há várias formas de aprender.

– Mas o Morgadinho também aprende alguma coisa com estes jovens?

É claro que aprendo, e muito. A vida é uma escola. Com a idade que tenho hoje, 87 anos, continuo a aprender todos os dias. E fico muito feliz com isso.

Já agora, como foi o espectáculo do dia 01 de Setembro com Gabriela Mendes?

– Foi um espectáculo excelente. Intimista e curto, mas muito bom. Gabriela é uma pessoa por quem tenho enorme estima. Ela convidou-me e aceitei de imediato. Cantei algumas músicas e gostei. Infelizmente não toquei trompete. Por causa dos meus problemas de saúde, neste momento estou a evitar tocar. Fui operado duas vezes. Pode parecer que não, mas a moral de uma pessoa reduz muito. As coisas chegaram a um ponto que comecei a sentir uma certa incerteza. Chamei o meu espírito à razão e recomecei a compor, apesar das dificuldades para ver. Decidi manter a minha memória activa. Mas, quando fui tentar tocar trompete, senti uma certa dificuldade, então optei por limitar. Neste momento estou apenas a cantar.

Frio na barriga

– Depois de tantos anos, ainda sente aquele friozinho na barriga antes de subir ao palco ou já é uma coisa corriqueira para si?

– Sinto um nervosismo miúdo, mas mantenho o mesmo entusiasmo. Sinto-me estressado quando tenho um compromisso. Mas isso porque entendo que tenho a obrigação de dar aquilo que comprometi. Mas, quando subo ao palco, é outra coisa. O nervosismo desaparece. Dou o meu máximo porque estou lá como artista, mas principalmente como cabo-verdiano. Sei que estou a passar uma mensagem. E faço isso dentro das minhas possibilidades.

– Ainda recebe muito convites de outros artistas, incluindo jovens, para actuar?

Constantemente. E isso me deixa muito satisfeito. Em relação aos jovens, acho que eles gostam de estar comigo porque sou modesto. Não gosto de pavonear. Entendo que uma pessoa tem de ser humilde, amiga de todos e sobretudo tem de respeitar para ser respeitado. A ética tem muito valor. Não posso pensar que sei tudo e sou melhor que os outros. Deus nos deu uma possibilidade para partilharmos aquilo que sabemos com os outros. A música é uma arte muito sensível. É preciso termos princípios para evitar problemas.

Processo criativo

– Referiu dificuldades para compor por causa de problemas de visão. Entretanto, uma morna da sua autoria, cantada pela Cremilda, foi recentemente premiada no exterior. Qual é a história dessa morna e qual é o sentimento de ver o seu trabalho reconhecido, sobretudo quando composto em meio a dificuldades?

– É verdade. Encontrei a Cremilda no Hotel Porto Grande. Estava acompanhada do marido, a preparar um concerto. Ela aproximou-se e apresentou-se. Disse-me que canta e que gostaria que eu escrevesse uma música para ela. Isto aconteceu há cerca de 3-4 anos. Aceitei, mas não me comprometi em relação a prazos porque entendo que a inspiração não pode ser forçada. Outras pessoas podem fazer isso, mas não é o meu caso. Entendo que a inspiração vem por si só. Se não chegar, paciência. É por isso que não gosto de me comprometer com prazos. No caso da Cremilda, depois da nossa conversa retornei à França, que é onde resido. Ela me enviou mais tarde um email a lembrar-me da nossa conversa sobre a morna. Pedi-lhe então para me enviar alguma actuação sua para poder conhecer a qualidade da sua voz. Ela me enviou um clip extraordinário da morna “Raio de Sol”. Depois enviou-me uma outra morna, “Nha Sina”, da autoria de Paulino Vieira e Luís Lima, que tinha apresentado em Lisboa. Gostei muito de ouvir a Cremilda a cantar esta morna, sobretudo por causa da sua voz e forma de expressar. Ouvi a música várias vezes e, logo de seguida, começou a formar uma ideia na minha cabeça. De imediato surgiu o título “Sonhe d´um crioula”. A partir daí as frases começaram a brotar, todas no condicional “Se a vida fosse assim …”. Foi assim que nasceu esta linda morna.

– Normalmente é através da voz que começa o seu processo criativo?

