Jogos na Pracinha do Liceu

290

Por Rocca Vera Cruz

A pracinha do Liceu Velho sem aqueles renhidos jogos d’putim à noite transformou-se numa chatice completa: agora é uma babá que passa, empurrando sem qualquer afecto, um carrinho de bébé, é um par de velhos que troca silêncios num banco, é um mendigo que se prepara para passar a noite ao relento…

E, no entanto, ainda há uns anos, a Pracinha fervia de meninos, de sol, de lua, de bola, de sonho: “Eu jogo na linha! Sou o Néné, o Manuel Fernandes , o Duda; na baliza eu não jogo,  tenho ainda o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabem, mato um fdp.” Uma gritaria, toda a gente queria jogar, todo mundo querendo marcar, bendito fruto de um jogo d’putim. Sete de cada lado e, para não confundir, um time ficava  como estava, o outro jogava sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova ou velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música, conforme esteja nos pés de Ronaldo, de Eusébio ou nos nossos. Em compensação, na Pracinha a bola corre para cá, corre para lá, bate na cabeça da estatua do Dr. Duarte Silva, salta para no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, neste joguinho inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, tratava-se de uma bola profissional, uma número cinco, como dizíamos. No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior festa do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertavam-lhe um bico, ela saia zarolha, vendo estrelas.

Os jogos na Pracinha eram assim mesmo, tinham bico, mas tinham também jogadas de craque como aquela do Goida, que empatou o jogo e  lavou a alma de qualquer bola. Uma pintura. Ptá jog ot vez.

Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites, para dentro do quintal do Palácio do Povo, de onde é devolvida, sem demoras, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola volta a cair nos terrenos do Palácio, de onde volta lançada com as duas mãos por um velhinho.

Da terceira vez, a bola fica por lá; ou melhor, aparece cinco minutos depois, debaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestindo uma calça velha e nu da cintura para cima. Era o guarda do Palácio.

A rapaziada, meio assustada, fica na defensiva, olhando: entra, vai andando para o centro do campo, pôe a bola no chão e, quando os dois times ameaçam agradecer com palmas e risos o gesto do vizinho generoso, o homem, cara de filho da puta, tira da cintura uma navalha e espeta-a 5 vezes na bola. A cada navalhada o coração de cada um de nós se desfaz.

Num instante o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de chorar.

(Visited 296 times, 1 visits today)

1 COMENTÁRIO

  1. Rocca pedi Camara pa alcatroa kel ote lode de Rua de Liceu ( lode casa de bo Mãe ) assim no ta organiza um pelada na estrada, pelo menos no ta faze menos barulho do ki kes mota kkkk.
    P.S. Kes mos ke tava jega antes jasa emigra tude pa Praia,Sal ou Boavista li kata ke traboie jjjj

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here