Jornalistas e repórteres de imagem condicionados na cobertura do Carnaval de São Vicente

1376

Os jornalistas da média impressa e online assim como os repórteres de imagem foram condicionados na cobertura do Carnaval mindelense. É que esses profissionais de Comunicação Social estavam a ser impedidos pela polícia de circular na Rua de Lisboa para fotografar e filmar no início do desfile do grupo Monte Sossego.

A ordem dada pela polícia, seguranças privados e militares era de que os jornalistas não poderiam “descer” para captar imagens do grupo, a não ser do Abre-alas. Esses elementos de segurança disseram que, a mando da organização do Carnaval, os jornalistas tinha que avançar em direcção ao Palácio do Povo à medida que o grupo ia entrando na rua porque a avenida estava estreita. Logo à entrada dos grupos três elementos do Corpo de Intervenção posicionaram-se à frente do grupo, o que, para além de passar uma imagem menos boa, cortava as possibilidades dos fotógrafos em fazer fotos bem enquadrados, mesmo estando os jornalistas longe da agremiação carnavalesca.

A sugestão dada era que os jornalistas e repórteres de imagem ficassem do outro lado da rua onde se posicionava o público, isto é na “contra-luz”, posição contraproducente. Quem entende do assunto sabe que é difícil fazer imagens nítidas com os raios solares focados directamente na objectiva da máquina. Entretanto, os jornalistas de rádio e televisão tinham o privilégio de circular até o fim da rua, até as imediações da biblioteca municipal. Aliás, a discriminação dos demais órgãos da comunicação em relação à RTC é por demais evidente em Cabo Verde. Basta dizer que uma conferência de imprensa não começa enquanto a TCV não chegar, o que começa a chatear os jornalistas dos outros órgãos.

Vários foram os profissionais que protestaram contra essa medida aplicada no desfile do Carnaval. Defenderam que tal ordem era uma tentativa de quartar a comunicação social porque condicionava o trabalho já que era impossível captar imagens das outras alas e de vários ângulos do grupo. “Empurrados“ em direcção ao Palácio, os jornalistas e repórteres de imagem posicionaram-se em fila no sopé do palanque onde se encontrava as entidades, entre eles o presidente da Câmara Municipal de S. Vicente, Augusto Neves, e o Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.

Porém, o presidente da autarquia mindelense não ficou contente por ver os jornalistas ali e pediu à segurança que fossem retirados dali. Só que a presidente da Assembleia Municipal Fernanda Vieira interveio a favor dos jornalistas ao afirmar que não poderiam retirá-los porque estavam apenas a fazer o seu trabalho. A jornalista deste diário digital corroborou as afirmações de Fernanda Vieira e deixou claro ao edil Augusto Neves que ia relatar esse “tratamento discriminatório” dado a ela e aos colegas no exercício da profissão”. Em resposta, Neves disse: “Podes escrever o que quiseres. Nós viemos aqui para ver o Carnaval”.

O desrespeito aos profissionais de imprensa começou bem cedo. É que só conseguiram receber os crachás no dia do desfile do Samba Tropical por volta das 18h30. Antes tiveram no entanto que provar com fotocópias da carteira profissional a sua condição de jornalista, isto depois de muitas idas e voltas à Câmara Municipal de São Vicente. Este facto prova que mais uma vez foi feita tábua rasa do Artigo 60º da Constituição, principalmente nos seus pontos 1,2 e 3, que versa sobre a “Liberdade de Imprensa”. Aliás, a alínea 3 é clara ao referir que “É assegurada a liberdade e a independência dos meios de comunicação social relativamente ao poder político e económico e a sua não sujeição à censura de qualquer espécie”. Tudo isso acontece quando se propala que Cabo Verde é um dos países mais livres de África.
Vale referir que, depois desse “burburinho”, a situação ficou normalizada e os jornalistas puderam circular e fazer o seu trabalho livremente.

Carina David

(Visited 1.458 times, 1 visits today)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here