– É sempre através da voz, de uma imagem ou de um assunto. Componho mais na França do que em Cabo Verde. Talvez porque estou longe da minha terra e sinto a inspiração mais forte, não sei explicar bem porquê. Pode ser por causa das saudades. Só sei que as frases começam a aparecer na minha mente. Anoto tudo para trabalhar mais tarde. Tenho que fazer isso imediatamente para não esquecer. No caso da Cremilda tive sorte. A morna ficou extraordinária e eu fiquei feliz, não obstante os problemas de saúde que enfrentava na altura. Consegui fazer algo em prol da nossa cultura para ser cantada por uma voz da nova geração de artistas. Agora Cremilda quer que eu continue a escrever mais músicas para ela cantar. Não digo que não. Se a inspiração aparecer, é claro que vou escrever. E ela foi atenciosa. Depois da premiação ela me procurou. Foi à minha casa na França. Falamos e disse-lhe que, naquilo que estiver dentro das minhas possibilidades, estou disponível. Na minha idade não penso gravar. Temos de estar conscientes dos nossos limites, sob pena de perder qualidade.

– Então continua disponível para continuar a compor?

– É claro. Mas agora só vou compor para outros artistas interpretarem. Tenho neste momento muita coisa escrita nas minhas gavetas. Como novidade, digo-lhe que estou com um trabalho pronto, que vai ser importante para a nossa terra, muito particularmente para a cidade do Mindelo. É um trabalho que não consigo fazer sozinho. O problema é que nesta altura – durante o verão – os artistas têm muito trabalho e têm de aproveitar. Estou à espera da época “baixa”. Como dissemos, a nossa arte é “fémea” e não ganhamos muito. Fazemos música mais pelo prazer do que pela recompensa. É claro que não há regra sem excepção. Houve quem ganhou e muito. Apesar disso, os jovens sentem-se atraídos para esta arte. É normal.

Artista e “activista” social

 – A situação social, económica e política do país, em particularmente de São Vicente, ilha que o acolheu desde muito cedo, também lhe inspira a escrever?

– De toda a maneira. Vou-lhe dizer que tenho algo que estou a fazer, dedicado à cidade do Mindelo, onde cresci e aprendi a arte da música, através do grande professor José Alves dos Reis. Ele nos deu bons princípios que nos ajudaram e continuam a ajudar. É por isso que penso fazer algo para deixar às próximas gerações. Neste trabalho mostro toda a minha paixão pela cidade do Mindelo, sem demagogia. Cada um tem o seu sentimento, que traz desde criança. Desde os dois anos que vivo em São Vicente. Foi aqui que cresci e me transformei no homem que sou. É por isso que estou a preparar esta homenagem, que deverá sair em breve. Mas não vou conseguir fazer este trabalho sozinho. Outros artistas vão ter de me ajudar.

– O sentimento que tem pela cidade do Mindelo está a transformar Morgadinho num “activista” ou crítico social, basta ver os comentários postado nas redes sociais. É a sua forma de mostrar este amor?

– Acho que sim. Isto sou eu. Não estou a inventar nada. Digo aquilo que sinto na hora. Entendo que um ser humano tem de ter sensibilidade. Tudo aquilo que aprendi aqui, levei comigo para fora na minha maleta. Entendo que tenho de retribuir tudo o que Mindelo me deu, de uma forma ou de outra. É isso que me faz fazer os comentários e críticas. Já o o meu projecto retrata o “Mindelo d’outrora e o Mindelo d’agora”, com muito amor.

– Sente que alguma coisa precisa mudar em São Vicente para movimentar esta ilha?

Sinto que é sempre possível fazer alguma coisa. Mas também digo que a nossa terra não está tão mal. Se dermos uma vista de olho pelo mundo, vemos que Cabo Verde não está tão mal. Evito falar de política porque entendo que não é a minha arte. Estou consciente de que, quando falo do social ou do económico, há sempre a tendência de se politizar. Mas entendo que o melhor é cada um fixar-se na sua área. A nível do social, por exemplo, entendo que é preciso melhorar muita coisa. Há muito desemprego jovem. Há muita liberdade. Neste momento há um conjunto de circunstâncias na vida, particularmente aqui em São Vicente.  A população desta ilha cresce a um ritmo elevado. E sem trabalho. Os jovens, a partir de uma certa idade, querem viver bem, o que é normal. E se não encontrarem aquilo que querem, vão enveredar-se por caminhos que ninguém quer. Nenhum pai espera que o seu filho desvie para o caminho errado. Mas a juventude é assim mesmo. É uma sensibilidade dos seres humanos. É preciso que tenham força de vontade e sigam os conselhos dos pais. Espero sinceramente que a nossa terra tenha dias melhores, até porque estamos na era numérica. Estamos no terceiro milénio e a vida passa depressa. Mas é preciso que haja um equilíbrio social e económico. No plano político, entendo que devemos respeitar aqueles que nos governam.

Jovens com futuro suspenso

Que futuro vê então para os jovens de S. Vicente?

Acho que o futuro dos nossos jovens está suspenso, por todas as razões que apontei acima. No entanto, a música está a despontar para muito jovens como um caminho. É muito bom. Tenho filhos, tenho netos, bisnetos e gostaria de partilhar a minha felicidade com todos. Gosto de ver as pessoas alegres. Gosto de saber que os cabo-verdianos estão satisfeitos.

Está a surgir em Cabo Verde uma nova geração de jovens músicos talentosos. E muitos começam a ser reconhecidos nas ilhas e mesmo lá fora. Como vê esse fenómeno o que está por detrás do surgimento de tantos artistas?

Acho que por detrás do surgimento desta nova geração de artistas estão muitos sonhos. E ainda bem. É triste quem não sonha. Mas, às vezes, há sonhos difíceis de se concretizar. Actualmente a arte, muito em particular a música, está em voga em toda a parte do mundo. Por isso é também mais complicado conseguir aquilo que almejam, ou seja, o sucesso. Alguns acabam por aceitar condições menos boas. Aqui são os responsáveis pela organização desta coisa toda que aproveitam. Por vezes encontramos grandes artistas que são mal remunerados. Não reconhecem o seu valor. Pessoas menos boas aproveitam. E, na medida que os anos vão passando, vemos que são poucos os que conseguem realizar os seus sonhos. A maioria acaba por se submeter aos desejos dos produtores e realizadores. São eles que têm o ´pão e o queijo` na mão e, com isso, os talentos acabam por ficar para traz. Mas isso não acontece apenas em Cabo Verde. Acontece na Europa nos EUA…; enfim, em todo mundo.

Retorno ao tradicional

– Com estes jovens artistas estão a emergir também outros géneros musicais, inclusive houve uma altura em que aconteceu uma explosão do Rap e R&B. Mas agora vemos que muitos jovens estão a voltar-se para a música tradicional. Podes nos explicar o motivo?

– Acho que é porque perceberam que a música tradicional de Cabo Verde tem muito valor. Os outros estilos são de momento. São géneros mais comerciais. Pode-se ouvir alguns trabalhos muito bem feitos, mas não são originais. Muitos são sons da tecnologia. Hoje qualquer criança pode fazer música. E conseguem fazer muita coisa boa. Mas entendo que o tradicional tem o seu lugar e os jovens artistas estão a perceber isso.

– Acho que o mercado local está a aceitar melhor a música tradicional… Hoje encontramos jovens a apreciar músicas nas vozes do Bana, Ildo Lobo, Cesária Évora e outros.

É verdade. Mas o tradicional é do homem. Hoje vemos muitos jovens a tocar violão. Colocam o instrumento no peito e transmitem sentimentos, enquanto que o digital é tudo mais frio. Sei que a tecnologia é o progresso. E ninguém é contra. O homem faz e submete-se ao progresso, mas o tradicional tem o seu lugar. Razão pela qual, com vida e saúde, vou continuar a cantar a nossa tradição. Cabo Verde, a sua existência, depende da sua cultura. Somos um pequeno arquipélago, com cerca de 600 mil habitantes, mas somos conhecidos nos quatro cantos do mundo, muito por conta da nossa cultura, especialmente da música.

Foram Cesária Évora, Bana, Luís Morais, Ildo Lobo, Paulino Vieira e tantos outros que levaram o nosso nome ao mundo. O Manuel d’Novas, através das suas belas composições, retratou fielmente este país. Temos ainda o B.Leza… São muitos. O nosso país desde sempre teve uma enorme força cultural. Temos de continuar. Por isso fico satisfeito com o surgimento de tantos jovens artistas e, principalmente, por estarem a defender a nossa tradição.

– O mercado internacional também parece mais receptivo à música de Cabo Verde…

– É verdade. Hoje qualquer artista que chega lá fora e se apresenta como cabo-verdiano é acolhido. Muitas portas se abrem. Temos muitos descendentes, que sequer conhecem o país, mas que sentem orgulho em dizer que são cabo-verdianos. Cantam mornas, cantam coladeiras e, muitas vezes, sequer falam crioulo. Isto é muito interessante. Alguns artistas estrangeiros também já arriscam cantar a nossa música. Há uma americana, que já esteve em Cabo Verde. Ela teve inclusive professor de crioulo. O nome dela é Cavita. Nasceu nos EUA, com pais de origem indiano, e canta em crioulo. Chegou a pedir-me para escrever-lhe uma letra. Escrevi alguma coisa desejando-lhe boas vindas, esperando que algum dia cantasse como uma crioula. Ela pegou nos pequenos versos que fiz, musicou e gravou. Fiquei muito contente. Isso mostra-nos o verdadeiro tamanho de Cabo Verde a nível da cultura. É lindo.

– Apesar de ser artista há longos anos esta é uma vida que exige algum sacrifício, sobretudo familiar por causa das viagens, ensaios, gravações etc. Como é que lida com tudo isso?

– É verdade. Sabe que saí de Cabo Verde em 1957. Paradoxalmente, saí do meu país como atleta. Na altura jogava basquetebol. Fui participar num torneio de Páscoa na Guiné Bissau. Levei comigo o meu trompete. Na altura já era trompetista e começava a escrever algumas letras. As pessoas ouviram-me tocar e gostaram. Acabei por ficar seis anos na Guiné e trabalhava como funcionário público. Depois fui para Dacar, onde encontrei a minha mulher. Já conhecíamos de Cabo Verde e reencontramo-nos em Dacar. Tivemos um filho. Depois, eu, Luís Morais, Frank Cavaquim, Toy Bibia e Bana fomos para Holanda, onde fundamos o grupo Voz de Cabo Verde. A minha mulher ficou no Senegal com o meu filho algum tempo. Depois viajou para Cabo Verde para deixar o meu filho, seguindo depois para França. Chegamos na Holanda em 1966 e, no final de ’67, fui recebe-la na estação de comboio. Ela fixou residência na França, onde trabalhava, e eu continuei a percorrer a Europa e África com o Voz de Cabo Verde. Mas, sempre que voltávamos à Europa, eu ia a França. Quando estabilizamos, ela veio buscar os filhos para montarmos a nossa casa na França. E acabamos por montar a base. Mas não foi fácil. Houve, ao longo dos anos, muitos sacrifícios.

– Então, sempre teve o apoio da família?

– Sim, mas há sempre sacrifício. Hoje digo que valeu a pena. Quando queremos uma coisa, temos de nos empenhar. Mas temos de estar conscientes que Cabo Vede é pequeno e nem todos vão triunfar. Por isso sinto-me realizado. Tenho a minha família e meu trabalho.

“Amor d’mãe”

– O que pode destacar como os melhores momentos da sua longa carreira?

– São tantos melhores momentos… É difícil. Tive muita coisa boa. Em termos financeiros nem tanto (risos). Mas viajamos para muitos lugares, ainda que tenhamos conhecido muito poucos. Íamos sempre com alegria, ainda que ganhássemos pouco. Mas, a partir de um determinado momento, era preciso pensar na família. Por isso, houve uma certa debandada do Voz de Cabo Verde. Chico Serra saiu, Djozinha foi procurar a vida nos EUA, Toi d’Bibia foi viver na França com a família… Todos tinham responsabilidades com mulheres, filhos…  Entraram então novos elementos para o grupo. É por isso que digo que Voz de Cabo Verde foi o berço da maior parte dos artistas cabo-verdianos. E fico contente.

– E que música marcou a sua carreira?

– Se me perguntar que música gosto mais, digo-lhe logo “Amor d’mãe”. Esta é uma música que fiz para a minha mãe e para todas as mães do mundo. Foi a minha mãe que me apoiou e me incentivou a seguir a vida artística. Mas é uma música que não gosto muito de cantar porque sempre me emociono. Foi graças à minha mãe que aprendi a tocar. Ela sempre me dizia que eu tinha jeito para a música. Desde os meus dois anos que ouvia a minha mãe cantar. Ela tinha prazer em cantar. Aprendi muitas das músicas que ela cantava e cheguei a gravá-las, caso por exemplo de Flor Formosa, Traiçoeira de Dacar, de entre outros. Gravei-os em instrumental porque ainda não me atrevia a cantar.

– Quando é que começou então a cantar?

– Comecei a cantar na Holanda com Voz de Cabo Verde, quando ficamos sem vocalista. Fui um cantor por improviso, ou melhor, de circunstância. Digo isso sempre. Fazíamos tudo pelo conjunto e, quando ficamos sem cantor, tive de desenrascar.  Foi possível porque eu já tinha um princípio que trouxe da escola. Tenho também uma música que gosto muito, “Kriol e bitch”, inclusive o Presidente da República disse-me que gosta muita desta música. É uma música que tem uma série de adjectivos que são próprios dos cabo-verdianos. Gosto desta música porque passa uma mensagem. Aliás todas as músicas contêm mensagens.

– Tem sempre a preocupação de transmitir algo nas suas músicas?

 Claro, a música é um excelente veículo para se transmitir mensagens. Temos de trabalhar os versos para que a música possa perdurar. Se fizermos uma grande melodia e esta não tiver um bom verso, fica no ar. Fica a faltar alguma coisa. Um bom poema faz eternizar uma música.

– Assume-se como uma pessoa muito apaixonada?

 – Sim, pode-se dizer que sou uma pessoa apaixonada. Faço tudo com paixão. Por isso, até quando eu estava doente, continuei a trabalhar. Tenho papéis em todos os lugares para anotar tudo o que me passa pela cabeça. Qualquer imagem, frase, som, ou outro que me toca, eu faço questão de anotar. Depois começo a trabalhá-los, a dar-lhes o sentido brejeiro da poesia, impregnados de sentimentos de amor. Sou um apaixonado pela vida. Tenho 87 anos, mas as pessoas não acreditam. Nasci a 24 de Junho de 1931. Há dias uma menina olhou-me fixamente nos olhos e me perguntou se tenho certeza de que a minha mãe não enganou na minha idade. Mas fico satisfeito por as pessoas apreciarem a minha maneira de ser.

– O que ainda não fez, mas gostaria de fazer?

 Penso que fiz tudo o que quis. Não devemos ser egoístas. Penso que, dentro das minhas possibilidades, consegui tudo o que pude e quis fazer até agora. Estou satisfeito.

Mágoa guardada

– Guarda alguma mágoa ou frustração?

– Mágoa tenho sim, enquanto ser humano e artista. Há pessoas que se aproveitam do nosso talento. Esta é uma arte sensível, o que faz que tenhamos sempre mágoas. Há pessoas que se aproveitam daquilo que sentimos e que nos emociona. Vejo como aproveitam de muitos artistas novos, dos seus dons e valores culturais e sentimentais. Isso machuca. No meio artístico é normal surgir mágoas. Felizmente, ouvi disser que se está a trabalhar para se respeitar o direito do autor aqui em Cabo Verde.

– A questão do direito de autor é um problema também para si?

 – Felizmente não. Isto porque inscrevi-me na Sociedade de Autores e Compositores (Sacem) desde 1964. Eu e o falecido Luís Morais fomos dos primeiros cabo-verdianos a inscrever os nomes nesta sociedade. Estávamos em Dacar, ainda durante o curso preparatório para Conservatória, quando apareceu um agente da Sacem e foi falar connosco. Foi ele que nos perguntou porque não nos inscrevíamos nesta sociedade para podermos tirar algum proveito da nossa arte. Na altura ele nos explicou que teríamos de entregar quatro partituras das nossas composições, data e local de nascimento. Ele faria o resto. Fomos inscritos. Saímos de Dacar em 1966 e, desde então, nossos direitos estão precavidos. E até hoje usufruo deste beneficio. Por isso entendo que tenho de esclarecer e apoiar outros artistas neste sentido.

– Estimula outros artistas a também se inscreverem na Sacem?

 – Exactamente. Isto porque a música, especialmente depois do sucesso de Cesária Écora, abriu de tal forma que nos permitiu consciencializar ainda mais do seu real valor. O retorno cresceu significativamente. Infelizmente na África ainda não se paga nada. Em Cabo Verde eu sei que estão a tentar trabalhar esta questão do direito de autor. Isso é muito positivo. Estou contente e disponível para ajudar naquilo que eu puder. Temos de preservar e proteger aquilo que chamamos de “Propriedade Intelectual”. O proprietário tem o seu direito de usufruir.

– Que conselho deixa aos jovens que estão agora a iniciar a sua carreira musical?

–  É difícil dar conselhos. A nossa juventude está a crescer a uma velocidade tremenda, mas perspectivas estão estagnadas. Neste momento qualquer pessoa pode ser músico. Temos crianças com 10, 12 anos com um dom verdadeiro. Muitas pessoas estão a aproveitar-se delas. É preciso que os pais cheguem à frente e os ajudem. O que digo é para continuarem com bons princípios, boa técnica e que procurem sempre formação. Não pensem muito em termos de retorno monetário. Mas também que não sejam muito inocentes. É só isso.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Grande entrevista, sim Senhor, com um grande da nossa música, que muito admiro. Mas não me conformo com essa coisa, que considero uma aberração, de intercalar o nominho no nome próprio das pessoas. Joaquim “Morgadinho” Almeida? Já estava muito bom, “Joaquim Almeida, ou, simplesmente, Morgadinho”, ou algo parecido, como se escrevia antes. Se calhar sou demasiadamente antiquando, mas há modernices que não vale a pena seguir.

  2. Muito bom a entreviste ,faz sempre prazer ouvir uma pessoa falar assim do seu pasionante trabalho e da sua cultura com muito Amor e humildade.Desejo que tudo que voce quer fazer para mindelo concretiza porque as voças musicas é nossa herançe.

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